Por que sentiremos falta da Manor e de outras equipes pequenas da F1

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Neste início de 2017, a F1 recebeu a notícia do fechamento de mais uma equipe de sua história: a Manor. Não é a primeira e nem será a última a desistir de alinhar seus carros no grid do campeonato por motivos financeiros. A questão é: sentiremos falta de um time que nunca chegou a estar no nível dos estabelecidos?

A Manor nasceu nas categorias de base, sob o comando de John Booth, participando de certames como F3 Inglesa, Renault e Euroseries. Por ela, passaram pilotos como Lewis Hamilton, Kimi Räikkönen, Paul di Resta, Antônio Pizzonia, Lucas di Grassi, entre outros tantos.

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Em 2009, o time entrou na concorrência aberta pelo então presidente da FIA, Max Mosley, por uma vaga na F1 para a temporada seguinte. Foram três selecionados: a própria Manor, a Campos, também vindo da base, e a novata USF1, uma escolha política apostando em uma escuderia americana, fundada pelo engenheiro Ken Anderson e o jornalista inglês Peter Windsor. Com a desistência da Toyota no mesmo ano, a FIA ainda escolheu outra organização para entrar, a Lotus do malaio Tony Fernandez.

Na despedida da equipe, engenheiros da Manor mostraram modelo em escala 50% do carro de 2017 da equipe
Na despedida da equipe, engenheiros da Manor mostraram modelo em escala 50% do carro de 2017 da equipe

Com o lugar garantido no grid, Booth conseguiu o apoio financeiro do Grupo Virgin, do empresário britânico Richard Branson, que passou a dar nome à equipe. Os outros dois escolhidos no processo seletivo não conseguiram suporte. A USF1 sequer estreou e a Campos foi vendida poucas semanas antes de seu primeiro GP para o empresário espanhol José Ramón Carabante, indo para a pista já com seu novo nome: HRT (ou Hispania). No final das contas, a última escolhida, Lotus, parecia ser a que tinha a melhor estrutura.

Só que ao entrarem na competição para valer, a resposta foi dura, em um cenário completamente diferente do esperado. Ao se inscreverem, tinha sido prometido um regulamento com um teto orçamentário geral de 40 milhões de libras que nunca foi adotado. As novatas ainda tiveram como fornecedora de motor a Cosworth, que estava longe do nível dos concorrentes.

O carro mais bem colocado das três na primeira classificação do ano, no Bahrein, foi a Virgin de Timo Glock, a 5s1 do primeiro colocado do Q1 e 2s6 do carro mais próximo à frente. Os seis modelos de Virgin, Lotus e HRT passaram a temporada em uma briga particular, longe de qualquer outro rival.

Virgin e as HRT se arrastaram no fundo do grid em 2010
Virgin e as HRT se arrastaram no fundo do grid em 2010

Com o passar dos anos, HRT e Lotus (rebatizada de Caterham) deram adeus ao grid. A Manor, que tinha virado Virgin, se transformou em Marussia, agora com dinheiro de uma montadora de carros russa, mas a evolução nunca foi satisfatória. Ao final de 2015, a organização foi adquirida pelo empresário inglês Stephen Fitzpatrick e se inscreveu em 16 finalmente com seu nome de nascimento: Manor. Booth, no entanto, deixou a companhia, por divergências com o novo dono.

Com dinheiro novo, a equipe começou a recrutar bons nomes da área técnica, como os engenheiros Nikolas Tombazis e Pat Fry, além de fechar um fornecimento de motores com a Mercedes. Foi uma temporada melhor, com seus carros andando mais próximos e às vezes até à frente de alguns adversários, principalmente da tradicional Sauber.

O ponto conquistado por Pascal Wehrlein no GP da Áustria parecia garantir o décimo lugar no campeonato de construtores, até que a posição foi perdida na penúltima etapa, quando Felipe Nasr conseguiu um nono lugar para a Sauber em Interlagos. Sem o dinheiro da posição no campeonato de construtores, Fitzpatrick ainda tentou encontrar novos investidores, sem sucesso. Foi o fim da linha.

Muita gente vai lembrar dessa história apenas pelo fracasso, como uma linha do tempo de uma equipe que nunca alcançou seu objetivo de se estabelecer na F1. Mas, queira ou não, somando todas suas fases e donos, a Manor passou sete temporadas completas na F1, com um total de 122 GPs. Isso a colocaria na 24ª posição dos times que mais participaram de corridas no Mundial, em uma lista que passa de 150 nomes.

Ok, e daí? Essa história toda é importante ser lembrada por dois motivos: primeiro para reconhecermos que além do título, existe uma corrida paralela pela sobrevivência na F1. Nunca foi fácil competir na categoria, tanto esportivamente quanto – e principalmente – financeiramente. E a Manor, com muita dignidade, soube enfrentar isso. Parecia, inclusive, que rumava para seus melhores momentos nas próximas temporadas. Mas nunca saberemos se isso é verdade.

Manor à frente de uma Sauber na temporada de 2017
Manor à frente de uma Sauber na temporada de 2017

Esse questionamento nos leva para nossa segunda pergunta: o que muda para a F1 o fim de uma equipe que nunca fez nada de importante? Bem, essa é fácil. O Mundial precisa dos times pequenos. Sim, precisa. Claro, temos que ter cuidado para citarmos os exemplos e não cairmos nos fanfarrões e até mafiosos que já frequentaram o paddock da categoria. Mas organizações de corrida como a Manor deveriam ser encorajadas. Mesmo no fundo do grid, elas empregam e dão chances a bons engenheiros, abrem possibilidades, quando bem geridas, para o surgimento de novos pilotos, e, claro, se tornam histórias deliciosas. Quem não gosta e até torce por um azarão?

O problema é que para isso acontecer, é preciso a situação correta. Os times de 2010 entraram em uma verdadeira barca furada em meio ao tiroteio de Mosley contra as equipes estabelecidas, que terminou, inclusive, na queda do presidente da F1. A entrada da Haas, por exemplo, mais cautelosa, com mais de um ano para se preparar (sem contar o dono bilionário), deixou o time americano mais à vontade para se planejar, fechar as parcerias técnicas certas e entrar já em um nível mais aceitável.

Não precisamos nem entrar na discussão da divisão das verbas, que quem lê o Projeto Motor já está cansado de saber que consideramos um ponto nevrálgico da F1. De qualquer maneira, os agora novos donos da categoria, em parceria com a F1 e as equipes mais bem estruturadas, precisam transformar o campeonato e o esporte em um ambiente sustentável financeiramente. Uma equipe deve ter condições de, assim como os pilotos, escalar a F3, GP2 e chegar à F1, sem precisar de investidores que ninguém sabe quem são direito e que nada tem ligação com motor ou carros de corrida.

Hoje é a Manor, amanhã, pode ser Sauber, Force India, Williams, Haas ou qualquer outra em dificuldades em um grid que só encolhe. A história da Manor se torna mais um capítulo entre tantos de pequenos que passaram quase despercebidos pela F1. Mas merece ser estudado com carinho para que um futuro mais sólido seja construído.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.