Pioneira em turbo na F1, Renault nunca se deu bem com ele

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A grande notícia da F1 neste final de ano até aqui é certamente a oficialização do esperado retorno da Renault como equipe à categoria, depois de cinco anos atuando apenas como fornecedora de motores.

Um dos fatores que motivou esta volta é o péssimo relacionamento com a principal cliente da montadora, a Red Bull, resultado de um motor com desempenho muito longe dos principais concorrentes, Mercedes e Ferrari. A verdade é que os franceses não se acharam com o novo V6 turbo e seus sistemas de recuperação de energia.

Curiosamente, se existe alguém no grid com o turbo em seu DNA é justamente a Renault. A empresa de Boulogne foi a pioneira no Mundial em motores equipados com este dispositivo, quando iniciou sua primeira passagem pelo campeonato, em 1977. E o começo, já naquela época, foi difícil.

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A Renault tinha algum envolvimento com o automobilismo, como provas em Le Mans, e resolveu, através de seu departamento esportivo, investir na F1 ao final dos 70. Logo de cara, a empresa optou por entrar como time e fabricando um motor revolucionário.

A regra da época permitia propulsores de 3 Litros aspirados ou de 1.5 L com o turbocompressor, caminho escolhido para a estreia. O carro ficou pronto apenas para a décima etapa, o GP da Inglaterra, em Silverstone, em que a montadora andou pela primeira vez na F1, com um carro conduzido por Jean-Pierre Jabouille.

V6 turbo da Renault, em 1980, no carro de Jean-Pierre Jabouille, em Zolder
V6 turbo da Renault, em 1980, no carro de Jean-Pierre Jabouille, em Zolder

O foco inicial era o desenvolvimento do chassi RS01, que também trazia a inovação dos pneus radiais, fornecidos pela Michelin, e do novo motor, bastante diferente dos oponentes. Alfa Romeo e Ferrari usavam F12 (boxer), que produziam ambos cerca de 500 cavalos de potência a 12.500 RPM, e a Cosworth um V8, que chagava aos 470 cv aos 11 mil RPM, todos aspirados. A Renault chegava com seu V6 turbo, que alcançava os 510 cv a 11 mil RPM, porém, com uma desvantagem: para aguentar a força do propulsor, o equipamento tinha uma estrutura mais pesada, toda em ferro fundido.

O começo não poderia mais difícil. Nesta primeira temporada, o carro quebrou em todas as quatro provas em que entrou, recebendo, inclusive, o apelido de “Chaleira Amarela”, por estar sempre envolto à fumaça dos problemas de motor.

Em 78, as coisas não melhoraram muito. Jabouille participou de 14 GPs com o carro e só chegou ao final de três, incluindo um surpreendente quarto lugar em Watkins Glen, resultado que marcou os primeiros pontos da história da Renault na F1.

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No ano seguinte, o time passou a contar com um segundo carro, de Rene Arnoux. Além disso, já com mais desenvolvimento, tanto o RS01 quanto o motor EF1 1 começaram a mostrar mais desempenho. No GP da África do Sul, Jabouille marcou a primeira pole position de um motor turbo no Mundial. Algumas etapas depois, na Espanha, a Renault introduziu um novo chassi, o RS10, e em sua quarta prova, levou a montadora francesa ao triunfo inédito, em Dijon, com direito a pole position e melhor volta.

Jabouille e Arnoux formam dobradinha da Renault no GP da França de 1979
Jabouille e Arnoux formam dobradinha da Renault no GP da França de 1979

A partir deste momento, o motor turbo começou a mostrar suas vantagens. A Renault, ainda única a apostar na fórmula, passou a estar constantemente na primeira fila, chegando a fazer uma sequência de quatro poles consecutivas. O problema da confiabilidade é que ainda deixava todos com uma pulga atrás da orelha, já que os carros do time francês terminavam poucas provas.

De qualquer forma, o desenvolvimento tanto da equipe Renault como do motor, continuou. Em 80, já foram três vitórias e cinco poles. Com essa evolução, em 81, finalmente os franceses ganharam um concorrente, com a Ferrari introduzindo seu primeiro turbo. Mesmo assim, os franceses conquistaram mais três triunfos e seis poles.

A partir deste momento, a F1 realmente entrou em sua primeira Era Turbo, com novos fornecedores investindo na tecnologia a cada ano. Em 84, todas as vitórias do campeonato já foram conquistadas por motores com o dispositivo. A ironia é que a Renault acabou ficando de fora desta lista, que teve Porsche, Honda, Ferrari e BMW.

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Ironia do destino, a Renault, pioneira, acabou nunca conquistando um campeonato com os motores turbo. As duas fases mais importantes da fabricante na F1 foram com aspirados, nos anos 90 com a Williams e nos títulos de 2005 e 2006, com seu time.

Foram 20 vitórias na primeira Era Turbo, sendo a última em 1986, com Ayrton Senna, de Lotus,  e outras três em 2014, com Daniel Ricciardo, de Red Bull, em 2014. Para se ter uma ideia, no total, os franceses possuem 168 triunfos com seus motores na categoria.

Agora, a partir de 2016, volta a investir em uma equipe própria, que vai para sua terceira passagem na categoria, para mostrar que pode reverter este histórico e finalmente cumprir seu objetivo traçado há quase quarenta anos com seu turbo.

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.