Pilotos da F1 que cruzaram a linha em primeiro, mas não venceram

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O caso de Sebastian Vettel no GP do Canadá de 2019 não é o primeiro da história da F1 em que um piloto recebe a bandeira quadriculada na liderança da corrida, mas não fica com a vitória. Aliás, longe disso.

Até mesmo o herdeiro da vitória de Montreal, Lewis Hamilton, já passou por isso na F1. Outros grandes nomes também tiveram a experiência, porém, por razões diferentes perderam suas vitórias. Vamos relembrar alguns dos principais casos.

Lewis Hamilton, GP da Bélgica de 2008

Vamos começar pelo inglês, já que ele foi o grande beneficiado pela decisão dos comissários no GP do Canadá. Só que há 11 anos, a situação foi diferente. Hamilton, na época na McLaren, cruzou a linha de chegada na primeira posição, mas ficou sem a vitória.

A prova daquele domingo em Spa foi praticamente toda dominada por Kimi Raikkonen, da Ferrari, com Hamilton em segundo e Felipe Massa em terceiro. Nas voltas finais, começou a chover e o inglês partiu para cima do finlandês. Os dois travaram uma bela briga por cerca de duas voltas com pneus de seco na pista molhada.

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Em certo momento do pega, Hamilton passou reto na chicane que leva à reta dos boxes de Spa. Ele devolveu a posição a Raikkonen, porém, imediatamente pegou o vácuo do rival e fez nova ultrapassagem na freada seguinte. O finlandês, tentando superá-lo, bateu no final daquela volta.

Hamilton venceu a corrida, mas os comissários decidiram que sua manobra tinha sido ilegal já que ele não teria aberto totalmente mão da vantagem que tinha conseguido ao passar pela chicane. Assim, o penalizaram em 25 segundos no seu tempo de prova. O resultado é que Felipe Massa, que não liderou nenhuma volta naquele domingo, ficou com a vitória apesar de ter cruzado em segundo.

Michael Schumacher, GP da Bélgica de 1994

Como já mostramos em outra matéria aqui no Projeto Motor, a temporada de 1994 foi bastante complicada para a F1, recheada de tragédias e polêmicas. E o GP da Bélgica foi uma delas.

Schumacher e a Benetton já estavam há um tempo na mira da FIA por conta de suspeitas sobre a legalidade do carro da equipe. Naquele domingo, o alemão venceu a prova de Spa, mas foi desclassificado poucas horas depois porque os comissários identificaram que a prancha de madeira no assoalho de seu monoposto tinha sofrido um desgaste maior que o permitido, o que seria um indício de o carro estar andando mais baixo do que poderia.

A Benetton alegou que o desgaste além do previsto tinha acontecido por conta de uma rodada de Schumacher, que teria raspado a prancha ao passar por uma zebra. A FIA não aceitou a desculpa e a vitória ficou com Damon Hill.

Gerhard Berger, GP do Canadá de 1990

Já contamos essa história aqui no Projeto Motor em detalhes. Essa foi provavelmente a melhor apresentação de Berger na McLaren, como companheiro de Senna na F1.

O austríaco largou na segunda posição e pulou na frente do companheiro brasileiro. Só que pouco depois, foi anunciado que ele queimou a largada e por isso tomaria um acréscimo de 1 minuto em seu tempo total de corrida (sim, 1 minuto!).

Circuito Gilles Villeneuve estava bastante molhado no momento da largada. Situação era ideal para Senna e tornou ainda mais difícil a recuperação de Berger

Ele chegou a perder a ponta quando a McLaren, ciente de que ele estava fora da briga, o fez de cobaia no começo da corrida ao colocar pneus de seco quando a pista ainda estava úmida. Mas depois ele se recuperou, passou Senna e saiu em um ritmo louco atrás do tempo perdido.

No final, ele conseguiu abrir incríveis 45 segundos para Senna na pista ao receber a bandeira quadriculada. Só que com a correção dos tempos, Berger ficou em quarto, não tendo nem o gostinho de subir ao pódio.

Ayrton Senna, GP do Japão de 1989

Um dos casos mais polêmicos da história da F1. Ayrton Senna e Alain Prost brigavam pelo título da temporada de 89 e caso o brasileiro não vencesse a corrida em Suzuka, o rival levantaria o caneco já no Japão.

Prost largou na frente e liderou praticamente toda a corrida, mas na volta 47, Senna mergulhou por dentro para fazer a ultrapassagem na forte freada da chicane antes da reta dos boxes. O francês fechou a porta e os dois bateram.

Prost logo saiu de seu carro, enquanto Senna, com um empurrão dos fiscais de pista, conseguiu fazer seu carro pegar de novo e voltou à pista passando por de trás da chicane. O brasileiro parou no box para trocar o bico dianteiro danificado e voltou em segundo, atrás da Benetton de Alessandro Nannini a cinco voltas do final.

Usando toda a eficiência e velocidade de seu modelo MP4-4 Honda, Senna fez a ultrapassagem no italiano e venceu a corrida. Só que momentos depois, os comissários da FIA resolveram desclassificar o brasileiro por ter retornado ao traçado por trás da chicane, usando a área de escape, após o acidente com o rival francês. Nannini ficou com a vitória e Prost, com o título.

Alain Prost, GP de San Marino de 1985

Desta vez foi a vez do Professor ficar com o gostinho amargo de perder uma vitória após a bandeira quadriculada. Aliás, é interessante ressaltar que o final do GP de San Marino de 1985 foi um dos mais malucos da história da F1.

A quatro voltas do final, a classificação tinha na ordem Ayrton Senna, Stefan Johansson, Alain Prost, Elio de Angelis e Nelson Piquet. Só que a Lotus do brasileiro teve uma pane seca e parou. No giro seguinte, a três do final, foi a vez da Ferrari de Johansson sofrer uma falha elétrica e ficar pelo caminho.

Prost cruzou em primeiro com De Angelis em segundo. Piquet, que vinha em seguida, também sofreu pane seca e não chegou ao fim. Thierry Boutsen cruzou em terceiro empurrando sua Arrows (algo proibido hoje), que ficou sem combustível.

Só que depois da corrida, Prost foi desclassificado porque sua McLaren estava abaixo do peso mínimo do regulamento. Assim, De Angelis herdou a vitória pela Lotus e Boutsen ficou com a segunda posição pela Arrows.

Nelson Piquet, GP do Brasil de 1982

Outra alteração que deu o que falar na F1. Equipes com motores aspirados precisavam correr com mais lastro do que as que andavam com turbo porque seus propulsores eram mais leves. Brabham, Williams, Lotus e McLaren tiveram então uma ideia para driblar a questão do regulamento e poderem andar mais leves.

Elas passaram a usar freios refrigerados a água. Assim, os carros andavam com tanques que na checagem antes da corrida estavam cheios. Durante a prova, a água evaporava e o carro ficava mais leve. A grande brecha era que ao final da corrida, o regulamento da época permitia que as equipes repusessem fluídos de seus carros para a pesagem, e assim, elas enchiam de novo os tanques de água para os carros ficarem dentro do peso.

Piquet no pódio de Jacarepaguá

Desta forma, Nelson Piquet conquistou seu primeiro GP do Brasil, pela Brabham, com Keke Rosberg, da Williams em segundo, em um dia de muito calor no Rio de Janeiro em que o brasileiro chegou a desmaiar no pódio.

Ao perceber a malandragem, a FIA resolveu que mesmo se utilizando de brechas, Brabham e Williams tinham feito algo que feria “o espírito do regulamento” e assim desclassificou os dois pilotos. A vitória ficou com Alain Prost, terceiro colocado pela Renault.

Já contamos mais detalhes desta história em outro texto aqui do Projeto Motor.

James Hunt, GP da Inglaterra de 1976

Vindo de uma vitória na França, James Hunt queria vencer sua corrida caseira para finalmente embalar no campeonato e começar a descontar a distância que tinha atrás de Niki Lauda no campeonato de 1976.

Na largada, após um toque entre as duas Ferrari, de Lauda e Clay Regazzoni, diversos carros acabaram passando por detritos e por fora da pista, o que causou danos. Entre eles, o próprio Hunt. A corrida precisou ser paralisada na abertura da segunda volta e uma nova largada seria dada.

Como não existia tempo para reparos, Hunt, da McLaren, Regazzoni, da Ferrari, e Laffite, da Ligier, pegaram seus carros reserva. Só que a direção de prova afirmou que teriam que usar seus modelos originais em que estavam na primeira largada. A McLaren então correu para colocar o carro original de Hunt no lugar para a segunda largada.

Na “nova” corrida, Lauda pulou na frente e liderou até a 45ª volta, quando foi ultrapassado por Hunt. O inglês venceu a corrida e fez a festa de seus fãs em Brands Hatch.

James Hunt recebe a bandeira quadriculada em primeiro no GP da Inglaterra de 1976. Britânico seria desclassificado dois meses depois

Só que depois da corrida, aconteceram reclamações de que como Hunt não teria completado a volta após o acidente da primeira largada, ele não poderia voltar para a segunda saída, independente de estar com o mesmo carro. Em um primeiro momento, os comissários rejeitaram as reclamações, mas a Ferrari entrou com um recurso na FIA.

Curiosamente, o protesto da Ferrari era contra, além de Hunt, de seu próprio piloto, Regazzoni, que também não poderia ter largado na segunda saída. Mesmo assim, como a possível desclassificação do inglês resultaria em vitória de Lauda, a escuderia seguiu em frente.

Mais de dois meses depois, a FIA resolveu desclassificar Hunt, Regazzoni e Laffite, da Liger, alegando que nenhum deles poderia ter participado da segunda largada e Lauda herdou a vitória.

*Matéria atualizada às 15h10 de 12/06/2019 com colaboração do leitor Vitor A. Veine pelo Twitter. 


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.