Proteção e desempenho: conheça os segredos dos capacetes da F1

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Não é segredo que a F1 conta com muito do que há de mais moderno no automobilismo de competição. Por se tratar da categoria que é referência de performance no planeta, a tecnologia de ponta está presente em todos seus aspectos, não só nos carros mas também nos equipamentos utilizados por seus participantes.

Os capacetes fechados são alvo de melhorias ano após ano desde foram utilizados pela primeira vez na F1, na transição dos anos 1960 para os 70. Afinal, trata-se de uma peça vital para a segurança e que, ao mesmo tempo, deve ser confortável o bastante para não atrapalhar o rendimento do piloto.

Atualmente, os capacetes utilizados na F1 precisam ter a especificação 8860 da FIA, formulada em 2004 e que ganhou um novo apêndice no fim de 2010, que se refere ao uso de uma proteção extra à viseira (já explicamos os motivos neste artigo).

Para obter este selo, o casco precisa cumprir com uma série de pré-requisitos. A começar pelo peso, que, para não sobrecarregar o pescoço dos pilotos nas curvas, não deve extrapolar 1,8 kg. Parece fácil, já que capacetes comuns, usados por motociclistas nas ruas, têm peso semelhante. Porém, deve-se levar em consideração que, a fim de ter uma proteção suficiente para os padrões da F1, o modelo conta com cerca 20 camadas, feitas de fibra de carbono, kevlar e material antichamas.

TESTES RIGOROSOS

Além disso, os capacetes não devem apresentar nenhuma deformação ou dano após os testes de impacto. No teste vertical, realizado no topo do casco, aplica-se 225 J, equivalente a uma queda livre de 5 metros de altura, usando uma plataforma de 5 kg (peso médio da cabeça de um adulto). No impacto lateral, mais que o dobro da força é aplicada (500 J).

Capacetes passam por testes de impacto e perfuração (Arai)
Capacetes passam por testes de impacto e perfuração (Arai)

Há também os testes de penetração, realizados sobre superfícies pontiagudas, tanto na parte do casco quanto na viseira. Outra prova importante é a de temperatura: os capacetes devem ficar por 45 segundos expostos a chamas de 800º C, e a temperatura interna não deve passar de 70º C.

Deu para entender por que os capacetes são vistos como “obras de arte”, produzidos cuidadosamente para seguir todos os rigorosos testes. Não à toa, até mesmo sua parte estética deve cumprir certas normas. Como a pintura pode interferir na capacidade de absorção de impacto do lado de fora do casco ou nas temperaturas internas do capacete, a tinta utilizada deve ser específica, de preferência de acrílico ou esmalte poliuretano.

Além da proteção, os capacetes também são usados como forma de melhorar a eficiência aerodinâmica junto aos carros, e cada fabricante pode encontrar sua própria solução. Então, vamos conhecer um pouco mais das quatro fornecedoras de capacete da F1:

ARAI
Modelo:
GP6 RC
Sede:
Saitama, Japão
Pilotos:
Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo, Daniil Kvyat, Max Verstappen, Carlos Sainz, Fernando Alonso, Jenson Button, Pascal Wehrlein, Rio Haryanto

Vettel usa capacetes Arai desde que era criança (Ferrari)
Vettel usa capacetes Arai desde que era criança (Ferrari)

Com quase metade do grid da F1, a fabricante japonesa Arai é a mais popular entre os pilotos. As linhas do modelo GP6 RC são inspiradas em um ovo, já que, segundo a filosofia da empresa, “se trata do formato ideal desenvolvido pela natureza para sobreviver a danos causados por impactos inesperados”.

O GP6 RC conta com cinco entradas de ar (duas no queixo, três na parte superior), além de duas saídas na parte de trás, a fim de facilitar a ventilação e evitar que a viseira fique embaçada. O conforto, aliás, é tido como um dos pontos fortes da marca: recentemente, segundo a empresa, um piloto da F1 reclamava de dores de cabeça quando usava o capacete de outra marca, o que foi solucionado quando passou a vestir os Arai.

O casco japonês usualmente conta com um aparato aerodinâmico na parte superior traseira da cabeça, a fim de facilitar o direcionamento do ar para a traseira do carro. Por esse e outros motivos, a Arai é a marca preferida de ninguém menos que Adrian Newey, que recomenda que todos seus pilotos usem os produtos japoneses.

Apesar do sucesso, a Arai sofreu uma perda importante no ano passado: Lewis Hamilton, que mantinha um relacionamento de 20 anos com a marca, queixou-se da falta de evolução tecnológica aplicada nos capacetes e passou a utilizar os produtos da Bell.

BELL
Modelo: HP7
Sede: Sakhir, Bahrein
Pilotos:
Lewis Hamilton, Kimi Raikkonen, Marcus Ericsson, Romain Grosjean, Esteban Gutierrez, Kevin Magnussen

Hamilton mudou para os capacetes Bell em 2015 (Mercedes)
Hamilton mudou para os capacetes Bell em 2015 (Mercedes)

A tradicional fabricante Bell vem inovando nos capacetes de competição desde 1968, quando introduziu o primeiro modelo fechado com Dan Gurney, nas 500 Milhas de Indianápolis daquele ano.

Além dos 14 orifícios de entrada e saída de ar para “refrescar a cuca” do piloto, o modelo HP7 chama a atenção pelo design de sua parte dianteira. A viseira fica situada em posição um pouco mais baixa que o habitual, o que beneficia o desempenho aerodinâmico, a capacidade de absorção de energia e seu conforto acústico. Ela também conta com uma espécie de dupla camada de policarbonato, o que impede seu embaçamento e melhora a visibilidade em condições adversas.

O modelo, porém, utiliza outros apetrechos opcionais, como um spoiler extra na região do queixo, com o objetivo de dispersar o ar e impedir que haja turbulência para os pilotos em velocidades mais altas.

O HP7 conta com novidades visíveis em relação ao seu antecessor, o HP3, especialmente o parafuso extra na fixação da viseira a fim de impossibilitar o acúmulo de água no local. Essas e outras novidades atraíram, além de Hamilton, nomes como Kimi Raikkonen e Kevin Magnussen, que recentemente trocaram os Arai pelos capacetes da Bell.

STILO
Modelo:
ST5FN Zero
Sede:
Pedrengo, Itália
Pilotos:
Valtteri Bottas, Felipe Nasr, Jolyon Palmer

Com Nasr, Stilo fez estreia na F1 em 2015 (Sauber)
Com Nasr, Stilo fez estreia na F1 em 2015 (Sauber)

A terceira fabricante da lista é a caçula da turma. A italiana Stilo, fundada em 1999, tem retrospecto de sucesso no turismo e rali, mas fez sua estreia oficial na F1 somente no ano passado, com Felipe Nasr. Para sua segunda temporada na categoria, a marca contará com mais dois representantes: o estreante Jolyon Palmer e Valtteri Bottas, que deixou os Arai.

O grande trunfo do ST5FN Zero é o peso: com apenas 1,2 kg, o modelo é de 0,2 a 0,4 kg mais leve que os concorrentes devido ao casco mais enxuto. Apesar do menor tamanho, a unidade não despreza a segurança, já que recebeu homologação máxima da FIA no ano retrasado.

SCHUBERTH
Modelo:
SF1
Sede: Magdeburgo, Alemanha
Pilotos: Nico Rosberg, Felipe Massa, Nico Hulkenberg, Sergio Perez

Os capacetes da Schuberth entraram há relativamente pouco tempo na F1, no início da década passada, mas ganharam ampla notoriedade quando Michael Schumacher conquistou quatro títulos consecutivos com os cascos alemães.

Schumacher, aliás, causou polêmica ao afirmar de forma categórica que a Schuberth produzia capacetes mais seguros que a Bell (marca que usou até 2000) e fez o “meio de campo” para que a fornecedora de seu país firmasse um contrato com a Ferrari, que durou até o fim de 2014.

Os produtos da Schuberth voltaram a ficar em destaque em 2009, com a “molada” sofrida por Felipe Massa no treino classificatório do GP da Hungria. Na ocasião, o capacete foi amplamente elogiado pelo brasileiro, que considerou que a peça salvou sua vida.

O atual modelo da Schuberth, o SF1, foi utilizado pela primeira vez em 2011, quando a nova película de zylon passou a ser obrigatória sobre a viseira. O capacete conta com evoluções aerodinâmicas e dez orifícios de circulação, o que permite o trânsito de 10 litros de ar por segundo a 100 km/h.

Por produzir capacetes considerados caros, a Schuberth perdeu número de representantes na F1 nos últimos anos, mas ainda assim produz uma das peças mais prestigiados do automobilismo.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.