Quatro Rodas

Por que Vettel e Hamilton igualaram números de Senna tão cedo?

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Mais do que confirmar a Mercedes como força dominadora da nova geração dos carros de F1, a temporada de 2015 vem servindo para que alguns parâmetros estatísticos fossem alterados. Os principais astros da atual safra, Lewis Hamilton e Sebastian Vettel, se estabeleceram de vez como dois dos maiores pilotos de toda a história da categoria, pelo menos em termos numéricos.

Estatisticamente falando, a dupla de pilotos já está em pé de igualdade com Ayrton Senna, amplamente considerado como um dos grandes de todos os tempos. O brasileiro obteve em sua carreira três títulos mundiais e 41 vitórias, contra um tetracampeonato e 42 triunfos do alemão; já o inglês igualou as vitórias de Senna em Suzuka, e está bem encaminhado para o tricampeonato ainda em 2015.

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Claro que muitos podem argumentar que a morte prematura de Senna impediu que o brasileiro conquistasse números ainda mais impressionantes. Verdade. Mas, mesmo assim, chama a atenção o fato de Vettel, de 28 anos, e Hamilton, 30, ambos ainda com muito tempo pela frente na F1, chegaram aos mesmos números que Ayrton registrou aos 34. Existem alguns aspectos que possibilitaram tal cenário, e vamos explicá-los a seguir.

GERAÇÃO PRECOCE

Hoje consagrados, Hamilton e Vettel foram dois garotos prodígios da F1 na década passada. O inglês entrou na categoria com 22 anos recém completados, e já em uma equipe de ponta. O duelo interno com Fernando Alonso em 2007 rapidamente o deixou “cascudo”, e tal experiência contribuiu para seu primeiro título mundial, no ano seguinte, com 23.

Vettel chegou à F1 cedo: ele se tornou tetracampeão em idade com a qual Senna ainda não tinha títulos
Vettel chegou à F1 cedo: ele se tornou tetracampeão em idade com a qual Senna ainda não tinha títulos

O alemão estreou mais jovem, aos 20, e a estrutura com a qual contou desde cedo na Toro Rosso/Red Bull o permitiu amadurecer rapidamente. Assim, aos 21, se tornou o vencedor de GP mais jovem de todos os tempos, e pouco depois, já com um carro de ponta, se sagrou campeão aos 23.

Para se ter uma ideia, Vettel conquistou seu primeiro título aos 23 anos, quatro meses e 11 dias; Senna, a esta altura da vida, nem mesmo tinha estreado na F1. Já no último GP do Japão, o alemão, já tetracampeão, fez a largada com 28 anos, dois meses e 24 dias – nesta idade, Senna sequer era campeão mundial.

TEMPORADAS MAIS GORDAS

Uma tendência da F1 bastante perceptível é o fato de que os calendários estão cada vez mais inchados. Na passagem de Senna pela F1, entre 84 e 94, todas as temporadas tiveram 16 corridas. Já na “Era Vettel e Hamilton”, desde 2007, os campeonatos contaram, em média, com 18,5 etapas.

É por isso que o inglês levou menos de nove temporadas completas para alcançar 161 GPs disputados, enquanto que Senna demorou mais de dez anos para atingir tal número. Ou seja, isso significa que Hamilton já “percorreu” toda a carreira de Senna de forma bem mais breve que o próprio brasileiro.

“Muito bem, Sebastian. Agora consigo te ver em meus retrovisores…”, diz Alain Prost, segundo maior vitorioso da história da F1, com 51

Deixemos os números absolutos de lado e vamos usar os dados percentuais. Senna venceu 25,4% das provas que disputou, contra 27,4% de Vettel e 25,3% de Hamilton. A diferença é pequena. Mas, em termos absolutos, é possível chegar a números mais expressivos em menos tempo.

Mas isso é algo que não é exatamente novidade na história da F1. O próprio Senna em sua época contou com calendários mais gordos do que outros recordistas da F1 do passado, como Jackie Stewart (que viveu época de 11,5 corridas em média por ano), Jim Clark (9,7 GPs por ano) e Juan Manuel Fangio (7). Se trata de uma “evolução natural da F1”, por assim dizer.

O EQUIPAMENTO

Senna conquistou sua última vitória aos 33 anos de idade
Senna conquistou sua última vitória aos 33 anos de idade

Por melhor que um piloto seja, ele não consegue obter grandes conquistas se não contar com a estrutura certa. E, neste aspecto, por mais que se trate de algo de difícil certificação, dá para se concluir que Hamilton e Vettel também se assemelham bastante a Senna no âmbito geral.

Hamilton contou com carros de ponta por praticamente toda sua carreira na F1- a exceção é o início da temporada de 2009, quando a McLaren ainda sofria. De resto, possuiu carros para nadar de braçada (2014 e 2015), disputar títulos (2007, 2008 e 2010) e vencer corridas (2011, 2012 e 2013).

Hamilton já contou com um carro de ponta em sua estreia n F1, em 2007
Hamilton já contou com um carro de ponta em sua estreia n F1, em 2007

Já Vettel contou com excelentes carros em 2011 e 2013, além de equipamentos bons o bastante para vencer corridas (2009, 2014 e 2015) e títulos (2010 e 2012). Senna vivenciou algo parecido em sua carreira: excelentes carros entre 88 e 91, além de estrutura para vencer GPs nos períodos de 85-87 e 92-93.

Talvez a grande diferença em favor de Senna é que, em duas de suas temporadas mais fortes em termos de carro, 88 e 89, ele tinha como colega na McLaren o também genial Alain Prost, com quem teoricamente dividia de forma equilibrada as vitórias na pista. Porém, tudo isso mostra que piloto algum faz milagre: para obter números expressivos, é preciso de equipamentos competitivos por boa parte da carreira.

TODOS SÃO EXCEPCIONAIS

Se piloto algum consegue sonhar alto sem um bom carro, o mesmo se aplica a um competidor mediano que se encontra em um excelente equipamento. Um item de grande importância nesta análise é que Vettel e Hamilton também são pilotos excepcionais, assim como foi Senna em sua época.

Hoje em dia, Vettel e Hamilton ocupam posições de total destaque perante seus contemporâneos – eles conquistaram, juntos, seis títulos nos últimos sete anos, sendo que mais um deverá chegar em breve com o inglês. Outro que poderia estar nesta briga, Fernando Alonso possui talento de sobra ao volante, mas algumas decisões erradas o puseram em situação delicada na carreira.

Assim, pode-se dizer sem medo de errar que o inglês e o alemão são os grandes pilotos da atual geração. Não à toa isso se reflete nas estatísticas. Senna desempenhou o mesmo papel ao lado de Prost na metade final dos anos 80 e começo dos anos 90.

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E essas marcas de hoje em dia não devem parar por aí. Vettel e Hamilton são jovens, possuem longa carreira pela frente e totais condições de se manterem na posição de protagonistas da F1 por muito tempo. Sendo assim, quem sabe até as marcas de Michael Schumacher também não possam ser superadas um dia?

Estatísticas representam números interessantes, mas sempre devem ser colocadas em contexto quando analisadas. O fato de Vettel e Hamilton serem tão bem sucedidos numericamente quanto Senna não diminui em nada o brasileiro, e nem há motivos para o fã mais saudosista torcer o nariz quando os feitos de seus ídolos são superados. O atual cenário comprova o fato de que a F1 continua com seu propósito de seguir em evolução, quebrando velhos recordes e estabelecendo novos parâmetros de excelência. Bom para quem realmente aprecia o esporte.

Assista à análise do GP do Japão de 2015 na edição #10 do Debate Motor:

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.