Pilotos e equipes que tiveram despedidas melancólicas da F1

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O momento de despedida da F1 por muitas vezes é uma ocasião especial. É comum vermos homenagens e certa dose de emoção quando a passagem pela categoria chega ao fim, o que acaba simbolizando momentos marcantes. 

Porém, há vezes em que as despedidas acontecem em situações embaraçosas. Seja por acidentes ou por qualquer outro ponto negativo, há ocasiões em que o adeus não se torna necessariamente motivo de orgulho para pilotos, equipes e até fornecedores técnicos. 

Então, relembraremos seis exemplos de despedidas da F1 que foram um tanto melancólicas. 

A curta festa no adeus de David Coulthard (2008)

Coulthard armou festa para Interlagos, mas corrida durou pouco (Foto: Red Bull/GEPA Pictures)

David Coulthard planejou com antecedência sua retirada da F1. Em 2008, ele fazia sua quarta temporada pela Red Bull, mas já não conseguia se destacar em resultados em comparação ao colega de equipe, Mark Webber. Em julho, pouco antes do GP da Grã-Bretahna, ele anunciou que se aposentaria da F1 ao término do campeonato – o que lhe deu tempo suficiente para preparar seu adeus, o que iria acontecer em Interlagos. 

Todo o protocolo foi seguido: Coulthard foi homenageado pelos colegas, admitiu estar emocionado com a ocasião e até recebeu uma incomum autorização para usar uma pintura diferente em seu carro, estampando as cores de uma instituição de caridade da Red Bull. Coulthard também usaria uma câmera instalada dentro de seu capacete, tudo para registrar a festa de despedida por todos os ângulos.

Tudo muito bonito, chegou a hora de correr em Interlagos. Mas, logo veio o balde de água fria. Partindo de 14º no grid, Coulthard abandonou logo nos primeiros metros de corrida ao ser atingido por trás pela Williams de Nico Rosberg e depois por Kazuki Nakajima, companheiro de equipe do alemão. 

O escocês se disse arrasado pelo abandono tão prematuro, já que até planejava fazer zerinhos para a torcida depois da bandeirada final de sua carreira. Mas não era para acontecer…

Tyrrell agoniza em seu GP de adeus (1998)

Tyrrell terminou sua vida na F1 “atropelada” por uma Minardi (Foto: Reprodução)

Tradicional equipe campeã na F1 nos anos 70, a Tyrrell viveu uma grande decadência nas décadas seguintes. Nos anos 90, a situação foi ficando gradativamente pior, quando o time até tinha dificuldades em ocupar o pelotão intermediário e era uma presença mais constante no fundo do grid. 

Em 1997, a equipe marcou apenas dois pontos e ficou na penúltima posição entre os construtores, à frente apenas da Minardi. Mas, pouco depois, foi anunciado que a Tyrrell havia sido vendida e passaria a se chamar BAR em 1999 – o que significava que a Tyrrell teria uma última temporada de existência em 1998. 

Mas tudo foi de mal a pior. O carro, chamado de 026, parecia básico em relação à concorrência, e o orçamento enxuto impedia que a Tyrrell o desenvolvesse ao longo da campanha. A dupla, formada pelos discretos Tora Takagi e Ricardo Rosset, também não gerava grande furor. Assim, a Tyrrell ocupou o fundão do grid durante a maior parte da temporada de 1998, sem poder sonhar de forma realista com pontos.

O GP de despedida, no Japão, simbolizou o que a Tyrrell havia se tornado. Rosset sequer conseguiu se classificar para a prova, e apenas Takagi representaria a equipe na corrida do adeus. Na 28ª volta, na luta pelo modesto 15º lugar, o japonês foi abalroado por Esteban Tuero, da Minardi, e abandonou a prova. Acabava de forma triste a história da Tyrrell, que de quebra também terminaria zerada nos pontos em sua campanha de despedida. 

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O estouro final da Goodyear (1998)

Schumacher abandona o GP do Japão de 1998 e dá adeus ao título (Foto: Reprodução)

Uma outra despedida por baixo aconteceu no GP do Japão de 1998 – e relacionada com a história que contamos há pouco. A fornecedora de pneus Goodyear estava na F1 de forma ininterrupta desde a década de 60, e chegou a ser a única marca no grid de 1992 a 1996. A partir de 1997, ela ganhou a companhia da Bridgestone, mas ainda assim manteve sua hegemonia ao vencer todas as corridas daquele ano. 

Mas, para 1998, a empresa americana reviu seus planos. A nova regra de pneus, que estabeleceria a presença de sulcos nos compostos, aumentaria os custos, o que fez com que a Goodyear perdesse o interesse na F1. 

Para piorar, a Bridgestone se tornaria fornecedora da McLaren, que se mostrou a grande força na temporada de 98. Assim, a Goodyear confirmou que sairia da F1 ao fim daquele ano, mas que antes, tentaria conquistar o título junto da Ferrari e de Michael Schumacher. 

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Em Suzuka, na decisão do título, Schumacher precisava descontar uma vantagem de Mika Hakkinen, mas ficou com o carro parado no grid antes da largada e precisou iniciar a prova lá do fundo. O título já parecia difícil, mas ainda assim o alemão teve uma prova bastante agressiva para recuperar terreno. 

Na 32ª volta, Schumacher sofreu um estouro repentino em seu pneu traseiro direito, o que o fez abandonar a prova e dar adeus às chances de título. Depois de análises, veio a confirmação: o pneu de Schumacher estourou por ele ter passado por cima dos detritos do acidente entre Takagi e Tuero.

De qualquer forma, a imagem do pneu em destroços do principal piloto a usar os Goodyear não era o tipo de publicidade que a empresa queria, sobretudo em uma decisão de título e que marcava o GP de despedida da F1.

Desfecho repentino para Jacques Villeneuve (2006)

Villeneuve deu adeus à F1 sem se dar conta (Foto: BMW)

Como é a sensação de se despedir da F1 sem nem se dar conta de que isso estava acontecendo? Bem, este foi o caso de Jacques Villeneuve. O canadense, campeão mundial de 97, competia pela BMW na temporada de 2006 e vinha em 13º na tabela de pontuação, três posições atrás do companheiro de equipe, Nick Heidfeld. 

No GP da Alemanha, 12ª etapa do campeonato, Villeneuve sofreu um acidente forte na última curva do circuito, quando ocupava o 15º lugar, e abandonou a prova. O GP da Hungria aconteceria uma semana depois, mas a BMW divulgou que Villeneuve pediu para ficar fora de atividade em Hungaroring para se recuperar da pancada em Hockenheim. Em seu lugar correria Robert Kubica, que era o reserva do time na temporada de 2006.

O polonês fez uma boa corrida e chegou a terminar na zona de pontuação, em sétimo, mas acabou desclassificado devido a uma irregularidade técnica do carro. De qualquer forma, Kubica deixou uma grande impressão, o que mudou os planos da BMW para o futuro. Poucos dias depois do GP da Hungria, a BMW anunciou que rompeu com Villeneuve, e que Kubica seria mantido no carro. 

Desempregado mais uma vez, Villeneuve até flertou com algumas outras possibilidades na F1 – inclusive foi ligado à Stefan GP, que queria correr em 2010 com o espólio da Toyota, mas não teve sua inscrição aceita. O tempo passou, e no fim das contas, a passagem do canadense pela F1 de fato acabou nas barreiras de proteção em Hockenheim. 

Johnny Herbert, carregado para fora do carro (2000)

Herbert bateu forte em sua última corrida na F1 (Foto: Reprodução)

Johnny Herbert viveu uma carreira de altos e baixos na F1. O veterano inglês passou por um inesperado momento de sucesso ao fim de 1999, quando obteve uma chocante vitória com a equipe Stewart em Nurburgring. 

No embalo do resultado, Herbert estava na expectativa de um ano animador para 2000: a Stewart, que vinha se consolidando na F1, teria seu controle assumido pela Ford e se tornaria Jaguar. Ou seja, com uma equipe tecnicamente promissora e o dinheiro e prestígio de uma montadora, Herbert queria voltar a flertar com o sucesso. 

Mas o modelo para a temporada de 2000, o R1, retrocedeu na relação de forças em comparação a 1999. O belo carro verde sequer era presença constante na pontuação, quanto mais na luta por pódios e vitórias. Para piorar, Herbert estava sendo ofuscado por seu novo parceiro, Eddie Irvine, o que deixou sua posição no time ameaçada.

Em julho, Herbert tomou a iniciativa e anunciou que se retiraria da F1 depois da temporada de 2000. A intenção agora passava a ser ter boas corridas antes de seu adeus, mas isso não foi possível.

Em sua última corrida na categoria, no GP da Malásia, Herbert ainda estava zerado na tabela e ocupava a décima posição – lembrando que apenas os seis primeiros pontuavam na época. Na 49ª volta, o inglês sofreu uma espetacular falha na suspensão traseira, o que deixou o carro desgovernado rumo à barreira de proteção. Herbert bateu forte e lesionou a perna, tanto que teve de ser carregado pelos fiscais para fora do carro. 

Foi uma maneira brutal de se despedir da F1, mas ao menos Herbert manteve seu habitual bom humor: ele, que começou sua passagem pela categoria sendo carregado para dentro do carro devido a lesões na perna de um seríssimo acidente em 1988, considerou que sua despedida tinha de ser da mesma forma…

Briga felina na despedida da Jaguar (2004)

Foto: Ford

Já que falamos em Jaguar, impossível não mencionar nesta lista a despedida da marca da F1. A fabricante permaneceu por cinco anos na categoria, mas em momento algum chegou a deslanchar e chegar perto do pelotão da frente de maneira constante. 

A gota d’água veio em 2004. O carro teve raros lampejos de velocidade, mas ainda assim não se destacou o suficiente para justificar tamanho investimento financeiro no projeto. No mês de setembro, a Ford anunciou que encerraria seu programa de F1, o que significaria o fim da equipe Jaguar. 

Depois do anúncio, a Jaguar ainda participou das últimas quatro corridas da temporada de 2004, mas sem conseguir marcar um pontinho sequer neste período. Mas, na corrida final, em Interlagos, as coisas atingiram o fundo do poço. Na 23ª volta, Mark Webber e Christian Klien, os dois pilotos do time, bateram durante uma disputa por posição no S do Senna, o que representava o pior cenário possível especialmente por se tratar da despedida. 

Webber abandonou na hora, mas Klien continuou – e, com o carro desequilibrado, o austríaco recebeu a bandeirada em 14º, duas voltas atrás do vencedor, Juan Pablo Montoya. Foi assim que o time saiu de cena para dar lugar à Red Bull. 

Confira mais detalhes em nosso vídeo especial:


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.