Reflexão sobre F1, erro na Indy e vida nas pistas: Barrichello sem filtros

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Um dos mais importantes nomes do automobilismo brasileiro da era moderna, Rubens Barrichello acumulou experiência como poucos nas pistas mundo afora. Piloto com mais largadas na F1, duas vezes vice-campeão mundial e com passagens por Indy, Stock Car, e, mais recentemente, 24 Horas de Le Mans, o veterano viveu em primeira pessoa capítulos que marcaram história.

Muitas pessoas podem ter opiniões distintas sobre a persona de Rubinho, mas uma coisa é possível atestar sem dificuldades: suas entrevistas são sempre férteis, com respostas articuladas e bem elaboradas.

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No entanto, por se tratar de um dos protagonistas de sua era, nem sempre era viável entrar em temas mais profundos com Barrichello. Este que vos escreve já pôde cobrir corridas do piloto em categorias distintas, mas dificilmente havia a chance de conversas mais longas. Seja na F1, um ambiente essencialmente fechado, ou com o assédio na Stock Car e etapa da Indy no Brasil, Rubinho acabava por se tornar uma figura inacessível devido às circunstâncias.

Barrichello atende jornalistas em Le Mans - e o Projeto Motor estava lá! (Team Nederland)
Barrichello atende jornalistas em Le Mans – e o Projeto Motor estava lá! (Team Nederland)

Não foi o caso em Le Mans. Curtindo o fato de ser um estreante aos 45 anos de idade, Barrichello estava relaxado e sem pressão, apenas respondendo a um chamado de um velho amigo, Jan Lammers, também ex-F1 e um de seus parceiros de equipe na prova. Por isso, pôde conversar de forma longa com um pequeno grupo de jornalistas – do Brasil, estava somente o Projeto Motor.

Durante quase uma hora de conversa, Barrichello entrou nos mais diversos assuntos. Falou sobre a traumática saída da F1, a incômoda tendência de pilotos pagantes, admitiu ter cometido um erro durante as negociações para ir à Indy, detalhou a vida no Brasil, a relação com os filhos e a vontade de explorar o automobilismo dos Estados Unidos. Sim, exatamente: mesmo com tamanha bagagem, Barrichello não esconde que a chama pela competição segue mais acesa do que nunca.

Confira abaixo os principais tópicos da conversa com Rubens Barrichello durante a cobertura das 24 Horas de Le Mans do Projeto Motor!

A recuperação da Ferrari na temporada de 2017 da F1

É como se eles tivessem juntado tudo e voltado alguns anos para entender o que os fazia rápidos quando estávamos lá. O que nos fazia rápido era a tradução do túnel de vento para a pista. E agora há ainda menos testes. Eles eram muito bons quando diziam: “OK, agora vamos ter um pouco mais de velocidade na entrada da curva.” Era incrível! Como eles sabiam disso tão bem? O carro fazia exatamente o que eles diziam.

Não fiquei lá na equipe para entender, mas, vendo de fora, as pessoas falam tantas coisas que não sei dizer ao certo. Não sei se são as pessoas certas ou não, mas, na Brawn, que é basicamente a Mercedes agora, é a mesma coisa. Eles sabem o que é possível alcançar.

A saída inesperada da F1 (e a tendência de pilotos pagantes)

Barrichello fez sua última corrida na F1 no Brasil, mas não sabia
Barrichello fez sua última corrida na F1 no Brasil, mas não sabia

Foi difícil de me ajustar, porque eu não estava esperando, para ser sincero. E é a história da F1 hoje em dia. Há pilotos lá que estão usando seus pacotes de dinheiro para entrar. É um pouco menos romântico, na minha opinião. Quando perdi meu lugar, foi por isso. Nos primeiros dias foi difícil, mas acabei assinando com a Indy. Foi uma boa decisão.

No fim das contas, podemos falar qualquer coisa sobre Bernie [Ecclestone], mas o fato é que ele ama estar lá. Ele simplesmente ama. Então, é difícil cortar a corda, de certa forma. Eu lembro, no fim da minha carreira, quando as pessoas diziam: “Vá para casa! Você já fez muito!” Por quê? Eu amo estar aqui, amo guiar um carro de F1.

Mas, tirando isso, não fiquei triste por nada. A vida está aí para aprender. Para mim, no melhor momento que tive na F1, demorei para assinar, de 2008 para 2009. Eu fiquei desempregado por quatro meses e, então, recebi a ligação. A vida é um renascimento todos os dias. Você precisa estar aberto e certo de que as coisas podem ir ao seu favor. Você olha hoje em dia as pessoas chegando com dinheiro, mas duram um ou dois anos. Poder ter ficado por 19 anos ainda me impressiona. Me diverti ao extremo sendo um piloto de F1.

Erro nas negociações para a mudança para a Indy

Eu deveria ter esperado mais uns 10 dias para conversar realmente com todas as equipes da Indy. Recebi a primeira oferta [da equipe KV]e disse “OK, vou correr”. Mas foi como se a sua namorada te dispensasse e você ficasse com a primeira que te dissesse “sim”. Foi mais ou menos assim.

É a única coisa que eu deveria ter feito diferente, porque o meu carro demorou muito tempo para ser competitivo. A equipe não estava acertada para ter um terceiro carro. Eu estava lá e eles pegavam um mecânico, um engenheiro… Demorou um tempo para acertar. No fim, eu estava indo bem nos mistos e nos ovais.

Adaptação à Indy

Barrichello competiu a temporada de 2012 da Indy pela equipe KV
Barrichello competiu a temporada de 2012 da Indy pela equipe KV

Aquilo era um grande evento, então tive que aprender tudo. Foi engraçado, porque na F1 eles te protegem muito. Na Indy, você tem horas e horas de autógrafos com os fãs, então é tudo mais aberto. Foi diferente, mas você aprende a todo momento. Precisei me ajustar com algumas coisas, sim. Mas passei muito tempo aprendendo como o se comportava nos ovais. Terminei em décimo nas 500 Milhas de Indianápolis [N. do E.: ele foi 11º], foi uma boa experiência.

Por que não permaneceu por um segundo ano na Indy

Eu tentei! Eu tentei. Eu coloquei meu orgulho no bolso na época, com certeza, porque eu precisava arrumar dinheiro para pagar. As pessoas me diziam: “Você é louco? Você correu na F1 por tanto tempo, e, agora, vai ter que pagar para correr?” Eu não ia pagar. Eu não receberia nenhum salário, mas poderia estar em uma equipe mais competitiva. Mas, no fim das contas, tive a oferta para correr na Stock Car. Recusei a primeira vez, porque ainda queria tentar a Indy. Na segunda vez, foi a mesma coisa: recusei. Na terceira vez…

Foi que nem aquela piada do padre que está em uma cidade inundada, e ele está no topo da igreja. Dois barcos passam, oferecem resgate, e ele fala: “Não, Deus vai me ajudar.” Ele também recusa o terceiro barco. E aí então ele morre afogado, e, quando chega no céu, diz: “Mas Deus, eu era devoto do Senhor! Por que o Senhor não me salvou?” Aí Deus responde: “Mas eu te mandei três barcos e você recusou!”

Para mim, foi a mesma situação. OK, eu tentei a Indy, mas a Stock me queria. E eu queria fazer a Stock em algum momento, porque era meu sonho de criança para quando eu voltasse da Europa. Então tive de ceder, e acabei me apaixonando pelo carro, pelas corridas e pela multidão que temos nas pistas.

Como considera seu atual momento nas pistas

Estou feliz na Stock Car agora. As pessoas da Europa me perguntam o que eu ando fazendo da vida, mas eles não podem imaginar o quão competitiva é a Stock. Deve estar no mesmo nível da V8 Supercars na Austrália no que diz respeito a competitividade. Estou me divertindo muito. Estou com 45 anos, mas não é grande coisa. Me sinto como se tivesse 20.

Barrichello Kart

Estou ficando quieto no Brasil. Fui convidado a fazer algumas coisas, mas tenho ficado quieto, aproveitando meu tempo na Stock e com a família. Estou correndo de kart feito um louco, mais do que fazia quando estava na F1 – na verdade, eu não fazia nada quando estava na F1. Meus filhos começaram a correr e eu ficava tão emocionado…

Um dia, meu filho chegou para mim e disse: “Pai, você falou tanto que não consegui entender muita coisa.” Isso significava que eu estava falando demais, então precisei arrumar outra coisa para fazer para parar de falar tanto. Voltei a correr de kart, me classifiquei para o campeonato mundial e terminei em quarto, em Portugal, há dois anos.

Tenho estado ocupado, sem muita chance de ficar olhando para outros lugares. Mas fui convidado para Le Mans, para correr [os 1000 km de]Suzuka – isso, por mais que me interesse, coincide com outro compromisso. As pessoas ainda têm o meu telefone, então, se quiserem falar comigo, estou disponível.

Possibilidade de experimentar algo diferente em um futuro próximo

Correr em Daytona é uma ótima experiência, eu realmente gostei de correr lá [N. do E.: Barrichello disputou as 24 Horas de Daytona por três vezes, entre 2013 e 2016]. Eu gosto das corridas dos Estados Unidos. O campeonato do IMSA é muito bacana. Eu ficaria interessado em dar uma olhada lá. Minha família está um pouco mais voltada aos Estados Unidos, então eu ficaria interessado em dar uma olhada lá.

Venho correndo contra alguns pilotos no shifter e indo bem, e, quando você os vê chegando à GP3, GP2, F3… Eu poderia começar tudo de novo! Mas estou feliz. Estou sinceramente feliz com as coisas como estão na minha vida. Sinceramente, nunca pensei que chegaria aos 45 anos tão competitivo. E acho que isso acontece porque eu realmente gosto do que faço.

A vontade de andar novamente em um carro de monoposto

(Facebook/Acelerados)
Barrichello acelerou recentemente um F3 (Facebook/Acelerados)

Acho que o turismo é o caminho a seguir. Durante a Indy 500, quando Alonso estava andando bem, fiquei provocando a minha esposa. “Talvez com um carro competitivo eu possa ir bem…” Aí “bum”: Dixon bateu tão forte que ela olhou para mim e parecia que ia me bater! Eu disse “OK, Stock Car. Nada de oval”.

Eu tenho o programa “Acelerados”, tanto no YouTube quanto na TV. Eu testo vários carros, um monte de carros. Às vezes, as pessoas chegam a mim e dizem: “Olha, eu tenho um Fusca 69. No topo da lista tem um Porsche 918, mas quero ver quanto ele vira.” E, há algumas semanas, pude testar um F3 de novo. Aquilo foi fantástico! Eu disse “meu lugar é aqui”, porque ainda é o que eu faço. Estou aberto a qualquer situação, mas estou muito feliz no turismo, na Stock Car.

Diferenças de trabalho nos carros de F1 e turismo

Um F1 requer muitos ajustes. Eu ainda tenho uma boa sensação de todos os carros. Mesmo se for um carro limitado com um Stock Car, que pode mexer em pouca coisa, é possível fazer a diferença. Desde que você tenha uma hora para guiar, você aprende tudo rapidamente.

Relação com o automobilismo e a família

Barrichello filhos

Minha esposa sabe que eu vou correr para sempre, e ela fica feliz por mim, porque, assim, eu não envelheço. Eu adoro fazer isso. Vou à academia como sempre fiz, levo os garotos à pista porque eles vão correr… Se eu desejo que meus filhos virem pilotos de F1? Eu quero que eles se tornem boas pessoas. Eu quero que eles sejam corretos, que busquem aquilo de que eles precisam.

Eu tenho dois garotos muito educados, mas eles são muito diferentes. Um é tímido: ele é rápido, mas pode perder uma posição ou duas na largada. O outro é inacreditável: ele pode largar em décimo e pular para a ponta na primeira volta, batendo em todo mundo. Eu os ensino da mesma forma e quero que eles aprendam cada um de seu jeito. Não será fácil para mim, mas quero que eles tenham esse sentimento de positividade e sigam em frente.

No meu aniversário, meu filho mais velho me disse: “Pai, é incrível como eu te amo, etc, mas me deixa bravo ver como você é rápido com 45 anos.” Ele já está chegando a um ponto no kart que estou quase ficando mais lento que ele. E isso me deixa irritado, mas a vida é assim.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Virgil Luisenbarn

    Baita piloto, pouco errava na f1

  • Sputnik

    Uma pena não ter o valor merecido no próprio país. Ainda sim,um dos melhores pilotes que já produzimos, Grande pessoa e piloto!

  • Gilmar Rosa

    Obrigado pela entrevista!

  • Hugo Oliveira

    Rubinho, mito! #GoBarrica

  • Mark Smith

    Obrigado pela matéria! Foi ótimo!

    Abs

  • Giancarlo Conti

    O cara é um exemplo de profissionalismo, dedicação e talento! Dá gosto saber que, mesmo depois de tantas glórias, ainda sente um profundo prazer naquilo que faz!

  • Muito legal! Seria bacana se Barrichello disputasse a F3 Brasil, ajudando a categoria a se levantar, recuperando a tradição de os monopostos locais (aqui do continente) atraírem os pilotos experientes ao invés de se rebaixarem à condição de “escola”…

  • VolksLove

    Um dos pilotos que eu mais respeito e tenho admiração, pena que o povo brasileiro só torce e reconhece quem ganha…