Rádio vira meio de comunicação dos pilotos com comissários e público da F1

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O público que acompanha a F1 já está acostumado de ter há alguns anos o áudio do rádio dos pilotos durante as corridas. E isso se tornou uma ferramenta interessante nas transmissões por um bom tempo.

Só que pilotos e equipes também começaram a se aproveitar disso. A direção de prova da F1, liderada por Charlie Whitting, passou no início da década a monitorar os rádios para identificar possíveis ordens de equipe não compatíveis com o regulamento da época.

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Muita coisa passou, regras deste jogo foram afrouxadas, mas o monitoramento só aumentou. E, se antes eram os vigiados, aos poucos, pilotos e equipes passaram a usar esta situação para fazerem denúncias.

Hoje, o público pode acompanhar a maior parte das mensagens não só pela televisão, mas também pelo aplicativo oficial da F1. E, claro, os comissários têm acesso a todas. Assim, passou-se a ouvir coisas do tipo “ele me fechou”, “o que este cara está fazendo?”, “ele cortou a chicane” e por aí vai. Não que não existisse antes, mas virou um rotina enfadonha.

Podemos pegar algumas conversas recentes que são prova disso. No GP do Azerbaijão, ao tomar consciência, via informação de seu engenheiro, da punição a Sebastian Vettel por ter jogado o carro nele, Lewis Hamilton não só mostrou não ter ficado satisfeito com a medida, como manda um recado direto ao diretor de provas da FIA:

– Uma punição de 10 segundos não é o suficiente para um comportamento de pilotagem como aquele. Você sabe disso Charlie!

Os pilotos sabem que são ouvidos. Por isso, passaram a usar cada vez mais o rádio para denunciar seus concorrentes e reclamar aos comissários sobre lances da corrida. E quando não o fazem, são orientados a tal. Leia esse diálogo entre Esteban Ocon e a Force India, após um toque com Carlos Sainz no GP da Malásia:

– Sainz bateu em você?
– Com certeza. Com certeza ele bateu em mim.
– Então, nos avise.
– Não foi claro o bastante?
– Sim, você precisa dizer no rádio e nos avisar. Certo?

No GP da Itália, foi Alonso que pressionou. Primeiro por uma ordem para que Palmer lhe devolvesse a posição por ter cortado uma das chicanes do circuito de Monza, e depois para mostrar sua indignação com a punição, em sua visão, branda.

Volta 15, logo após o lance:
– Ele cortou a chicane. O que Palmer está fazendo? Ele tem que me devolver a posição.

Volta 20, ao ser informado pela McLaren da penalidade:
– Palmer recebeu punição de cinco segundos.
– Cinco segundos é uma piada. Uma piada! (aos berros)

O problema é que as mensagens passaram a ficar cada vez mais públicas. Mesmo após as provas, elas são comentadas por jornalistas e espectadores nas redes sociais. E, de olho nisso, os competidores também passaram a usar o artifício para tentar manipular a opinião pública sobre alguns lances.

Vettel, que cada vez mais se torna um dos protagonistas dos rádios da F1, fez isso durante a corrida em Sepang, quando perdeu tempo atrás do retardatário Alonso.

– Hey, mas que…  Poxa, Alonso. Sério? Achava que você era melhor que isso…

Perceba que mais do que uma reclamação à direção de prova, existe embutida uma mensagem para deixar Alonso mal visto pelos fãs.

O espanhol, por sinal, é o rei das mensagens com um alvo mais público. Especialmente em seus frustrantes anos de McLaren, ele não poupou oportunidades de mostrar aos seguidores que não tem o carro – mais especificamente o motor – que precisa para poder brigar por vitórias e títulos.

Como não esquecer a mensagem durante o GP do Japão de 2015 em que após ser ultrapassado facilmente na reta de Suzuka, ele chama o propulsor da Honda de “motor de GP2, motor de GP2”.

Em uma corrida mais recente, no GP da Bélgica de 2017, o bicampeão, sem oportunidade de brigar com seus concorrentes, mostrou seu descontentamento pelo fato de a Honda estar testando novos componentes em seu equipamento sem melhoras. Ao receber informações de seu engenheiro sobre o posicionamento dos carros que o atacavam, ele retrucou:

– Magnussen está 1s4 atrás de Grosjean
– Eu realmente não ligo muito para as diferenças. Isso é apenas um teste.

Em alguns momentos, cansa ouvir tantas reclamações, acusações e chororô por parte de pilotos profissionais durante as corridas. Na transmissão da Globo do GP da Malásia, Luciano Burti, que normalmente é quem traduz as mensagens, chegou a dizer que em sua época de piloto “não existia tanta troca de mensagens no rádio como hoje”.

Claro que é bacana ouvir os pilotos. E, muitas vezes, realmente ajuda no entendimento das corridas quando existe uma troca de informações, seja sobre o carro ou até da prova. Outras mensagens,, convenhamos, valem porque são simplesmente engraçadas. Kimi Raikkonen é certamente o melhor neste quesito.

Em 2017, já foram pelo menos duas situações: na Rússia, quando ele se mostrou meio perdido na corrida ao questionar o motivo de Bottas, que liderava a corrida desde o começo, estava à sua frente, e no Azerbaijão, quando ele desesperadamente pedia o volante ao seu mecânico. A FOM até mesmo já produziu um vídeo com o melhor do finlandês.

Sendo assim, fica claro que o artifício de tornar o rádio público é ótimo para o show, porém, precisa ser usado com um pouco mais de moderação. O risco é tornar os pilotos, aos olhos das pessoas que estão ao lado de fora, verdadeiros chorões é grande. E esta é a última imagem que a F1 precisa para seus ases.

 

Projeto Motor Entrevista #9: Sérgio Sette Câmara, brasileiro da F2:

 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.