Pilotar um F1 continua sendo desafiador, mas da maneira errada

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“Hoje em dia, pilotar um carro de F1 é tarefa para qualquer um. Difícil mesmo era antigamente…” Quantas vezes você, apaixonado por automobilismo, já ouviu essa frase ser dita e repetida por aí?

Mas deixemos o saudosismo de lado. Analisando os relatos feitos por vários pilotos ao longo dos anos, constata-se que o tipo de dificuldade imposta pelos carros modernos é diferente do que era visto há décadas, mas ainda assim se trata de um desafio grande. No entanto, a mudança neste cenário explica um pouco o tipo de imagem que a F1 passa ao seu público hoje em dia.

Recentemente, Carlos Sainz, de 20 anos de idade, deu sua impressão sobre a F1 depois de seis corridas disputadas na categoria mais importante do automobilismo:

“Fisicamente, não é tão exigente, mas, mentalmente, é horrível. As pessoas dizem que a F1 é fácil para os novatos, e talvez possa parecer, mas não é. Você precisa ficar 20% focado na pilotagem e 80% nas outras coisas. Normalmente, seria o contrário.”

Quando o espanhol diz “outras coisas”, se refere às habilidades multitarefas de um piloto contemporâneo, como fazer todos os ajustes no volante, falar no rádio com seus engenheiros, economizar pneus, lidar com a bateria da unidade de potência híbrida e a distribuição de freios, que pode ser ajustada de curva para curva.

Sainz classificou a F1 como "mentalmente difícil" (Mark Thompson/Getty Images)
Sainz classificou a F1 como “mentalmente difícil” (Mark Thompson/Getty Images)

Em 2013, durante sua temporada de estreia na F1, Max Chilton levantou a mesma questão: “Há mais coisas que precisamos lidar. Em categorias de base, você pode relaxar nas retas, mas na F1 você não tem esse luxo”, observou.

A complexidade de um carro de F1 moderno é simbolizada pelo número excessivo de botões em seu volante. A peça, que pode acumular dezenas de comandos, tem função importante para otimizar o desempenho do monoposto. Andar no limite do carro e, ao mesmo tempo, dominar todos seus recursos tecnológicos é uma tarefa árdua, que exige concentração quase que sobre-humana, e acaba, assim, também destacando os pilotos mais capazes do grid.

Um exemplo disso foi visto no GP de San Marino de 2002, em Ímola. Na ocasião, Michael Schumacher roubou a pole position de Rubens Barrichello por 0s064 ao mudar, com a ponta de seus dedos no volante, o ajuste de sua Ferrari por oito vezes durante a volta lançada. O feito obtido pelo alemão naquele dia deixou a equipe italiana de queixo caído, espantando até mesmo a Barrichello.

Volta de Schumacher em Ímola impressionou sua equipe. A torcida, nem tanto (Divulgação)
Volta de Schumacher em Ímola impressionou sua equipe. A torcida, nem tanto (Divulgação)

No entanto, atualmente, em tempos de estudo visando a mudanças radicais a serem aplicadas na F1 para aumentar sua popularidade, será que não chegou a hora de discutir se a categoria não está se complicando demais à toa?

Guiar um carro de corrida a mais de 300 km/h, no limite, tendo de fazer malabarismos com os apetrechos tecnológicos, é um desafio grande, mas não causa nenhum tipo de impacto positivo no grande público. Pelo contrário: os atuais competidores são comparados a “pilotos de videogame”, até mesmo por quem entende do assunto. Coloque nesta conta outros recursos questionáveis, como o DRS para facilitar ultrapassagens, e temos formada a queixa de muitos exposta na abertura deste artigo.

Um dos grandes trunfos da F1 em termos de imagem é a capacidade de seus carros em causar fascínio no público, o que também se converte em admiração pelos pilotos, capazes de domar as poderosas máquinas. Para quem tem certeza absoluta de que a F1 do passado era mais desafiadora, muito disso se explica justamente pelo tipo de desafio que era imposto no passado.

Tocada de pilotos do passado eram visualmente mais impressionantes (Divulgação)
Tocada de pilotos do passado era visualmente mais impressionante (Divulgação)

Se antigamente o piloto se concentrava em trocar de marcha na rotação certa do motor, sem deixar o carro escorregar em demasia na saída da curva, hoje em dia o foco é voltado ao ajuste do diferencial no volante, enquanto se troca informações valiosas com o engenheiro via rádio. Sem entrar no mérito se era mais fácil ou difícil no passado, a questão é que os principais desafios impostos nos tempos atuais são irrelevantes para o público e ignorados por muitos.

Para que o cenário mude, a F1 poderia considerar a possibilidade de simplificar algumas coisas que hoje são exageradamente complicadas. Desta forma, para a alegria do jovem Sainz, suas contas se inverteriam e 80% de seu foco se voltaria à pilotagem pura.

Mas não nos deixemos enganar: permanecendo complicada ou não, a F1 jamais se tornará algo fácil para os pilotos. Nesse ponto, o campeão de 1978, Mario Andretti, resumiu com perfeição:

“Se tudo parece estar sob controle, é porque você não está pilotando rápido o bastante…”

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.