Por que a temporada de 1999 foi uma das mais malucas da F1 moderna

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Há 20 anos, chegava ao fim uma das temporadas mais movimentadas que a F1 viu em seus tempos mais recentes. Mika Hakkinen vencia o GP do Japão, em Suzuka, de ponta a ponta, o que lhe garantiu uma virada na pontuação para a conquista de seu bicampeonato mundial.

Muita coisa aconteceu até o finlandês cruzar a linha de chegada em primeiro em terras japonesas. Tratou-se de uma temporada em que todos os protagonistas passaram por momentos de altos e baixos, o que criou uma disputa imprevisível e que por pouco não terminou em surpresa – afinal, os azarões Eddie Irvine e Heinz-Harald Frentzen chegaram a ter possibilidades realistas de sonhar com a taça. 

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Neste artigo, o Projeto Motor irá citar alguns motivos que fizeram de 1999 uma das campanhas mais malucas da F1 recente. Não se esqueça de colocar no espaço de comentários, logo abaixo do texto, as suas impressões sobre o campeonato, bem como momentos importantes que eventualmente tenhamos deixado passar!

Disputa caótica entre os ponteiros

(Daimler/Mercedes)

Olhando de forma ampla para a F1 daquela época, é difícil ter a dimensão completa do quão agitada foi a disputa pelo título de 1999. Hakkinen, que havia conquistado de forma categórica seu primeiro título mundial no ano anterior, teve muito mais dificuldades do que se imaginava no papel, o que surpreende pelo fato de seu principal rival ter saído da disputa de forma prematura. 

Tudo indicava que mais uma vez a briga seria dominada por Hakkinen e Michael Schumacher, e foi este o cenário da primeira fase da campanha. Porém, no GP da Grã-Bretanha, oitava etapa de 16 no total, o alemão sofreu um acidente graças a um problema mecânico e fraturou a perna direita. Com Schumacher de molho por três meses devido à lesão, o caminho estaria aberto para uma conquista fácil de Hakkinen, certo?

Errado. Em 1999, a McLaren bateu cabeça e enfrentou dificuldades em várias frentes, o que resultou em muitos pontos desperdiçados. 

A etapa de abertura da temporada, na Austrália, simbolizou a tendência da McLaren de ir do céu ao inferno em um intervalo curto de tempo. Hakkinen e David Coulthard dominaram a primeira fila em Melbourne, com mais de 1s3 de vantagem para Schumacher, o rival mais próximo. Porém, a dupla prateada deixou a disputa ainda na primeira metade de corrida devido a falhas mecânicas do McLaren MP4/14. 

A falta de consistência e confiabilidade para capitalizar os resultados se mostrou o maior ponto fraco da equipe em 99 – além da já citada quebra dupla de Melbourne, houve outras falhas em Silverstone e Hockenheim, batidas solitárias de Hakkinen em Imola e Monza, e até um toque atabalhoado de Coulthard no finlandês na etapa da Áustria, o que também custou pontos. 

Tudo isso abriu brecha para que azarões tentassem surpreender. Sem Schumacher, a Ferrari apostou suas fichas em Eddie Irvine, sendo que o norte-irlandês ganhou pouco a pouco todo o suporte e confiança para se tornar uma força na luta pelo título. 

Irvine foi uma força surpreendente da temporada (Shell/Ferrari)

Irvine iniciou 99 com um total de três temporadas completas pela Ferrari e zero vitória no currículo. Porém, o piloto esteve no lugar certo, na hora certa para vencer em Melbourne, capitalizou na trapalhada da McLaren para brilhar na Áustria, e recebeu ajudas valiosas (e totalmente justificáveis) de seus parceiros, Mika Salo e Schumacher, para triunfar na Alemanha e Malásia, respectivamente. 

Em Sepang, aliás, a Ferrari passou por um susto que quase a eliminou da luta pelo título. Os carros de Irvine e Schumacher inicialmente não foram aprovados na inspeção pós-corrida, com supostas irregularidades nos defletores. Isso, portanto, desclassificaria a dupla e daria o título por antecipação a Hakkinen. 

No entanto, a Ferrari venceu seus recursos na justiça, anulou a desclassificação e se manteve viva. Irvine, portanto, chegou à etapa final, no Japão, na liderança do campeonato, com a ajuda de um segundo piloto de luxo em Schumacher e com todo o suporte da Ferrari. Mais: Irvine era um expert em Suzuka, já que conhecia o traçado desde seus dias de F3000 Japonesa. Quem iria prever este cenário no começo da temporada?

Só que tudo deu errado para Irvine na corrida japonesa. Ele bateu forte durante a classificação, colocou-se apenas em quinto no grid (1s5 mais lento que o pole, Schumacher) e fez uma prova totalmente apagada para chegar em terceiro. Hakkinen, que assumiu a ponta na largada, venceu e garantiu o bicampeonato. 

Relação de forças em equilíbrio

A temporada não foi só marcada por momentos de destaque de McLaren e Ferrari. Na verdade, houve uma série de equipes que tiveram seus lances de brilho, seja por terem de fato feito um trabalho surpreendente, seja pelas oportunidades criadas pelas corridas malucas (falaremos delas em detalhes logo abaixo).

A Jordan foi o principal exemplo. Participante da F1 desde 1991, a equipe sediada aos arredores de Silverstone pouco a pouco ganhou seu espaço na F1, e o auge havia sido na primeira vitória, no GP da Bélgica de 1998, com direito a dobradinha de Damon Hill e Ralf Schumacher.

Frentzen foi uma das surpresas da temporada de 99 (Jordan)

Para 1999, a equipe apostou em um conjunto sólido, chefiado pelo projetista Mike Gascoyne e com a força do motor Mugen-Honda. Nos cockpits estariam Hill e Heinz-Harald Frentzen, este último de olho em recuperar seu prestígio depois de uma passagem fracassada pela Williams. 

O que ninguém esperava é que a Jordan seria forte o bastante para até mesmo incomodar McLaren e Ferrari na luta pelo título. Frentzen venceu por duas vezes (França e Itália), registrou uma pole (Nurburgring) e chegou até a penúltima etapa do campeonato com chances matemáticas de título. No fim, faltou fôlego ao conjunto, mas ainda assim o terceiro lugar na tabela de pontos, à frente de Coulthard, foi um resultado e tanto. 

Outra equipe que ganhou as manchetes em 1999 foi a Stewart. A operação de Jackie Stewart também vinha se solidificando ano após ano, com direito a apoio oficial da Ford, um trabalho consistente do projetista Gary Anderson e um Rubens Barrichello inspirado ao volante. 

(Ford)

Barrichello fez pole, foi ao pódio por três vezes, liderou boa parte do GP do Brasil (graças a uma estratégia de reabastecimento diferente, é verdade) e fez o bastante para chamar atenção da Ferrari e substituir Irvine a partir de 2000. No entanto, quando houve a real oportunidade de vencer, no maluco GP de Nurburgring, quem subiu no topo do pódio com a Stewart foi o discreto Johnny Herbert. 

No geral, a relação de forças de 1999 foi agitada o suficiente para que sete das 11 equipes do grid tenham subido ao pódio, seja por motivos de ritmo ou de confiabilidade. Mas também houve algumas surpresas negativas: a BAR havia iniciado seu projeto ambicioso, embalada pelo dinheiro do tabaco e com o prestígio do campeão mundial Jacques Villeneuve. Por mais que a equipe tenha feito de imediato mais do que vinha fazendo sua antecessora, a Tyrrell, o time terminou o ano zerado na tabela. Pegou mal.

Não faltaram corridas caóticas

Como já adiantamos, a temporada de 1999 teve múltiplas corridas que facilmente poderiam integrar a lista de “GPs mais malucos da história”. 

Irvine venceu pela primeira vez na F1, em Melbourne, depois de ver seus potenciais adversários sucumbirem um a um – incluindo Hakkinen, Coulthard, Schumacher e até Barrichello. Não era o desfecho esperado após a McLaren dominar de forma tão contundente a sessão classificatória. 

O GP do Canadá também pregou suas peças até mesmo aos pilotos mais consagrados. Damon Hill, Michael Schumacher e Jacques Villeneuve abandonaram a disputa depois de baterem exatamente no mesmo ponto, o muro situado na parte externa da chicane final do circuito. Devido à ocasião, o local passou a ser conhecido dali em diante como “Muro dos Campeões”. 

Mas o ponto mais alto da temporada em termos de maluquice veio em Nurburgring. Entre chuva e sol, a liderança mudou de mãos com frequência, indo de Heinz-Harald Frentzen a Giancarlo Fisichella e Ralf Schumacher. Enquanto isso, os favoritos no papel penavam, com dificuldades para Hakkinen e Irvine (incluindo um pitstop demorado que se tornou folclore). No fim, quem subiu no pódio foram Herbert, Trulli e Barrichello, deixando o top-3 reservado às coadjuvantes Stewart e Prost em um momento tão crítico da temporada. 

Também houve várias outras ocasiões que ficaram cravadas na memória dos fãs. O GP chuvoso na França, com direito a pole de Barrichello, duelo roda a roda com Schumacher e uma vitória de Frentzen; o choro dramático de Hakkinen depois de rodar sozinho em Monza; o retorno triunfal de Schumacher após sua lesão, com pole esmagadora e um trabalho magistral como “segundo piloto”… Além de uma disputa acirrada pelo título, 1999 foi marcado por vários momentos que deram o que falar. 

Temporada de surpresas (boas e ruins)

Mencionamos acima que, no geral, a relação de forças entre as equipes teve bastantes momentos de equilíbrio. Analisando da perspectiva de pilotos, também houve surpresas, tanto do lado positivo quanto do negativo. 

Irvine e Frentzen conseguiram recuperar seu prestígio com a temporada forte e a participação na luta pelo título. O primeiro deixou a Ferrari ao fim daquele ano, mas foi contratado pela Jaguar (que assumiu o controle da Stewart) com um salário de peso e a possibilidade de ser líder de um projeto oficial. Os resultados, porém, não vieram. 

Frentzen, por sua vez, viu acabarem ali suas chances de protagonismo na F1. De 2000 em diante, a Jordan não conseguiu mais incomodar as ponteiras, de modo que o alemão deixou o time durante 2001 e peregrinou pelo pelotão intermediário até deixar a categoria. De qualquer maneira, 1999 trouxe à tona um Frentzen competitivo que muitos esperavam ver na F1 desde que o alemão ingressou no Mundial, em 1994. 

Quem também começou a brilhar foi Ralf Schumacher. O irmão mais jovem de Michael Schumacher teve momentos de protagonismo, massacrou Alessandro Zanardi no duelo interno na Williams e passou perto de vencer pela primeira vez. Ali, o jovem Ralf mostrava que de fato ia além de seu sobrenome e que poderia se tornar uma força constante entre os ponteiros, como foi visto nas temporadas seguintes. 

Zanardi terminou a temporada no zero (Williams)

Por falar em Zanardi, o italiano foi uma das decepções daquela temporada. Depois de conquistar dois títulos seguidos na CART, Zanardi foi convidado pela Williams na expectativa de fazer mais do que havia feito em sua primeira passagem pela F1, entre 1991 e 1994. Mas, surpreendente, não foi o que aconteceu: o piloto não se adaptou ao carro e terminou a temporada zerado – enquanto que Ralf, com 35 pontos, foi sexto na tabela. 

Para encerrar, um nome que brilhou na F1, chegou ao topo, mas que deixou a categoria de forma melancólica. Damon Hill não foi páreo para o embalo de Frentzen dentro da Jordan e teve uma campanha de total coadjuvante, pontuando em apenas quatro ocasiões. A situação era tão complicada para o campeão de 1996 que, na última etapa da temporada, no Japão, abandonou a corrida voluntariamente por não ter mais cabeça para competir. Acabou assim a sua carreira nas pistas. 


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.