Pilotos americanos e F1: relação de muitos sucessos e grandes decepções

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Nesta virada de 2017 para 18, a questão de pilotos americanos na F1 voltou a ganhar certo destaque após uma declaração de Gunther Steiner, chefe da Haas, time que justamente representa o país, de que não existem ases no automobilismo dos Estados Unidos preparados para correr na categoria.

Para colocar mais lenha na fogueira, queira ou não, a morte de Dan Gurney nestes primeiros dias do ano fez ainda todos relembrarem os feitos deste grande exemplo de talento das pistas vindo da terra do Tio Sam e que brilhou dos dois lados do Atlântico.

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A relação dos Estados Unidos com a F1 sempre foi esquisita. O público em geral parece não ligar muito para o Mundial (assim como acontece em várias outras modalidades esportivas), mas o GP é um dos mais tradicionais do calendário, sendo que o país já chegou a receber por vários anos mais de uma etapa por temporada, e os pilotos americanos, principalmente nas eras mais românticas, sempre tiveram a curiosidade e vontade de participar ou, pelo menos, experimentar.

Sendo assim, nós do Projeto Motor resolvemos criar uma lista de grandes nomes de sucesso na F1 vindos do país dos muscle cars que todos nós adoramos. Mas achamos que não deveríamos parar por aí. Relembramos também os pilotos americanos de talento que deram errado e os que nunca competiram na categoria, mas que todos nós vamos morrer de curiosidade para saber o que eles poderiam ter feito.

Os melhores pilotos americanos que já correram na F1:

5 – Richie Ginther (1960 – 67)

Richie Ginther, com o carro da Honda, em Spa
Richie Ginther, com o carro da Honda, em Spa

Equipes: Ferrari, BRM, Honda e All American Racers
GPS: 54
Vitórias: 1
Pódios: 14

O californiano teve sua carreira bastante ligada à de Phil Hill, um amigo de seu irmão mais velho. Foi através dele que começou a frequentar e a competir em corridas.

Estreou na F1 pela Ferrari em 1960, com apoio de Hill. Em quatro corridas, conquistou um pódio, no GP da Itália, completando uma dobradinha da equipe de Maranello justamente com seu amigo compatriota. Na temporada seguinte, foram mais três pódios e assim ele seguiu, sempre como um piloto competitivo. Seu auge, porém, foi pela Honda, quando conseguiu a primeira vitória da marca japonesa na F1, no GP do México de 1965.

Em 1967, após enfrentar um vazamento de combustível durante um treino para as 500 Milhas de Indianápolis, em que ficou encharcado, ele resolveu se aposentar por acreditar que não queria mais enfrentar tal nível de perigo.

4 – Peter Revson (1964-74)

Peter Revson em sua McLaren
Peter Revson em sua McLaren

Equipes: Revson, Reg Parnell, Tyrrell, McLaren e Shadow
GPs: 30
Vitórias: 2
Pódios: 8

Herdeiro de uma fortuna, Revson é o típico estereótipo de piloto romantizado dos anos 60 e 70 na cabeça dos fãs: rico, bon vivant, que acelerava dentro e fora da pista, e sempre circulava com algumas das mais belas mulheres do momento. Mas não deixe isso encobrir a bela carreira desse piloto americano na F1.

Depois de começar a correr no Havaí, onde cursou universidade, ele resolveu partir para a Europa ainda no começo da década de 60 para se profissionalizar. Para entrar na F1, comprou um chassi Lotus 24 e um motor BRM 1.5L V8 e participou da temporada de 64, sem muito sucesso. Ele voltou aos Estados Unidos, onde se concentrou na Indy e Can-Am, até ter uma nova chance, desta vez pela Tyrrell, em 71.

Revson explodiu na categoria, porém, apenas em 72 pela McLaren, equipe pela qual se sagrou campeão da Can-Am alguns anos antes nos EUA. Foram quatro pódios e uma pole position. Em sua segunda temporada pela equipe, em 73, ele conquistou suas duas vitórias e terminou em quinto no campeonato.

Em 74, ele se transferiu para a Shadow, mas na terceira etapa, em Kyalami, sofreu um acidente fatal, aos 35 anos, durante os treinos devido à quebra de uma das suspensões.

3 – Phil Hill (1958 – 66)

PhilHillDonnington1961
Equipes: Jo Bonnier, Ferrari, Cooper, Porsche, ATS, Ecurie Filipinetti, Cooper
GPs: 48
Vitórias: 3
Pódios: 16
Títulos: 1

O primeiro piloto americano a se sagrar campeão da F1. O único, até hoje, nascido no país a realizar tal feito. Phil Hill é um marco para automobilismo europeu. Para se ter ideia, ele ainda tem três vitórias nas 24 Horas de Le Mans. Mas por que ele não está na primeira posição da lista, então? Ele certamente não era tão espetacular quanto os seus concorrentes aqui lembrados.

Nascido em Miami e formado em administração, ele começou a correr muito jovem e ainda no final dos anos 40 se aventurou no continente europeu como estagiário da Jaguar. Em 1955, passou a competir pela Ferrari em Le Mans e, mais tarde, na F1.

Seu título foi uma grande surpresa, já que a taça de 1961 tinha tudo para ficar com outro piloto da Ferrari, Wolfgang von Trips, que liderava o campeonato, mas sofreu um acidente fatal na penúltima etapa, em Monza. Com uma vitória na mesma corrida, Hill, mesmo sem participar, em luto, da prova final, nos Estados Unidos, ficou com o título.

2 – Dan Gurney (1969 – 70)

Dan Gurney
GPs: 86
Vitórias: 4
Pódios: 19

É possível dizer que a primeira posição desta lista é quase um empate técnico. Dan Gurney foi um dos grandes talentos que passaram pela F1, apesar de nunca ter conquistado o título. Como já afirmamos aqui no Projeto Motor, é possivelmente o piloto mais completo da história, ao ter sucesso em praticamente todas as categorias em que passou, nos mais variados tipos de carros.

Para saber mais sobre a carreira deste piloto americano de muito sucesso, confira o texto especial sobre ele, produzido pelo site na época de sua morte.

1 – Mario Andretti (1968-82)

Mario Andretti celebra vitória no GP dos EUA de 1977
Mario Andretti celebra vitória no GP dos EUA de 1977

Equipes: Lotus, STP, Ferrari, Parnelli Jones, Alfa Romeo, Williams
GPs: 128
Vitórias: 12
Pódios: 19
Títulos: 1

Andretti fica na primeira posição porque junta o que Gurney e Hill tinham: a genialidade para pilotar carros de corrida de qualquer tipo de um e o título do outro. Além do talento de ambos, claro.

Nascido na Itália, ele e sua família imigraram para os Estados Unidos em 1955, após passarem alguns anos como refugiados da II Guerra em um campo em Lucca, na Toscana. Os Andretti se estabeleceram na cidade de Nazareth, no estado da Pennsylvania, e em 64 se naturalizaram americanos.

Andretti e Gurney são, até hoje, os únicos dois pilotos da história a vencerem corridas na F1, Indy, Mundial de Endurance (ou de Marcas ou de Esporte-Protótipos) e Nascar. Ele e Juan Pablo Montoya ainda são os únicos a vencerem corridas na Nascar, F1 e as 500 Milhas de Indianápolis. Mario ainda é o último piloto americano a vencer uma corrida de F1. Seu último êxito foi no GP da Holanda de 1978.

Ele começou na F1 no final dos anos 60 se dividindo com categorias americanas, até que passou a priorizar a categoria na segunda metade da década. E o investimento valeu a pena. Se não era o piloto mais talentoso do grid da época, era bom o bastante para ajudar Colin Chapman a desenvolver um de seus maiores sucessos: o Lotus 79, famoso por seu pioneirismo no efeito solo.

Assim, bateu seu talentoso companheiro de equipe, Ronnie Peterson, para se sagrar campeão mundial de 78 e cravar para sempre seu nome na história do automobilismo americano e mundial.

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Pilotos bons que acabaram se tornando decepções:

Michael Andretti (1993)

Michael Andretti, em sua MP4-8, em Silverstone
Michael Andretti, em sua MP4-8, em Silverstone

Equipe: McLaren
GPs: 13
Melhor resultado: 3º (GP da Itália de 1993)

Campeão da Indy e com o sobrenome Andretti em uma das equipes mais tradicionais da F1. O que poderia dar errado? Deu tudo errado. A passagem de Michael pela F1 foi uma grande decepção, cheia de problemas, acidentes e falta de resultados. Em 13 provas, ele terminou na zona de pontuação três vezes. No mesmo período, seu companheiro, Ayrton Senna, ficou entre os seus primeiros em nove oportunidades e conquistou três vitórias. A passagem de Michael Andretti é certamente algo que ele gostaria de esquecer em meio a uma carreira tão vitoriosa nos Estados Unidos.

Bobby Rahal (1978)
Equipe: Wolf
GPs: 2
Melhor posição: 12º

Um dos mais talentosos pilotos americanos da década de 80, passou como um foguete pela F1. Largou em duas provas pela Wolf e terminou em 12º em uma e abandonou quando era 18º em outra. Saiu na 20ª posição do grid em ambas as corridas. Seu companheiro de equipe, Jody Scheckter terminou no pódio nas duas etapas.

A passagem de Rahal pela F1 e Wolff: rápida e sem sucesso
A passagem de Rahal pela F1 e Wolff: rápida e sem sucesso

Pilotos que não correram na F1, mas gostaríamos de ter visto:

Al Unser
– Tricampeão da Indy e recordista de vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis, com 4
– Teve uma carreira de muito sucesso em monopostos nos Estados Unidos e teria tudo para ser uma estrela americana na F1

Al Unser Jr
– Bicampeão da Indy e duas vezes vencedor das 500 Milhas de Indianápolis
– Assim como o pai, teria tudo para ser competitivo na F1

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Rick Mears
– Assim como Al Unser, foi tricampeão da Indy e recordista de vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis, com 4
– Com grande experiência em monopostos, também seria um piloto americano que poderia se desenvolver bem na F1

AJ Foyt
– Hexacampeão da USAC, o embrião da Indy, e também recordista de vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis, com 4
– Vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1967, conhecia o ambiente europeu
– Uma lenda do automobilismo americano, seria normal ter uma boa chance na F1

Jeff Gordon
– Tetracampeão da Nascar
– Ok, admitimos que chance de dar certo seria pequena. Mas que seria legal de ver, seria…

Tony Stewart
– Tricampeão da Nascar
– Campeão da Indy em 1997
– Com experiência em monopostos nos ano 90, seria interessante ver o que ele poderia fazer em um F1. Na mesma linha de Jeff Gordon, até pela experiência na Indy ter sido apenas em ovais, admitidos que a chance de dar certo seria ínfima. Mas…

Jimmie Johnson
– Heptacampeão da Nascar, já está na história da categoria.
– É frio e talentoso. Também teria chance pequena de sucesso, mas, com tempo para desenvolvimento, alguém duvida do que esse cara poderia fazer?

Sam Hornish Jr.
– Tricampeão da Indy e vencedor das 500 Milhas de Indianápolis de 2006
– Matador e experiente nos monopostos, poderia se desenvolver na F1 com o tempo certo

Ryan Hunter-Reay
– Campeão da Indy de 2012 e das 500 Milhas de Indianápolis de 2014
– Fez duas provas na A1GP e, se não conseguiu nenhum grande resultado, mostrou que poderia se desenvolver com mais tempo
– É um dos melhores pilotos americanos dos últimos anos. Rápido e estratégico, poderia se encaixar bem na F1

Josef Newgarden
– Campeão da Indy de 2017
– Jovem, sempre mostrou velocidade desde sua chegada à categoria, em 2012
– Tem vitórias tanto em circuitos mistos quanto ovais
– Diferente da maioria dos pilotos americanos da atualidade, já competiu na Europa, na GP3, na equipe Carlin, e chegou a marcar uma pole position
– Da lista, talvez seja o com características que mais propiciariam uma boa adaptação à F1

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Ernesto

    Talvez devesse ter falado também sobre Eddie Cheever, que foi quem mais corridas disputou.

  • Ruy Petra

    Seria bom também citar Harry Schell e Herbert Mackay-Fraser, ambos grandes pilotos esquecidos dos anos 50, ambos mortos precocemente nas pistas.

  • Na época, marcou-me muito a má vontade com que a F1 como um todo, e a Globo em particular, receberam Michael Andretti. O contraste com os braços abertos com que a Indy recebeu Mansell, independentemente da diferença dos resultados, foi gritante e traduz bem a diferença de clima que marca as duas categorias ainda hoje.

    A perseguição ao filho de Mário chegou aos limites da sabotagem. Um monumento à ameaça que a F1 chegou a ver na internacionalização da Indy nos anos 90. Michael teria sido perfeito para conquistar o mercado americano. Um bom piloto ianque, num carro decente como a McLaren, mereceria mais uma ou duas temporadas e tratamento diferenciado por parte de Bernie, mas o medo fez com que “a F1″ preferisse fritá-lo o mais rápido possível. Calcularam que seria melhor usar a oportunidade para desvalorizar o que vinha da CART…

    Coincidência ou não, Mansell sofreu uma enorme queda de competitividade em seu segundo ano americano…

  • Leandro Farias

    O que teria sido aquele ano de 1993 com Al Unser Jr no lugar do Hill…