Quanto os carros de F1 ficaram mais rápidos em 2017? Fizemos as contas

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Quando o atual regulamento técnico da Fórmula 1 foi apresentado, em maio do ano passado, um prognóstico foi colocado à mesa: os carros de F1 ficariam tão mais rápidos e difíceis de pilotar a partir deste ano que a diferença poderia, em muitos momentos, chegar à casa de cinco segundos. Pois então: a temporada 2017 teve um ponto final colocado no GP de Abu Dhabi e, sendo assim, já é possível fazer os cálculos para descobrir se a promessa foi ou não cumprida.

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Este artigo não terá o propósito de analisar outros aspectos dos novos bólidos, como a questão estética, da dirigibilidade ou da influência das modificações na dinâmica das corridas. Deixaremos esta avaliação mais “holística” para nossa próxima edição do Debate Motor. Nosso objetivo neste momento será, pura e simplesmente, saber o quanto a categoria evoluiu em termos de tempos de volta. E aqui vai um pequeno balde de água fria: o objetivo não foi cumprido, embora os monopostos tenham se tornado substancialmente mais céleres.

Para chegar a esta conclusão fizemos uma análise em duas frentes. A primeira compara as diferenças de registro obtido pelo primeiro colocado em 19 dos 20 sessões classificatórias realizadas no ano. Ficou de fora somente o do GP da Itália, pois foi disputado sob pista molhada (o que provocaria uma óbvia distorção estatística). Confira o resultado no gráfico abaixo:

Conforme podemos observar, em apenas seis etapas do ano os competidores que constaram no posto de honra da grelha conseguiram virar mais de 3s abaixo daquilo que fora alcançado no ano anterior: Xangai, Red Bull Ring, Hungaroring, Spa-Francorchamps, Marina Bay e Suzuka. Em 12, portanto o grosso da lista, a distância ficou entre 1 e 3 segundos: Melbourne, Sóchi, Montmeló, Monte Carlo, Montréal, Baku, Silverstone, Sepang, Austin, Hermanos Rodríguez, Interlagos e Yas Marina. Em somente um, Sakhir, o pole de 2017 rodou menos de um segundo mais rápido que o de 2016, e em nenhuma oportunidade a diferença chegou aos tais 5 segundos.

A média foi de 2s558, portanto quase exatamente na metade do caminho.

Agora observemos outro gráfico, que leva em conta as voltas mais rápidas aplicadas também em 19 das 20 rodadas do campeonato (o GP do Brasil foi excluído porque a edição de 2016 ocorreu sob chuva, o que geraria novo efeito distorcivo):

Nesta amostra encontramos situações um pouco mais díspares. No GP da Bélgica, por exemplo, o 1min46s577 anotado em 2017 por Sebastian Vettel superou em 5s006 o 1min51s583 feito por Lewis Hamilton em 2016, tendo sido o único elemento de toda esta análise a superar a tão comentada casa de 5 segundos. Além dela, a etapa que mais se aproximou da meta foi a da Inglaterra, cujo cronômetro deste ano auferiu vantagem de 4s927 no giro mais veloz ante a edição antecessora.

De resto, tivemos China, Espanha, Mônaco, Azerbaijão e Abu Dhabi com diferenças acima de 3 segundos; Austrália, Bahrein, Rússia, Hungria, Itália, Singapura, Malásia, Japão, EUA e México entre 1s001 e 3 segundos; Canadá e Áustria constando na casa de 0 a 1 segundo, sendo que em Zeltweg o registro ficou curiosamente cravado em 1s000. Média de 2s688, levemente superior à dos classificatórios.

O que esses números indicam? Primeiro, que a categoria superestimou em demasia os ganhos aerodinâmicos e, principalmente, de aderência mecânica dos novos carros. Ao mesmo tempo, subestimou um bocado os efeitos das novas restrições de uso do motor (a FIA reduziu de cinco para quatro o número de propulsores liberados por carro para cada campanha, o que significou sacrifício ainda maior de desempenho em prol da confiabilidade) e a perda natural de velocidade em reta por conta dos aumentos de peso (702 para 728 kg), largura e carga aerodinâmica dos monopostos.

Além disso, as escuderias passaram as primeiras rodadas do certame ainda tentando compreender qual o limite de seus novos equipamentos, o que explica o fato de o gráfico apontar um crescimento consistente das diferenças a partir do GP do Azerbaijão. Ainda assim, percebe-se que, em se tratando de tomadas de tempo, a F1 de 2017 obteve seus melhores ganhos em traçados dotados de curvas de raio mais longo. Ou seja: a aerodinâmica está influindo mais do que a aderência mecânica, muito por conta da abordagem extremamente conservadora da Pirelli.

Em se tratando dos trens de corrida, os compostos mais duráveis da fornecedora italiana geraram efeito ligeiramente contrário: permitiram que os ases adotassem ritmo um pouco mais consistente e forte ao longo dos páreos, embora ainda longe dos tais 5 segundos. Todavia, a categoria quebrou o recorde de 12 circuitos em situação de corrida (Rússia, Mônaco, Azerbaijão, Áustria, Grã-Bretanha, Bélgica, Singapura, Malásia, EUA, México, Brasil e Abu Dhabi), sendo quatro marcas remanescentes desde a era dos V10 (Monte Carlo, Red Bull Ring, Sepang e Interlagos). Obviamente que estamos levando em conta apenas traçados equivalentes.

Daquela época restam ainda Albert Park, Xangai, Sakhir, Montréal, Hungaroring, Monza e Suzuka. Já em relação aos tempos de V8 só não caiu ainda a marca de Kimi Raikkonen em Barcelona-2008. Para a próxima estação a Pirelli promete deixar de lado a postura temerária e entregar produtos mais agressivos, o que deve facilitar as coisas. Alie isso à evolução natural dos carros e, então, poderemos ter uma melhora ainda mais significativa. Entrementes, o banimento das “barbatanas” de tubarão e o regulamento de motores ainda mais restritivo (somente três unidades motrizes por participante) servirão como novos fatores de “poda”. A ver quanto da F1 do passado seguirá resistindo.

Recordes quebrados (em corrida)
Sóchi: 1min36s844 (Kimi Raikkonen)
Monte Carlo: 1min14s820 (Sergio Pérez)
Baku: 1min43s441 (Sebastian Vettel)
Red Bull Ring: 1min07s411 (Lewis Hamilton)
Silverstone: 1min30s621 (Lewis Hamilton)
Spa-Francorchamps: 1min46s577 (Sebastian Vettel)
Marina Bay: 1min45s008 (Lewis Hamilton)
Sepang: 1min34s080 (Sebastian Vettel)
Austin: 1min37s066 (Sebastian Vettel)
Hermanos Rodríguez: 1min18s785 (Sebastian Vettel)
Interlagos: 1min11s044 (Max Verstappen)
Yas Marina: 1min40s650 (Valtteri Bottas)

Recordes remanescentes (em corrida)
Albert Park:
1min24s124 (Michael Schumacher/2004)
Xangai:
1min32s238 (Michael Schumacher/2004)
Sakhir:
1min31s447 (Pedro de la Rosa/2005)
Barcelona:
1min21s670 (Kimi Raikkonen/2008)
Montréal:
1min13s622 (Rubens Barrichello/2004)
Hungaroring:
1min19s071 (Michael Schumacher/2004)
Monza:
1min21s076 (Rubens Barrichello/2004)
Suzuka:
1min31s540 (Kimi Raikkonen/2005)

DMOTOR #102 – Qual o caminho para um brasileiro chegar à F1?

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • [K.O.N] Gabala

    É possível que os chinelões de 2018 andem até quantos segundos mais rápidos (em média)?

  • Slag, o desnecessauron

    Modesto, um carro pica x uma Life 1990

    Os dois a 80 tu acha que um vai ficar do lado do outro?

  • Luigi G. Peceguini

    Eu acho ridículo banirem as barbatanas porque acham feio (foi esse o motivo dado) e aprovarem aquela desgraça de halo. Ano que vem teremos os carros-chinelo.