Qual a maior dificuldade que pilotos novatos enfrentam ao chegar à F1?

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A F1, como ápice do automobilismo, é obviamente o alvo da maioria dos pilotos que começam a correr pelo mundo. E quando chegam à categoria, eles encaram um desafio muito longe de tudo que enfrentaram antes. Alguns se adaptam rapidamente, outros precisam de mais tempo, mas a verdade é que todos, em algum momento, são vítimas de um choque de realidade.

O Projeto Motor percorreu o paddock para entender o que a F1 impõe de mais difícil para os novatos que chegam à categoria. E, pelo incrível que pareça, é quase unânime que o maior problema não está em nada diretamente ligado à pilotagem.

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Especialista em lidar com jovens pilotos, Franz Tost, chefe da Toro Rosso, equipe utilizada pela Red Bull para abrir espaço para seu programa de formação de pilotos, explica que o ambiente mais duro da F1 e o tamanho da estrutura das equipes é o que muitas vezes assusta os estreantes.

“A parte mais fácil para o piloto é sentar no carro e pilotar. O difícil é tudo que está ao entorno. Temos que administrar o piloto de uma forma cuidadosa para que ele não fique sobrecarregado com informação. Isso depende sempre de cada piloto. Alguns são mentalmente mais fortes e fazem as entrevistas, os eventos de marketing e são inteligentes o bastante para não perderem energia demais com isso. Outros trabalham de uma forma diferente e perdem energia demais. A equipe precisa ter cuidado com isso”, explicou o dirigente em entrevista exclusiva ao Projeto Motor.

O jovem estreante Pierre Gasly ao lado do chefe da Toro Rosso, Franz Tost
O jovem estreante Pierre Gasly ao lado do chefe da Toro Rosso, Franz Tost

Isso se deve a muitos fatores. Para começar, a concepção da categoria em si. O fato de ter não só carros mais complexos, mas por cada time construir e desenvolver seu próprio modelo, faz com que as equipes precisem de muito mais informações para conseguirem evoluir e procurar o melhor acerto.

Além disso, obviamente que a atenção dada pela imprensa internacional e por patrocinadores é muito maior. Isso faz com que, seja durante ou até fora dos finais de semana de corrida, os pilotos sejam obrigados a atenderem a inúmeros eventos. O impacto dessa situação muitas vezes faz pilotos não acostumados com toda essa atenção a terem dificuldade de se manterem concentrados no trabalho principal.

Lance Stroll fez sua estreia em 2017 no Mundial pela Williams e teve muita dificuldade em suas primeiras corridas, se envolvendo em diversos acidentes e se tornando alvo de críticas. O canadense, no entanto, mostrou evolução durante a temporada. Ele admitiu que a quantidade de informações requisitadas ao piloto na F1 foge totalmente do que ele é acostumado antes de chegar à categoria.

“Tem muita atividade acontecendo fora da pista e o carro em si é muito diferente de pilotar, então, tecnicamente, pilotar o carro, trabalhar com os engenheiros e trabalhar com a equipe e os finais de semana são muito mais carregados do que em qualquer outra [categoria]. Existe muito mais coisas acontecendo por todos os lados, então, você tem que prestar a atenção em muitos detalhes que em outras categorias você não precisa necessariamente olhar”, explicou o piloto de 19 anos.

Stroll troca informações com membro da Williams no grid
Stroll troca informações com membro da Williams no grid

Outro volante que fez sua estreia na F1 em 2017, Pierre Gasly também admitiu que ficou um pouco impressionado com o tamanho da estrutura e da complexidade do trabalho nas equipes da categoria.

“Acho que na F1 você trabalha com muita gente. Na F2, você trabalha com 20, 25 pessoas na equipe. Na F1 é uma loucura. São tantos engenheiros que querem um feedback sobre coisas bastante específicas… Acho que essa é uma das maiores diferenças”, salientou o francês.

O chefe da Toro Rosso ainda indica que existe os jovens pilotos são observados também por sua postura profissional fora dos GPs. Eles precisam mostrar um comprometimento total com a F1. E isso significa todos os dias se manterem com o foco em trabalhar algo que os torne melhor, seja na pilotagem, na parte física ou mental.

“Ele precisa trabalhar 365 dias do ano para a F1. O treinamento físico é muito importante, pois os carros atuais são muito exigentes do lado físico, eles são muito rápidos nas curvas. Segundo, nutrição também é muito importante. E para cada piloto é algo diferente. O ponto seguinte é que o piloto precisa ser disciplinado. Isso significa não só chegar nos horários das reuniões, mas não pilotar acima do limite do carro, não frear tarde demais e bloquear as rodas na classificação… E ser criativo, encontrar maneiras de melhorar. Olhar o companheiro de equipe, o que os outros pilotos estão fazendo e encontrar novas formas de se preparar”, apontou.

Isso mostra porque muitos pilotos, que às vistas do público podem estar fazendo um trabalho bom ou regular na pista, são deixados de lado nas renovações de contrato, já que, para fechar um planejamento de longo prazo, a equipe observa também outros fatores além dos resultados.

Nível da nova geração

Nos últimos anos, uma leva de jovens pilotos com menos de 20 anos, que tem Max Verstappen como um ícone ao estrear em 2015 na F1 aos 17, entraram ou começaram a bater à porta da F1. Muitos deles, inclusive, pulando categorias e vindo direto da F3 ou GP3 e com poucos anos de corridas de carros.

A fase fez florescer alguns questionamentos sobre se estes ases estariam chegando preparados o bastante para enfrentar o nível de velocidade e de exigência física do Mundial. Na opinião de Franz Tost, apesar deste novo perfil, ele acredita que os novos pilotos estão desembarcando no certame com muito mais bagagem do que em outros tempos.

“Os pilotos novatos hoje são muito melhor preparados do que no passado. Eles começam a correr de kart com seis ou sete anos. Isso significa que se eles chegam à F1 com 18 ou 20 anos. Eles têm 12, 14 anos de carreira. Isso é decisivo. Isso não acontecia há 15, 20 anos. A primeira geração vinda do kart foi a de Alain Prost, a segunda, de Ayrton Senna, a terceira, de Michael Schumacher e Mika Hakkinen, a quarta, de Hamilton e Vettel, e agora temos a quinta geração. Qual a diferença: na primeira, eles andavam apenas nas férias de verão, a segunda, eles começaram a andar no inverno também, a terceira, eles já tinham dois karts, na quarta, corriam o ano inteiro, e na quinta, eles vivem na pista.”, analisou.

Max Verstappen, no Mundial de Kart de 2012
Max Verstappen, no Mundial de Kart de 2012

Sendo assim, o aumento de velocidade acaba não sendo um problema para os pilotos. E sim, as características técnicas mais específicas, como comportamento dos pneus, e principalmente a grandiosidade do evento.

“Quando eles chegam na F1, pilotar não é o problema. É o ambiente. O problema é entender os pneus e toda essa coisa, mas a velocidade não é problema. Você tem que cuidar dessas outras coisas. Antigamente, você tinha que andar com o piloto pelo circuito e dizer, ‘você precisa frear mais cedo, fazer isso, aquilo’. Isso não é mais necessário”, seguiu o dirigente da Toro Rosso.

Um exemplo deste preparo é Esteban Ocon, que largou em seu primeiro GP ainda com 19 anos, em 2016. O francês, porém, já tinha acumulado uma quilometragem importante na carreira, com os títulos da F3 Europeia e GP3, testes e participação em treinos livres na própria F1, e uma passagem importante pelo DTM, o campeonato alemão de turismo, em que teve oportunidade de trabalhar diretamente com um time oficial da Mercedes.

“Eu estava bem preparado antes de chegar à F1. Eu já tinha pilotado para diferentes equipes nos testes e fui para o DTM com a Mercedes, onde é a mesma forma de trabalhar com engenheiros, patrocinadores. É o mesmo nível de profissionalismo. É apenas uma especificação de categoria. Acho que você tem que aprender todos os detalhes para ter certeza de que está onde precisa”, disse o francês ao Projeto Motor de forma bastante confiante.

Com uma carreira de características bastante diferentes do novato, Brendon Hartley chegou à F1 em 2017 aos 28 anos e, assim como Ocon, também vindo de outra categoria top, o Mundial de Endurance. Segundo o neozelandês, o fato de ter trabalhado em uma escuderia oficial de uma grande montadora, na Porsche, facilitou a sua inclusão neste novo mundo.

Por isso, quando perguntado pelo Projeto Motor sobre a questão, ele foi o único que destacou o fato de ter caído de paraquedas na série, em um final de semana de GP, nos Estados Unidos, em uma temporada em que os carros ganharam muita velocidade nas curvas.

“Acho que em Austin, o grande impacto foi com a alta velocidade. Foi incrível, com esses novos carros, o quão rápido eles são no primeiro setor em Austin, então, foi surpreendente e tomou um tempo para eu ganhar confiança.”

Pneus são o grande diferencial dentro da pista

Se existe algo que exige uma grande adaptação dos pilotos quanto à pilotagem na chegada na F1 são os pneus. Os compostos da categoria, atualmente desenvolvidos pela Pirelli, possuem uma faixa específica de melhor funcionamento. O piloto precisa saber aquecê-los corretamente e não força-los durante classificação nem desgastá-los demais na corrida.

Esteban Ocon, com sua Force India, à frente da Williams de Lance Stroll
Esteban Ocon, com sua Force India, à frente da Williams de Lance Stroll

Com a experiência de quem já andou na F1 com diversos regulamentos diferentes, Felipe Massa, às vésperas de sua aposentadoria, explica que a questão é primordial e que influencia principalmente na classificação.

“Você precisa entender os pneus, você precisa de uma volta perfeita. Mesmo com os treinos da sexta-feira no sábado pela manhã, algumas vezes não é o suficiente, pois você não tem pneus novos o tempo todo. Então, você chega à classificação, você tem pneus novos e de cara precisa de um tempo bom, especialmente no Q1, ainda mais quando você está brigando com três ou quatro times. Se você não consegue a volta logo de cara, talvez você nem passe para o Q2.”

Franz Tost corrobora da opinão do piloto brasileiro e diz que este é um dos principais desafios de todos os pilotos do grid, mas que se torna maior ainda para quem está chegando de outras categorias, onde a questão não é tão preponderante.

“Para entender os pneus [é difícil] e saber usá-los da forma mais eficiente é o maior desafio para pilotos experientes e mais ainda para os jovens. Para saber se a volta de saída dos boxes deve ser rápida ou devagar depende da temperatura, do composto… Às vezes a pista está 20°C mais fria no terceiro treino livre, que acontece pela manhã, do que na classificação”, destaca. “O experiente sabe disso. Mas o novato, se ele está saindo pela primeira vez com pneu supermacio, é algo muito difícil para ele. Ainda mais na classificação”, completa.

Dedo na ferida

Ao responder uma pergunta do Projeto Motor sobre o que o chamou mais atenção desde a estria, Gasly ainda apontou mais um ponto que ele – assim como muitos fãs e pessoas envolvidas no esporte – tem dificuldade de compreender na F1: as regras de penalizações da categoria.

“Acho que aceitar todas as punições que você pode receber [é o mais difícil]. Isso não existe nas categorias menores. Nas categorias menores, quando você classifica em uma posição, você larga naquela posição. Quando eu classifiquei no México [na F1], já sabíamos que se não classificasse entre os 10 primeiros, eu ia sair do fim do grid. Isso é algo que é difícil de aceitar.”

 

Debate Motor: O que aconteceu com a formação de brasileiros para a F1? 

 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Antonio Manoel

    Excelente reportagem, abordaram uma questão que até agora eu nunca havia visto ninguém mais abordar, ainda mais de forma tão profunda e considerando a evolução toda que a F1 tem à cada ano, creio que o desafio dos pilotos fique ainda maior daqui à alguns anos e nisso também a gente vê a grandiosidade nos nomes da ponta do grid, daqueles que se tornaram campeões como Hamilton, Vettel, Alonso e Raikkonen e etc…

  • Gil Rocha

    Olá Projecto Motor!

    Antes de mais parabéns pela coragem em escrever sobre este tema porque é muito pertinente.
    Tenho vindo a pensar neste assunto e surgiu-me 2 ideias (impossíveis, estúpidas ou não mas o que é certo é que pensei sobre este problema lol):
    1 – Este novo modelo de pontos para a super licença é super interessante. Haver uma “escada” para atingir a Formula1 é necessário senão vamos ter muitos Stroll´s desta vida ou Ericsson´s. Não estou a dizer que são maus, apenas que estão a ocupar espaço para pilotos que secalhar são melhores e podiam acrescentar mais ao desporto. Portanto, a progressão do piloto até chegar ao ponto alto (entenda-se por F1) seria bem linear.
    Nota: Muita gente diz que MotoGP tem mais ação do que F1 e não é por acaso. Parte desse show vem dos pilotos que tiveram uma progressão bem correcta!

    2 – Seria possível arranjar benefício para as equipas da Formula2/3 ? Falo de prémios tais como: Subida a uma categoria superior com ajudas (Pode-se encaixar aqui qualquer tipo de ajuda: Económico, chassi, motor, etc) durante 1 ano e, ter uma meta para não “descer”. Isto fazia com que houvesse mais trabalho das equipas de categorias inferiores em preparar ainda mais os jovens para a categoria principal. Iria haver mais trabalho de preparação nos escalões inferiores, era ótimo para a competitividade das equipas e iria trazer muitas equipas para esta modalidade.

    Eu sei que foi tudo muito vago mas acredito que, com tudo bem pensado, iria ajudar imenso os pilotos e a competição.
    Peço desculpa pelo tamanhão do texto mas quando o assunto é Formula1 nao há limites ahah

    Um abraço de Portugal 😉

    • Lucas Santochi

      Fala, @disqus_oklFwA3Y6r:disqus, que bom que você gostou da matéria. Sobre os temas que você levantou: sim, o novo modelo de pontuação da superlicença tem exatamente este objetivo de obrigar os pilotos a passarem por mais categorias antes de chegarem à F1. O segundo item, a questão seria mais se essas equipes gostariam de subir para a F1. A diferença de orçamento necessário é astronômica. Então, mesmo com alguma ajuda, não sei se elas topariam a empreitada.
      Fique sempre à vontade de comentar nossas matérias e dividir conosco e com nossa Comunidade Projeto Motor suas ideias. Abração!