Pilotos vitoriosos que encerraram a carreira em equipes modestas

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A semana foi marcada por notícias agridoces para os fãs de Kimi Raikkonen: o finlandês deixará a Ferrari ao fim da temporada, mas permanecerá na F1 ao obter um surpreendente retorno à Sauber.

É verdade que a equipe suíça ganha momento na F1 e se reestrutura graças ao apoio financeiro e técnico da Ferrari e à parceria comercial com a Alfa Romeo. Não se trata, portanto, exatamente da mesma esquadra que penou durante as temporadas de 2016 e 2017, quando flertou com a lanterna.

Mesmo assim, trata-se ainda de uma equipe com condições modestas para receber um campeão mundial, já que, no momento da divulgação do acordo, a Sauber ocupava a penúltima colocação no Mundial de Construtores.

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Prestes a completar 39 anos, Raikkonen reconheceu que esta deverá ser de fato sua última equipe na F1. O contrato é de dois anos, e espera-se que a Sauber continue com sua curva de crescimento durante o período. Mas e se não for assim?

Caso os planos não saiam como o esperado, Raikkonen poderia se juntar a outros pilotos com vitória na F1 que se aposentaram da categoria por equipes modestas. Este é o tema deste artigo, então confira os exemplos:

GRAHAM HILL – EMBASSY HILLGraham hill

Graham Hill foi um dos gigantes do automobilismo em seu tempo, indo além dos dois títulos mundiais – já que ele é, até hoje, o único a conquistar a tão falada “Tríplice Coroa”. Porém, depois das passagens de sucesso por BRM e Lotus, seus últimos capítulos nas pistas foram um pouco mais discretos.

O inglês protagonizou um grande acidente em Watkins Glen, 1969, que se mostrou um divisor de águas para sua carreira. Dali para frente, Hill não apresentou o mesmo rendimento nos monopostos, embora tenha conseguido destaque com os esporte-protótipos ao vencer as 24 Horas de Le Mans de 1972.

O “Mister Mônaco” fez temporadas apagadas com a Rob Walker Racing e a Brabham, mas, para 1973, iniciou um novo capítulo: estabeleceu sua própria equipe e continuou competindo.

Em suas duas primeiras temporadas, a Embassy Hill usou, respectivamente, chassis Shadow e Lola, mas de qualquer jeito estava muito distante da ponta. O máximo que Hill conseguiu foi um único pontinho, com um sexto lugar na Suécia, em 1974. A situação continuou crítica em 1975, e Hill se aposentou pela porta dos fundos depois de sequer se classificar para o GP de Mônaco.

O agora ex-piloto continuaria, então, gerenciando seu time, com a função de piloto principal recaindo sobre o jovem promissor Tony Brise. Mas, infelizmente, a jornada não durou por muito tempo. Em novembro de 1975, um acidente de avião matou Hill (que pilotava a aeronave), Brise e quatro outros membros do time, o que, compreensivelmente, representou o fim das operações da Embassy.

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ALAN JONES – HAAS-LOLAJones

O campeão de 1980 da F1 já estava de capacete pendurado quando decidiu embarcar na jornada da Haas-Lola – que, apesar do nome, não possui relação alguma com a atual equipe da F1.

Em tese, o projeto da nova equipe do grid não era dos mais dispensáveis. Tratava-se de uma união do cofundador da equipe Newman-Haas da Indy, Carl Haas, e da patrocinadora Beatrice Foods, também com participação de gente como Teddy Meyer, ex-McLaren, Neil Oatley, Ross Brawn e John Baldwin.

No entanto, o projeto teve diversos percalços em seu caminho, de modo que a estreia, no fim de 1985, foi difícil. Jones passou longe da ponta nas corridas em que se inscreveu, e, em uma delas, sequer correu após aceitar uma proposta indecente de Bernie Ecclestone para fugir do GP da África do Sul – já contamos essa história por aqui.

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Os problemas persistiram em 1986, embora “AJ” tenha beliscado pontos na Áustria (quarto lugar) e Itália (sexto). No entanto, a trajetória da Haas-Lola foi interrompida bruscamente quando a Beatrice Foods interrompeu o acordo de patrocínio para a temporada de 1987. Acabou a grana, acabou a brincadeira. O espólio da equipe foi vendido, e Jones retornou, discretamente, à rotina da aposentadoria.

EMERSON FITTIPALDI – COPERSUCARfittipaldi celebra 1978 destaque

É verdade que, em seus oito anos de F1, a Copersucar-Fittipaldi obteve progresso e conquistou resultados respeitáveis– algo que é especialmente notável considerando todo o contexto em que a equipe se desenvolveu. Por outro lado, é importante destacar que a empreitada em momento algum esteve em posição de dar condições à altura de um bicampeão mundial como Emerson Fittipaldi.

Já contamos recentemente aqui no Projeto Motorcomo que Fittipaldi chocou o mundo da F1 ao deixar a McLaren para se unir ao time brasileiro. Você pode conferir todos os detalhes da história por aqui. O fato é que, trocando em miúdos, Emerson nunca mais teve a mesma relevância esportiva na F1 na nova casa, o que acabou por encurtar significativamente a sua trajetória como competidor de ponta dentro da categoria. E vale lembrar que a história poderia ter tido alguns capítulos a mais, já que Fittipaldi flertou com o projeto modesto da Spirit-Hart em 1984.

THIERRY BOUTSEN – JORDANBoutsen

Em suas duas primeiras temporadas na F1, a Jordan viveu campanhas praticamente opostas. Em 1991, com o belíssimo modelo 191, marcou sua boa dose de pontos, chegou a ameaçar na luta por uma vitória e fechou num respeitável quinto lugar no Mundial de Construtores.

Em 1992, porém, a parceria com a Yamaha fracassou. Maurício Gugelmin e Stefano Modena sofreram com a falta de confiabilidade e competitividade do carro, o que deixou a equipe com um único ponto na temporada, marcado pelo italiano na “bacia das almas”, na conclusão em Adelaide. O time ainda tentava ganhar seu espaço e se estabelecer na F1, de modo que ainda não era, portanto, a operação sólida e até vitoriosa dos anos posteriores.

Para o campeonato seguinte, a Jordan seguiu uma receita segura, misturando a juventude de Rubens Barrichello com um piloto mais experiente. Inicialmente, o escolhido havia sido Ivan Capelli, que havia deixado a Ferrari poucos meses antes. Entretanto, o italiano não se entendeu com o time e deixou a Jordan depois de apenas duas corridas.

Veio, então, a contratação de Thierry Boutsen. É verdade que o belga nunca conseguiu se consolidar como protagonista na F1, mas trazia consigo a bagagem de 153 GPs, duas vitórias e passagens por equipes como Williams, Benetton e Ligier.

Apesar de sua experiência, Boutsen em momento algum conseguiu fazer frente a Barrichello – para se ter uma ideia, logo na primeira prova da parceria o brasileiro teve uma de suas melhores atuações naquele ano. O belga, em sua defesa, dizia que não conseguia se sentir confortável dentro do carro devido ao seu tamanho, sendo que a Jordan, ainda segundo seu ponto de vista, nunca fez nada a respeito.

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Boutsen permaneceu no time até sua corrida de casa, em Spa-Francorchamps. Depois disso, se aposentou de vez da F1 e passou a se dedicar à sua empresa de aviação.

MICHELE ALBORETO – MINARDIAlboreto2

Alboreto teve sua fase de destaque na F1 em meados dos anos 1980, sobretudo na temporada em que, enquanto representante da Ferrari, foi o principal oponente de Alain Prost na luta pelo título mundial.

No entanto, com o passar dos anos, o piloto perdeu espaço dentro de Maranello até ficar sem sua vaga para a temporada de 1989. A solução foi retornar à sua velha casa, a Tyrrell, embora o relacionamento não tenha durado muito: um conflito de patrocínios tirou o italiano, que, então, encontrou refúgio na Larrousse.

Três temporadas na Arrows/Footwork, entre 1990 e 1992, antecederam a mudança para a Scuderia Italia. Com o chassi Lola, o time italiano capengou ao longo da temporada de 93, tanto é que sequer participou das duas últimas etapas da campanha.

Para 1994, então, duas operações compatriotas decidiram por juntar forças a fim de evitar a falência. Minardi e Scuderia Italia se fundiram, mantendo nome e chefia da primeira, o que também resultou na chegada de Alboreto a Faenza. O piloto conseguiu um ponto, no GP de Mônaco, mas acabou por deixar a categoria de vez ao término daquela temporada.

JARNO TRULLI – LOTUSTrulli

Trulli se estabeleceu como uma promessa da F1 na virada do século e até chegou a superar o futuro bicampeão Fernando Alonso com o mesmo carro. Mas, em contrapartida, também protagonizou uma grande decadência até se despedir de forma melancólica.

Em 2004, ano em que conquistou sua única vitória na F1, se desentendeu com a Renault e deixou o time antes mesmo do término da temporada. Dali foi à Toyota de imediato, onde fez cinco temporadas, mas sem fazer com que a equipe quebrasse a barreira da vitória.

Já na reta final de 2009, sua situação ficou mais complicada. A fabricante japonesa colocou o italiano em banho-maria, sem apresentar uma solução para a temporada seguinte, enquanto ela própria ainda definia sua permanência na categoria.

Somente em novembro veio a resposta definitiva, já que a Toyota confirmou que deixaria a F1. Sem muitas opções e em baixa no mercado, Trulli então assinou com a Lotus, uma das três novatas que entrariam na categoria em 2010.

Como todos viram, todas as equipes estreantes (que também tinham Virgin e HRT) estavam muito longe de um nível mínimo de competitividade. Assim, Trulli naturalmente ficou com cadeira cativa no fundo do pelotão, sem sequer chegar perto de pontuar.

Mas, em 2012, veio o golpe de misericórdia. O veterano se preparava para mais uma campanha, inclusive com participações nos primeiros testes de pré-temporada, mas sumariamente foi sacado e trocado por Vitaly Petrov.


Plantão Motor analisa Leclerc na Ferrari e Raikkonen na Sauber em 2019:

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.