Projeto de privatização ainda deixa dúvidas sobre futuro de Interlagos

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A prefeitura de São Paulo caminha nestes últimos meses de 2017 para viabilizar a privatização do Autódromo José Carlos Pace, em Interlagos. A medida foi promessa de campanha do então candidato João Dória, que na época prometeu vender e conceder diversos ativos do município com o intuito de diminuir despesas e levantar recursos para a capital.

Ao assumir o cargo, ele levou a proposta a cabo, criando a Secretaria de Desestatização e Parcerias, que lidera o processo junto à Câmara dos Vereadores para a aprovar projetos de lei que dão permissão ao executivo municipal de seguir com a ideia.

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Durante o mês de outubro, finalmente foi enviado à Câmara o projeto específico de privatização do autódromo, de número 705. Diante do rápido avanço de outros objetos de mesmo intuito na Casa, é de se esperar que este também não tenha grandes obstáculos. O próprio prefeito, em coletiva de imprensa pré-GP do Brasil, em que o Projeto Motor esteve presente, enfatizou seu otimismo.

“Este será provavelmente o último GP do Brasil de F1 com o autódromo sob controle da prefeitura. A partir do ano que vem, o autódromo será leiloado na Bovespa, e terá um novo proprietário”, anunciou.

Largada Interlagos

Só que para o projeto se tornar viável, ainda existem muitos passos e dúvidas a serem sanadas. O PL enviado à Câmara trata basicamente da permissão da venda do autódromo com algumas especificações, porém sem detalhes sobre o que poderá ser feito no terreno. Segundo Dória, nele consta a obrigatoriedade de que o contrato atual com a F1, de duração até 2020, seja respeitado.

“O autódromo de Interlagos continuará sendo um autódromo, não irá mudar sua finalidade. Ele terá evidentemente uma complementariedade, do ponto de vista de investimento imobiliário, até para poder pagar o volume dos gastos que representarão um ingresso de receita da prefeitura e um investimento ainda complementar no autódromo”, afirmou.

O Projeto Motor foi conversar com o Secretário Adjunto de Desestatização, Ricardo Bargieri, que explicou que o comprador da área ainda será obrigado a manter o atual circuito e sua funcionalidade. Dentro do terreno, de cerca de 1 milhão de m², porém, uma área entre 150 e 250 mil m² em formas de ilhas poderá sofrer intervenções para que o novo proprietário construa e/ou viabilize novos projetos para geração de receitas.

Só que o projeto de venda de Interlagos ainda não regulamenta esta questão. O empreendimento terá que respeitar não só a função de autódromo, mas também diretrizes de dois importantes instrumentos que ainda estão em discussão. Um deles é o PIU (Projeto de Intervenção Urbanística) de Jurubatuba, que irá definir a vocação comercial e urbanística da área.

“É o PIU que define parâmetros urbanísticos tanto para o Autódromo quanto, em outro PIU, para o Arco de Jurubatuba”, diz Bargieri. “Aquela região vai estar sujeita a uma análise urbanística, que inclusive conta com a participação da população, com um chamamento público”, continuou.

Sendo assim, as restrições sobre o que pode e não pode ser feito em Interlagos serão publicadas no PIU, que sai como decreto da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, mas que necessariamente precisa passar por audiências públicas.

Ainda existe a Operação Urbana Jurubatuba, cuja revisão está em discussão na Câmara desde a última gestão, que deve regulamentar metas de melhorias para região e investimentos que a prefeitura deverá fazer na área com o dinheiro da venda dos CEPACs (Certificado de Potencial Adicional de Construção). Estes são valores mobiliários emitidos pelo município que permitem construções acima do potencial do terreno à iniciativa privada.

Sendo assim, mesmo após a aprovação (em duas votações) da liberação de venda de Interlagos, os potenciais compradores ainda terão que ficar de olho na regulamentação destes dois instrumentos, além de possíveis emendas de vereadores ao projeto, para saberem o que poderão realmente construir dentro do Autódromo de Interlagos.

Tamas Rohonyi, promotor do GP do Brasil, João Dória, prefeito de São Paulo, e David Barioni, presidente SPturis
Tamas Rohonyi, promotor do GP do Brasil, João Dória, prefeito de São Paulo, e David Barioni, presidente SPturis

Apenas depois da aprovação do PL e do PIU a prefeitura poderá iniciar o processo real de privatização, que inclui, por exemplo, a avaliação do terreno para medir parâmetros ao leilão. Por isso, Bargieri acredita que a venda mesmo deve acontecer apenas na metade de 2018.

“Temos o PIU, que deve durar pelo menos 3 meses, que é um prazo legal, tem as audiências públicas. Antes da aprovação, ainda podemos ser convocados para audiências pelas diversas comissões da Câmara. Imagino que, se tudo correr bem, teremos mais três ou quatro meses para início do processo de avaliação. Em meados do ano que vem devemos ter tudo encaminhado”, afirmou.

O pós-venda

O circuito de Interlagos é um ativo de enorme interesse público. Isso nenhum dirigente da cidade ou parte envolvida no projeto nega. Além de possuir um parque aberto para a população local, ainda é um centro esportivo voltado ao automobilismo e, claro, sede do GP do Brasil de F1, um dos três principais eventos do calendário anual de São Paulo.

Segundo números da SPTuris, órgão de capital misto comandado pela prefeitura e que administra o autódromo e tem como objetivo incentivar o turismo local, a corrida gera um aumento de receita para a cidade de cerca de R$ 250 milhões. Apenas na organização do GP são gerados cerca de 10 mil empregos temporários.

O presidente da entidade, David Barioni, ainda destaca que a ocupação dos hotéis da cidade sobe de 65% para 85% na semana da corrida e que a publicidade internacional gerada para o município, com a transmissão da etapa, também é bastante importante.

Mesmo assim, a prefeitura alega que prefere deixar a cargo da iniciativa privada a responsabilidade de investimento tanto na corrida quanto no custeamento do autódromo. Segundo a Secretaria de Desestatização, anualmente, o município injeta em média cerca de R$ 50 milhões em reformas e obras específicas para receber o GP. Outros R$ 5 milhões entram como despesas para cobrir a manutenção normal do circuito.

Apesar de não divulgar os números precisos, Barioni alega que em 2017, já sob a nova administração, Interlagos “fechará este ano com as contas ligeiramente favoráveis depois de muitos anos sendo deficitário”, dando indicação para o futuro de uma receita importante.

Isso ocorre porque, ao contrário do que muita gente imagina, Interlagos é utilizado praticamente o ano inteiro. Para se ter ideia, segundo a SPTuris, em 2016 foram realizados 254 eventos diferentes no autódromo, incluindo corridas de diversas categorias, testes, diárias para cursos de pilotagem e direção defensiva, shows, cerimônias corporativas, outras competições esportivas entre outros. Em 2015, foram 361 (lembrando que alguns eventos podem acontecer paralelamente no mesmo dia, em locais diferentes dentro das instalações). Isso tudo paga os custos anuais do circuito.

Evento de ciclismo em Interlagos (Foto: Divulgação/Autódromo de Interlagos)
Evento de ciclismo em Interlagos (Foto: Divulgação/Autódromo de Interlagos)

Então, por que não manter o autódromo? Na opinião do Secretário Adjunto de Desestatização, o problema é o engessamento da máquina pública, que dificulta o município de explorar novas receitas. Além disso, ele afirma que na visão da atual administração, a prefeitura deve manter o foco em outras áreas.

“O privado terá condições de desenvolver no autódromo outras atividades que a prefeitura não tem competência para fazer. Você tem algumas áreas disponíveis, ilhas, sem mexer na pista, que você pode receber ideias do privado, que hoje ficamos só imaginando”, explica. “É uma área muito grande, em que você pode desenvolver outras atividades. E pode fazer um autódromo mais integrado, como são autódromos em outros lugares do mundo, e que traga outras receitas”, continua.

Vale a pena?

Antes mesmo da avaliação, João Dória, admitindo que o valor pode sofrer mudança, prevê que a prefeitura arrecade algo em torno de R$ 2 e 2,5 bilhões apenas com a venda de Interlagos.

Com investimento deste porte, em uma área cheia de restrições, ainda precisando de uma regulamentação local para conhecer o potencial construtivo e de negócios, precisando fazer investimentos anuais para receber a F1 e com uma receita que pouco supera os custos, vale a pena a compra de Interlagos para a iniciativa privada?

“Não sei. Quando colocarmos no mercado vamos saber”, admite o secretário adjunto, Ricardo Bargieri.

O prefeito João Dória alega que já recebeu demonstração de interesse de diversos grupos nacionais e internacionais em suas diversas viagens e que acredita no projeto. “Conversamos com diversos potenciais investidores. Nos Estados Unidos, Dubai, Qatar, Coreia do Sul e na França, recentemente, onde fizemos uma reunião com 72 grandes investidores da Europa, sendo Espanha, França, Alemanha, Finlândia, Noruega, Rússia…”, diz.

Vista aérea de Interlagos
Vista aérea de Interlagos

A dúvida que fica no meio do automobilismo é se, no caso de uma futura não renovação de contrato da F1 e redução da pressão pública, existirá um movimento para que o novo proprietário justifique a mudança de finalidade do local tornando-o mais rentável e assim recuperando o investimento.

Importante ressaltar que o PL da venda não faz menção ao nível do circuito que o comprador terá que manter. Para sediar a F1, é preciso uma pista com licença de Grau 1 da FIA, que segue diversas exigências específicas da entidade. O que assegura a obrigação da manutenção atual é o contrato com a FOM até 2020. No caso da F1 não vir mais a São Paulo, não está claro se o circuito precisa ser mantido no mesmo modelo ou sofrer reformas como aconteceu com Jacarepaguá após jogos Pan-Americanos, antes do autódromo carioca ser definitivamente destruído.

O chefe do executivo municipal, no entanto, se diz confiante de que o custo da aquisição e das obrigações de futuros investimentos deverão render retornos que justifiquem a aquisição nos moldes que estão sendo propostos hoje, o que até justificaria a intenção de futuras renovações com a F1. “Essa é uma decisão empresarial. Não é uma obrigação imposta pela prefeitura. Mas é quase que óbvia. Para você ter resultado positivo, terá que investir além do investimento já feito aqui para que o retorno imobiliário e operacional pague o investimento. Estou seguro de que isso irá ocorrer.”

A F1

Tamas Rohonyi, promotor do GP do Brasil, se mostrou confiante no futuro da corrida em uma conversa com a reportagem do Projeto Motor. Porém, admitiu que ainda não faz ideia de como será a nova relação da organização da etapa com São Paulo.

Ele explicou que chegou a conversar com o prefeito João Dória durante os últimos meses, mas em nenhum momento teve acesso aos projetos que serão encaminhados à Câmara.

“Não conhecemos o projeto, mas tive uma conversa com o Senhor João Dória e ele me garantiu que a continuidade está assegurada”, afirmou. “Pode ser melhor, pode ser pior. Ninguém sabe. Nem o prefeito sabe. O mundo da F1 quer continuar correndo em Interlagos. Então, não vejo nenhum obstáculo”, prosseguiu.

Rohonyi ainda disse que a administração da F1, hoje nas mãos do Grupo Liberty, não tem conhecimento sobre o processo, mas que isso não deve interferir nas relações da categoria com a organização local.

“Eles não sabem. Não é assunto deles. Eles têm um contrato e nós temos que correr até 2020. Para eles tanto faz se o dono do autódromo é a prefeitura, você ou eu. Para eles tanto faz”, decreta.

Largada do GP do Brasil de F1
Largada do GP do Brasil de F1

Último investimento público antes da venda

Antes de seguir com a privatização em 2018, a prefeitura de São Paulo, com recursos do Ministério do Turismo, ainda fará um último investimento de dinheiro público no autódromo.

Para a próxima temporada, já está contratada a instalação de uma cobertura para o novo paddock de Interlagos, entregue há um ano. A obra estava prevista desde a gestão de Fernando Haddad e tinha sido acordada com a FOM (Formula One Management) nas negociações para última renovação do contrato do GP do Brasil.

 

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 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Carlos Alberto Junior

    Eu acho um pouco confuso essa situação, mas pelo que entendi ninguém sabe se vale a pena privatizar ou não. Segue a saga de Interlagos.

  • Cassio Maffessoni

    Até defendia essa ideia de privatizar a pista pra livrar a mesma dos sanguessugas da SPTuris, só que vendo melhor na teoria foi dito uma coisa, mas na prática seria outra. Então não sei se mudaria muita coisa, é difícil fazer algo semelhante a Abu Dhabi num autódromo aqui no Brasil em minha opinião por n motivos, porém pode ser que seja só achismo meu.

    Off: Gostei do ângulo de algumas fotos que foram utilizadas na matéria, talvez seja impossível trazer o traçado antigo de volta, mas com um pouca de boa vontade daria pra fazer um traçado com uma extensão maior que a atual bem interessante ali.

    • castilho17

      da uma lida nesse post ai.. ideias pra reativar trechos da pista antiga, comd esenhos..

      https://forum.flatout.com.br/forums/topic/f1-e-outros-interlagos-antigo-possivel/

      • Cassio Maffessoni

        Agradeço pelo link Castilho! Inclusive deu pra ver que ele teve uma ideia semelhante a que eu tive, a de esticar a última perna do Esse até o retão e essa ideia “A moda Suzuka” do cara também é sensacional!

  • Eli Carlos Miranda dos Santos

    Incerto o futuro do gp de Interlagos é.