Prós e Contras da candidatura de Hamilton a lenda F1

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É sempre muito difícil classificar um piloto dentro da história da F1 ou de qualquer outra categoria do automobilismo antes dele se aposentar. É difícil saber se ele ainda tem mais a mostrar ou se terá uma decadência dolorosa. Mesmo assim, Lewis Hamilton já está muito forte em seu pleito por se tornar um dos maiores nomes de todos os tempos.

Com a conquista do sexto campeonato, em 2019, fica praticamente impossível não se discutir a possibilidade de Hamilton não ser um dos melhores pilotos da história da F1. Não necessariamente o melhor, mas pelo menos no clube dos cinco mais importantes.

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A análise é complicada, pois requer uma verificação óbvia dos números da carreira, mas também de alguns critérios subjetivos. Para contribuir, separamos as cinco principais forças e fraquezas da candidatura de Hamilton a um lugar no panteão dos deuses do esporte a motor.

Em favor a Hamilton

1 – Mostrou força desde cedo

Se você estudar a carreira toda de Hamilton, é impossível pelo menos em algum momento não ficar impressionado. Se por um lado ele já estreou em uma equipe grande, com todas suas benesses e facilidades, por outro, também recebeu de imediato a pressão de estar em um time vencedor e ao lado do então bicampeão mundial, Fernando Alonso.

Hamilton à frente de Alonso
Hamilton à frente do companheiro Alonso, durante o GP dos EUA de 2007 (Foto: Bridgestone)

Hamilton não só lidou bem com a situação como se impôs, mesmo que sendo apenas um garoto de 22 anos estreando na F1. Ao final da primeira temporada, ele perdeu um título que parecia estar bem encaminhado, mas muito por conta dos problemas internos da McLaren. De qualquer forma, ele terminou empatado em pontos com Alonso, à frente na classificação geral pelos critérios de desempate.

Em seu segundo ano na F1, o inglês teve a responsabilidade de liderar a McLaren, e conseguiu, mesmo que com alguns momentos de instabilidade principalmente pela falta de experiência, vencer seu primeiro Mundial.

Depois se impôs na maioria dos embates contra um outro campeão mundial, Jenson Button. Ao mudar para a Mercedes, também teve mais sucessos do que fracassos contra Nico Rosberg. Em 13 temporadas, venceu corridas em todas.

2 – Sempre foi procurado por equipes fortes

Muitos reclamam que ele nunca guiou um carro ruim, mas isso é sinal de que seu talento é tão grande que ele sempre foi cobiçado por gente importante da F1. Hamilton teve sempre total apoio na McLaren e quando sentiu que a equipe estava entrando em uma descendente, aproveitou o convite para ser um dos principais nomes no novo projeto da Mercedes.

Caso Hamilton amanhã resolvesse deixar a equipe alemã, dificilmente não encontraria um lugar competitivo para correr.

3 – Assumiu o risco da Mercedes

Para um piloto ser grande, é importante ele caminhar com as próprias pernas e liderar seu próprio projeto. Hamilton fez isso quando largou a cômoda posição na McLaren e ir para a Mercedes.

Hamilton celebra com sua Mercedes
Hamilton sobre sua Mercedes, marca que lhe deu as principais alegrias na F1 (Foto: Steve Etherington/Mercedes)

É bom lembrar que quando ele anunciou sua transferência para a equipe alemã, ela tinha vencido apenas uma corrida desde seu retorno à F1, fechando o campeonato de construtores de 2012 apenas na quinta posição, com menos da metade dos pontos da quarta colocada.

Hamilton confiou não só na estrutura da Mercedes, mas em seu potencial para liderar um projeto quase que do zero.

4 – Os números de Hamilton falam por si só

Muita gente não gosta de analisar números para apontar a grandeza de um piloto na história. Realmente, eles não podem ser a única ferramenta de avaliação, por desconsiderar situações específicas de algum momento ou passagem, porém, devem sim ter um grande peso. Afinal de contas, representam as conquistas daquele piloto.

E isso, Hamilton já tem de sobra:
Títulos: 6 (2º da história)
Vitórias: 82 (2º)
Poles: 87 (1º)
Voltas mais rápidas: 46 (2º)
Pódios: 150 (2º)
Corridas lideradas: 146 (1º)
Hat tricks (pole, melhor volta e vitória na mesma prova): 14 (2º)

E Hamilton ainda tem tempo para conseguir mais. Muito mais.

5 – É um piloto completo

Hamilton é um piloto que conseguiu evoluir com o passar dos anos. Desde sempre ele foi muito rápido. Só que em seus primeiros anos, muitas vezes era agressivo demais. Hoje, é possível perceber que ele sabe quando deve ou não assumir algum risco extra. Se ele fez muita bobagem e cometeu erros em seu início, ele aprendeu com eles e é difícil ver hoje ele se envolver em um acidente bobo ou tentar uma manobra estabanada.

Celebração de mais uma vitória em casa, no GP da Inglaterra de 2019 (LAT Images/Mercedes)

O inglês também é um piloto com um ótimo ritmo de corrida, que consegue ser bastante consistente durante toda a prova e também administrar bem os pneus para usá-los na hora certa. Na F1 de hoje, isso é importante para abrir mais possibilidades de estratégias.

Outros dois talentos o acompanham desde seu início na F1. Hamilton é rápido em classificação. Ele consegue com alguma facilidade colocar uma volta rápida quando luta por uma pole position. Também não se assusta quando o tempo não colabora. Se a chuva cair, a equipe sabe que ele se vira bem e segue como um dos favoritos.

Contra Hamilton

1 – Ele nunca se testou em uma equipe menor

Em treze temporadas na F1, Hamilton andou em apenas duas equipes: McLaren e Mercedes. Ambas com uma grande estrutura. A primeira, quando ele entrou, era uma das principais escuderias do grid, sempre lutando por vitórias. A segunda, mesmo que ainda sendo um projeto para o futuro, já contava com todo apoio de uma das marcas que mais investia na F1.

No final das contas, nunca vimos Hamilton em uma equipe média e o que ele poderia fazer ou como se comportaria em um cenário mais difícil em termos de carro e resultados.

2 – Psicológico e foco

Alguns momentos da carreira de Hamilton, mesmo durante período de vitórias, ficaram marcados por demonstrações de falta de foco ou de um psicológico que pode ser facilmente abalado.

Durante os anos na McLaren e até mesmo na Mercedes, ele sofreu algumas derrotas importantes, inclusive para companheiros de equipe, ao ter um desempenho abaixo do esperado por questões extra pista, não saber lidar com alguma situação interna do time ou simplesmente pressão por mais vitórias.

Hamilton se isolou em alguns momentos da carreira e seu desempenho caiu na pista (Foto: McLaren)

3 – Manchas no currículo de Hamilton

Hamilton tem algumas derrotas que podem se consideradas manchas em seu currículo. Ambos em momentos em que ele mostrou certa fraqueza psicológica.

Em 2011, por conta de problemas fora da pista com seu pai, mudanças religiosas e relacionamentos amorosos, ele teve uma temporada difícil. Ele se envolveu em diversos acidentes (muitos deles com Felipe Massa) e jogou fora algumas corridas. No final das contas, acabou superado pelo companheiro, Jenson Button, por uma margem considerável de pontos (270 x 227).

Alguns anos depois, em 2016, nova derrota em uma guerra interna na Mercedes com Nico Rosberg. O próprio alemão admite que jogou com a cabeça do inglês. Hamilton não soube lidar com a pressão do companheiro, que sabendo que não conseguia ser tão rápido quanto o inglês, se armou de outras formas. Os dois se tocaram em pelo menos dois momentos (GPs da Espanha e Áustria).

Rosberg lidera Hamilton no GP de Mônaco de 2016 (Foto: LAT/Mercedes)

No final, Hamilton teve que ficar com o gosto amargo de um vice-campeonato em uma temporada em que apenas sua equipe brigava pelo título. E assim, ver um rival dos tempos de kart levantar a taça com o mesmo carro que ele tinha.

4 – Andou com o mesmo motor a carreira inteira

Hamilton é um dos poucos campeões mundiais a fazerem toda a sua carreira com o mesmo motor. Veja bem, não estamos falando apenas de vencer os campeonatos, mas de competir sempre com o mesmo equipamento.

Tanto pela McLaren como pela Mercedes, o inglês teve apenas os poderosos propulsores da montadora alemã em seus carros. Mesmo em uma era em que o piloto participa menos do desenvolvimento, a situação é obviamente menos exigente no sentido de flexibilidade no estilo de trabalho e adaptação de pilotagem.

5 – Apoio desde o começo

A trajetória de Hamilton tem uma beleza por significar algumas vitórias socioculturais. Um negro triunfar em um dos esportes mais elitistas e caros do mundo é algo raro. Muito raro. O começo foi difícil, com o pai, Anthony Hamilton, chegando a trabalhar em três empregos ao mesmo tempo para financiar as corridas do filho.

Só que ainda muito jovem, o talento de Hamilton chamou a atenção de algumas organizações. Em um evento de automobilismo na Inglaterra, quando tinha 10 anos, ele foi pedir o autógrafo de Ron Dennis, um dos chefes da McLaren e disse: “Olá, eu sou Lewis Hamilton. Eu venci o Campeonato Britânico e um dia quero pilotar seus carros.” Dennis escreveu no autógrafo: “Me ligue em nove anos e vamos conversar.”

Hamilton celebra a primeira vitória de sua carreira na F1, no GP do Canadá de 2007 (Foto: Bridgestone)

O dirigente não esperou nove anos. A ligação aconteceu apenas três anos depois. Pouco Com mais algumas vitórias em campeonatos importantes que começaram a colocar o foco no jovem, Dennis entrou em contato com Hamilton e o contratou para o seu Programa de Desenvolvimento de Pilotos. Mais do que isso, envolveu também a Mercedes, parceria da McLaren na época, na carreira do inglês. Assim, o resto da trajetória inteira do futuro campeonato, foi assistida pelas duas organizações, o que sempre lhe deu a chance de andar pelos melhores times e com os melhores equipamentos.

Nada de correr atrás de patrocinadores. Além disso, toda a estrutura que a Mercedes poderia lhe dar com preparadores físicos, psicólogos, nutricionistas e até mesmo para acompanhar sua evolução escolar.

Para alguns rivais, isso acabou se tornando um favorecimento de décadas em um esporte que dá poucas chances no topo da pirâmide. Para outros, apenas um merecimento por seus feitos.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.