Pilotos aposentados que voltaram a sentir o gosto de guiar um F1 – Parte 6

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Ufa! Finalmente chegamos à derradeira parte de nosso especial. Justamente por ser o fascículo de encerramento guardamos para agora alguns momentos bastante especiais, que fecharão esta série com “chave de ouro”.

Releia as outras secções:
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
– Parte 5

Stirling Moss, Carlos Reutemann, Jean Alesi, e Jacques Laffite. Quatro dos ases mais importantes da história da F1 se considerarmos o rol dos “não campeões”. Confira:

1. Stirling Moss (1975 e 1983)

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Um grande volante para quem a falta de um título mundial é mero detalhe. Sir Stirling Moss é tão importante para o automobilismo britânico que foi ele o escolhido pela revista Motor Sport, provavelmente a mais tradicional da história do automobilismo, para participar de um track day em celebração aos 50 anos da publicação no circuito de Donington Park, em meados de 1975 (portanto 13 anos após o prematuro encerramento de sua carreira, devido a um grave acidente sofrido em Goodwood).

Usando uma indumentária que ainda remetia a seu tempo (capacete aberto e par de óculos), o tetra vice-campeão pilotou clássicos como um Bugatti Type 51, um Maserati 8CM, uma Ferrari 375, um Lotus 18 e… O Tyrrell 006 que rendeu o terceiro campeonato mundial a Jackie Stewart, 73. Era a primeira vez que Moss pilotava um monoposto dotado de asas e pneus lisos. “É fantástico!”, descreveu, à época. “Você só aponta [o volante]e o carro obedece”, completou.

Um decênio mais tarde, Moss regressaria ao habitáculo de um bólido contemporâneo. Amigo próximo de Bernie Ecclestone e outros membros da Brabham, Sir Stirling foi convidado a ser comentarista num vídeo promocional da equipe sobre a campanha vitoriosa de 1983. Já que ele faria aquilo, por que não saber como o icônico BT52 se comportava, não é mesmo? Lá foi Moss, com seu capacete opalescente de piloto de scooter e seus óculos de acrílico, dar umas voltinhas com o “carro-flecha” na configuração encurtada do traçado de Brands Hatch.

“Os caras ficaram um pouco chocados [com os equipamentos de segurança]”, contou Moss em sua autobiografia. “Mas eu lhes disse que aquela era a forma com a qual eu estava acostumado a pilotar e não iria mudar àquela altura da vida. Somente eu e Jack Brabham tínhamos autorização da FISA [atual FIA]para andar num F1 daquele jeito”, seguiu. E a sensação de andar num modelo turbocomprimido? “Até você achar o limite ele é fácil de guiar, porque aqueles pneus largos proporcionam muita aderência. Mas a potência é inacreditável. Quando se chega a 8 mil rpm, parece que o carro vai entrar em órbita”, detalhou.

Moss se empolgou tanto que completou 60 voltas e chegou a dar uma rodada na 40ª passagem. Seu tempo mais rápido foi de 46s6, a 5s5 do que Nigel Mansell obtivera com um Lotus naquela mesma versão de traçado. Nada mau para um “senhor”. “Ele estava realmente acelerando, e não apenas fazendo um bonito para as fotos. Dava para sentir que ele estava levando a sério e curtindo o momento”, contou Ivan Capelli ao biógrafo Andrew van de Burgt, autor de um livro sobre o BT52. O italiano estava presente em Brands Hatch no dia do teste e também deu umas voltinhas.

2. Jean Alesi (2002)

Alesi no McLaren MP4-16B
Alesi no McLaren MP4-16B

Jean Alesi deixara o posto de titular da F1 ao fim de 2001 para se juntar à esquadra da Mercedes-Benz no DTM. Foi justamente por essa movimentação que acabou convidado pela McLaren, à época parceira da montadora germânica, para realizar um extenso programa de avaliação dos pneus Michelin em março de 2002, logo após a realização do GP de abertura daquela temporada, na Austrália. O carismático ítalo-francês tinha o trunfo de conhecer tanto os compostos franceses quanto os da rival Bridgestone.

Por isso, realizou uma bateria de três dias de testes exaustivos com o MP4-16B, versão atualizada do carro de 2001, em Paul Ricard. Foram 224 giros completados pelo circuito de 5.808 metros, um total de 1,3 mil km rodados sob as mais diversas condições climáticas. “Pilotar um McLaren significou muito para mim. Durante meus 13 anos de carreira essa quase sempre foi a equipe a ser batida”, elogiou.

3. Carlos Reutemann (1983, 1995  e 2005)

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Eis mais um ex-piloto que teve oportunidade de conduzir carros de diferentes épocas após a aposentadoria. Entretanto, o primeiro registro de Carlos Reutemann em um F1 após sua retirada das pistas, no princípio de 1982, está envolto numa bolha de obscuridade. O argentino participou dos primeiros testes da Ligier com o propulsor Renault V6 turbo, em dezembro de 1983, também em Le Castellet. Os motores da marca conterrânea empurrariam os carros da escuderia a partir do ano seguinte, e estavam sendo avaliados pela primeira vez numa derivação adaptada do modelo JS21.

Pouco se sabe se “Lole” estava ali galgando uma vaga ou apenas “prestando ajuda”. Fato é que o vice-campeão de 81 sequer levou capacete: teve de treinar com o casco do novato Michel Ferté, que também participou da sessão. É por isso que fica difícil saber, só pelas fotos, se quem estava andando era um ou outro no momento de cada imagem. Assim, a fotografia usada neste artigo pode ter sido meramente ilustrativa. Ou não.

Em 1995, Reutemann voltou a sentar no cockpit de uma Ferrari, em uma exibição com a 412 T1 realizada no domingo do GP da Argentina daquele ano, no Oscar Gálvez. Carlos deu algumas voltas em condições de pista extremamente molhada antes da largada. Depois completou a festa com mais algumas passagens, já com o asfalto seco, ostantendo na mão esquerda uma bandeira do país (para deleite dos fãs). Por fim, em 2005, o latino completou algumas voltinhas com a vencedora F2004 em Fiorano a convite da Scuderia.

4. Jacques Laffite (1988)

Jacques Laffite Ligier 1988

Tudo bem que o afastamento de Jacques Laffite do Mundial se deu de modo abrupto (um grave acidente na primeira largada para o GP da Grã-Bretanha de 1986, em Brands Hatch, que culminou em fraturas nas duas pernas), mas não necessariamente precoce: o francês já passara dos 40 e estava numa espécie de “hora extra”, embora ainda se mostrasse benvindamente competitivo. É por isso que seu teste com o Ligier JS31, realizado pouco antes do início da temporada 1988, nada teve a ver com um possível regresso ao grid.

Laffite queria apenas experimentar o bólido para uma reportagem de TV, e deu nada mais do que seis voltas a bordo do modelo. O evento era tão descompromissado que os giros do V8 naturalmente aspirado da Judd foram limitados ao pico de 10,2 mil rpm. “Acho que o carro tem bom potencial, mas no momento ele sai muito de frente”, relatou o veterano, que teve de pilotá-lo sem direção assistida, pois o recém-instalado sistema vinha apresentando problemas, a ponto de os titulares René Arnoux e Stefan Johansson descartarem seu uso nas primeiras rodadas do certame.

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 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.