Por que Massa foi o piloto brasileiro mais importante da era pós-Senna

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Os ínfimos segundos pelos quais Felipe Massa foi campeão mundial no memorável 2 de novembro de 2008 permanecem, até hoje, como o sucesso e a maldição na sua carreira. Se ali o ex-ferrarista desnudou uma resiliência surpreendente – principalmente para os seus padrões erráticos na F1 –, indiretamente sacramentou, como viríamos anos depois, o último momento de glória para um piloto brasileiro no esporte. De certa forma, o anticlímax mais desconfortante na história da F1.

Contudo, Massa foi mais que um quase-campeão. Do fim de 2006 até os primeiros meses de 2009, o pequeno paulistano se tornou um frontrunner com chances de vitória em quase todos os GPs.

Massa contra Schumacher e Alonso em 2006
Massa contra Schumacher e Alonso em 2006

Em seu primeiro ano na Ferrari, após um início claudicante, pontuou mais que Michael Schumacher no terço final do campeonato. Já na segunda temporada, sustentou firme oposição contra Kimi Raikkonen até Monza, quando sofreu um problema na suspensão e o finlandês o ultrapassou na tabela de pontos. Em 2008 e 2009, definitivamente se tornou o número um da Ferrari e, mais do que isso, liderou o time numa campanha de título mundial. Se Massa não foi capaz de concluir a tarefa, aí já é outra história.

Verdade seja dita, chegamos ao ponto fulcral do texto: teria sido Massa o melhor brasileiro da F1 na era pós-Senna? Se sim, por quê? Se, numa inevitável comparação ao conterrâneo Rubens Barrichello, a carreira de Felipe pareceu muito mais inconstante?

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Sim, é verdade que Barrichello empreendeu uma trajetória mais simétrica na F1, principalmente em equipes intermediárias. Liderou Jordan e Stewart e, mesmo brilhando e decepcionando na Ferrari, manteve-se sempre entre os ponteiros. Massa, em contrapartida, foi derrotado pelo mediano Giancarlo Fisichella na Sauber. Além disso, alguns se esquecem, foi o primeiro piloto da história a ser punido com a perda de posições num grid de largada. Ele só não cumpriu porque, para Indianápolis-2002, a equipe de Hinwil resolveu cortá-lo em favor de um cockpit ao veterano Heinz-Harald Frentzen.

Portanto, nesse ponto, não há muito o que divergir: em equipes intermediárias, Barrichello suplantou Massa na maioria dos quesitos. Talvez pelo estilo de pilotagem: enquanto Rubens era um piloto mais versátil e imaginativo, adaptando-se sempre às especificidades de um carro, o vice-campeão de 2008 se caracterizava por selvageria e velocidade no volante – e também a propensão a acidentes, ainda mais no começo de carreira.

Massa e Hamilton em 2008
Massa e Hamilton em 2008

Massa, no entanto, alcançou um feito que Barrichello nunca pôde chegar perto. Lutou por um título mundial e, é preciso frisar, ficou a um mísero ponto disso. Contra ninguém menos que o tricampeão Lewis Hamilton.

Trocando em miúdos, na hora em que foi necessário mostrar serviço, ou seja, na oportunidade em que ambos tiveram de vencer um campeonato, Massa se mostrou mais eficiente. Do alto da sofisticação em sua pilotagem, Rubens sofreu para fazer frente a Jenson Button – tanto na Honda quanto na Brawn. Somente no fim de 2009, aliás, o atual Stock Car demostrou poder de reação, mas aí já era tarde demais para sustentar um contra-ataque.

Do ponto de vista técnico, até mesmo por falta de informações, nunca poderemos vaticinar se um foi melhor do que o outro. Há também questões volúveis sobre carisma e “marquetologia” que nem merecem ser citadas aqui.

De qualquer forma, pelo número de vitórias e poles conquistadas por ambos, dá até para dizer que suas carreiras foram bem equivalentes. Foram 11 triunfos e 14 poles de Barrichello contra 11 e 16 de Massa. Além disso, contra seus companheiros mais fortes, ambos sofreram: Rubens em relação a Schumacher e Massa com Fernando Alonso – os motivos pelos quais são tratados com demérito criminoso por boa parte da torcida brasileira.

Massa, contudo, foi o responsável por acabar uma seca de 15 anos sem um brasileiro na liderança do Mundial de F1. Reverteu a situação na Ferrari a seu favor – lembrem-se que, originalmente, Kimi Raikkonen era o “substituto de Schumacher” em Maranello e não o brasileiro – e permaneceu também por mais tempo – um ano e meio – como número 1 numa equipe grande. Em suma, o único piloto a ter chances reais de título para o Brasil nos últimos anos – aliás, se você quiser por que não conseguiu, recomendo esse ótimo texto de Leonardo Felix sobre o campeonato de 2008. Só por essa tentativa real, o verbete do pequeno paulistano já mereceria certa honraria.

Assista ao DEBATE MOTOR #43: Felipe Massa foi o melhor brasileiro não-campeão da F1?

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.