Punição a Cacá mostra como entidades esportivas brasileiras só pensam no poder

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Nesta última terça-feira (28), o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) confirmou a suspensão a Cacá Bueno de uma rodada dupla da Stock Car por ter chamado de “imbecis” os comissários da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) no rádio de sua equipe, ainda dentro do carro, durante a etapa de Ribeirão Preto. Além disso, ele ainda terá que pagar uma multa de R$ 50 mil.

A decisão é uma das coisas mais escabrosas já vistas na história do esporte nacional. A denúncia por parte da entidade, segundo um texto de Bueno publicado no seu Facebook, pedia ainda suspensão de três etapas e mais multa de R$ 100 mil.

Cacá Bueno (Divulgação)
Cacá Bueno (Divulgação)

Tudo aconteceu porque a pessoa responsável pela bandeirada ao final da prova perdeu a passagem de Cacá e Marcos Gomes, primeiro e segundo, na última volta. Na dúvida, Gomes continuou atacando o adversário, que até ter certeza que tinha vencido a corrida, teve que se defender.

Além do gasto desnecessário de combustível (isso aconteceu na primeira disputa da rodada), ainda existiu o risco de um acidente, pois fiscais já andavam no traçado com bandeiras amarelas.

Irritado, Cacá protestou pelo rádio e emitiu o xingamento, que, convenhamos, não é nem perto de um verdadeiro palavrão, o que a situação realmente merecia. Só que a conversa veio ao ar na transmissão da TV e gerou desconforto na CBA.

A comunicação do rádio pode ser ouvida a partir de 1mi20s deste vídeo:

É quase impossível tentar entender como uma conversa entre piloto e equipe pode servir de prova para uma punição como esta. É como se alguém entrasse com um microfone no vestiário de um time de futebol e punisse um jogador por reclamar do árbitro com os companheiros de equipe.

“Ah, mas os pilotos sabem que as conversas vão para o ar”, pode dizer um. Não importa. Aquele é um canal piloto-equipe. É muito interessante que a comunicação siga indo ao ar, pois ajuda a promover o espetáculo, mas não deve ser utilizada desta maneira. A não ser que realmente seja uma prova de que o piloto esteja infringido algum código mais importante, como dizer que vai tirar um adversário da prova, por exemplo.

E mais, mesmo que Cacá tivesse feito o desabafo em uma entrevista, seria ridícula essa punição. Talvez uma advertência, uma conversa interna para que isso não se repetisse. Mas suspender o piloto por conta de um “imbecil” logo depois de uma imbecilidade? Não. “É preciso manter a autoridade da Confederação”, vai defender algum dirigente. Defenda na dose certa, como analisou o jornalista Américo Teixeira Jr., em seu blog. 

Nem precisamos entrar no mérito de o quão importante é Bueno para a Stock Car. Ele é um dos grandes da história da categoria. Isso não importa nesta questão. Só que justamente por ser uma pessoa que já comprou algumas brigas com os organizadores e CBA e nunca se omitiu em entrevistas, ele sempre esteve na mira dos dirigentes.

“Nunca ficarei calado e nem deixarei de ficar indignado pela falta de segurança no nosso esporte, pela luta da manutenção dos nossos autódromos e pela criação e suporte as categorias de base e mão de obra, coisas que acho que a nossa confederação deveria depositar sua atenção”, escreveu o piloto no Facebook.

A situação lembra muito a suspensão de dois jogos recebida por Vanderlei Luxemburgo no Campeonato Carioca deste ano, por ter criticado a Federação local pela organização do torneio. Outras, parecidas, com atletas de diversas outras modalidades, já aconteceram.

No Brasil, dirigentes que muitas vezes nunca nem praticaram o esporte que administram, acreditam que são mais importantes que os atletas ou que o público. Não gostam de receber críticas, tentam censurar jornalistas, técnicos e atletas, evitam e adoram processar membros da imprensa. Em vez de pensarem em maneiras de melhorar o esporte, estão mais preocupados em se manter no poder e calar quem os critica. Estamos falando de COB, CBF, CBA, CBV, e diversas outras entidades representadas por letrinhas.

E se entrarmos na discussão sobre os STJDs da vida, a conversa ainda vai mais longe. São grupos de advogados que decidem o futuro de equipes e atletas porque teoricamente possuem o conhecimento jurídico necessário para interpretar regras e o nível de gravidade das infrações.

E assim seguimos. Com o esporte brasileiro nas mãos destes crápulas, dependendo de suas vontades e caprichos. Pois é muito mais fácil suspender um piloto que chama os dirigentes de “imbecis” do que garantir que na próxima corrida a bandeirada seja dada na volta correta.

 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Vicente Camara

    É uma vergonha que a maioria das confederações nacionais de esportes tenham se tornado feudos de pessoas com intenções duvidosas. Quem perde com isso é o próprio Brasil e os esportes… como você citou, sobram siglas de entidades que se tornaram um protetorado, suportado por confederações vassalas submissas, que perpetuam esse sistema por anos. É a estrutura medieval do esporte brasileiro. E o governo não pode interferir, pois são entidades independentes, que como no caso do futebol (e de sua MP) recebem apoio até de entidades internacionais do esporte (no caso a FIFA). Por que o Estado não intervêm nessas entidades, exigindo transparência e evitando os longevos mandatos das estirpes de sanguessugas? Afinal o bem do esporte não é de interesse da coletividade? E esse STJD, sem comentários.