Primeiro GP do Brasil em 1972 frustrou festa da torcida em Interlagos

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*Artigo publicado originalmente no site Tazio, em 30 de março de 2012.

Foi apenas uma corrida de demonstração, mas em março de 1972, quando o Brasil sediou pela primeira vez uma prova de F1, em Interlagos, o público local saiu do autódromo com uma grande frustração.

Primeiramente, pela monotonia da prova; depois, pelo abandono de Emerson Fittipaldi, da Lotus, a cinco giros do fim. Emmo liderava a prova com tranquilidade quando o braço esquerdo da suspensão traseira do 72D se desprendeu do monocoque. Por pouco, a quebra da Lotus não provocou um acidente pior, quando o BRM P160 de Helmut Marko (é, ele mesmo, o agora consultor técnico da Red Bull) passava atrás do futuro bicampeão.

O "Rato" liderava tranquilamente a prova até um problema na suspensão do Lotus 72D o deixar na mão (Divulgação)
O “Rato” liderava tranquilamente a prova até um problema na suspensão do Lotus 72D o deixar na mão (Divulgação)

Antes disso, Fittipaldi ponteara a prova com tranquilidade. Após perder a liderança para o irmão Wilsinho na primeira volta, recuperou a ponta no giro seguinte e conteve a discreta caça das revelações Ronnie Peterson, da March, e Carlos Reutemann, da Brabham.

“Perder uma prova quase ganha e principalmente na frente do público brasileiro é muito chato”, disse Emerson, em entrevista ao “Estado de São Paulo”, a 31 de março de 1972, um dia após a corrida.

Mas nem a sólida apresentação de Fittipaldi segurou os cerca de 200 mil torcedores em Interlagos, que na metade da prova já deixavam o autódromo. O principal motivo era a falta de disputas na pista (veja um pouco da corrida no vídeo abaixo). Além disso, quatro carros haviam quebrado logo nas primeiras voltas, incluindo um irritado José Carlos Pace, à época na equipe de um certo Frank Williams.

Mais do que o terceiro lugar de Wilson Fittipaldi, a boa notícia daquela encalorada quinta-feira foi o bom público no circuito de Interlagos, algo inimaginável para os dias de hoje. Às 11h, segundo a edição da “Folha de São Paulo” do dia 31 de março de 1972, as arquibancadas, com capacidade para 55 mil torcedores, já estavam completamente lotadas.

Vencedor Reutemann entre o projetista Gordon Murray e o chefe da Brabham, Bernie Ecclestone (LAT)
Vencedor Reutemann entre o projetista Gordon Murray e o chefe da Brabham, Bernie Ecclestone (LAT)

Com a falta de policiamento no local, centenas de pessoas pularam os muros ao redor do autódromo e se instalaram ao lado do retão de Interlagos, retirando as placas de publicidade presentes na pista e improvisando barracas.

Entusiasmados, atiravam copos de plásticos nos carros responsáveis pela limpeza da pista, transformando o local em um “gigantesco piquenique”, como bem relatou a “Folha” na época. A renda totalizou Cr$ 1,5 milhão, a maior já registrada numa competição esportiva até então, mesmo com a evasão do dinheiro.

O público só não esperava um clímax tão melancólico, com o argentino Reutemann, da Brabham, no topo do pódio, ao lado de Peterson e Wilsinho. “Vencer uma prova como essa, diante de um público tão grande, serve de consagração para qualquer um”, disse o piloto da Brabham, tentando apagar o embaraço de vencer na frente dos opositores.

GP do Brasil/1972 – classificação final:

1º.       Carlos Reutemann (ARG/Brabham-Ford), 37 voltas em 1h37min16s248
2º.       Ronnie Peterson (SUE/March-Ford), a 1min27s656
3º.      Wilson Fittipaldi (BRA/Brabham-Ford)
4º.      Helmut Marko (AUT/BRM), a 1 volta
5º.      Dave Walker (AUS/Lotus-Ford), a 1 volta
6º.      Luiz Pereira Bueno (BRA/March-Ford), a 2 voltas

Não completaram:
Emerson Fittipaldi (BRA/Lotus-Ford), abandonou na volta 32 (suspensão traseira)
Alex Soler-Roig (ESP/BRM), abandonou na volta 11 (problema elétrico)
José Carlos Pace (BRA/Williams March-Ford), abandonou na volta 1 (acelerador)
Henri Pescarolo (FRA/Williams March-Ford), não completou a primeira volta (acelerador)
Peter Gethin (ING/BRM), não completou a primeira volta (acelerador)
Jean-Pierre Beltoise (FRA/BRM), não completou a primeira volta (falha de ignição)

Pole position: Emerson Fittipaldi (Lotus), 2min32s4
Volta mais rápida: Emerson Fittipaldi (Lotus), 2min35s2

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.