Religião nas pistas #1: a invasão da obscura cientologia a Le Mans e Indy

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Bancada evangélica, primavera árabe, Estado Islâmico… Diversos fenômenos recentes têm suscitado sobre a humanidade – ou pelo menos parte dela – até que ponto as religiões podem/devem interferir em nossa cultura política, social e antropológica. Até que ponto é saudável misturar crenças metafísicas a assuntos tão relevantes de nossa existência como indivíduos e sociedade?

Pois acredite: certas religiões (ou seriam seitas?), algumas bastante bizarras, já tentaram invadir até o universo do automobilismo. Para contar um pouco dessas histórias o Projeto Motor criou a série “Religião nas pistas”. Já há pelo menos três partes garantidas e, pode cobrar, vem muita coisa maluca por aí.

Escolhemos para começar um caso que se estendeu entre final da década de 80 e início do decênio seguinte: a invasão da cientologia como patrocinadora de operações automobilísticas na Europa e Estados Unidos. Mas que raios é cientologia, perguntar-me-á o douto leitor? Tentaremos aqui fazer uma brevíssima explicação.

L. Ron Hubbard, o excêntrico escritor de autoajuda que resolveu fundar a cientologia
L. Ron Hubbard, o excêntrico escritor de autoajuda que resolveu fundar a cientologia

No início dos anos 50 o escritor americano de autoajuda L. Ron Hubbard publicou o livro Dianética, que propunha uma espécie de psicoterapia denominada “auditoria” a fim de promover cura espiritual e reorganização da mente. A tal auditoria funcionava praticamente como uma sessão de hipnose: consistia numa longa trama de perguntas e respostas que visava a “extirpar” traumas do passado do praticante.

Uma das expressões mais usadas por Hubbard era a tal “cientologia”, aproveitando o radical latino scientia (gerador do português “ciência”) para designar o “estudo e manejo do espírito em relação a si mesmo, universos e outras formas de vida”. Foi com essa balela filosofia que o escritor fundou, em 1953, sua própria religião, que passou a propagar com veemência (crescente, à medida em que a prática ficava cada vez mais rentável) até o fim de sua vida, em janeiro de 1986. Hubbard chegou a fazer expedições a países da Europa, financiado por simpatizantes de altíssimo poder aquisitivo, para difundir seus “ensinamentos”.

Gente de muita grana e fama ingressou na polêmica religião, proibida em determinados países por ser considerada uma espécie de prática de lavagem cerebral. Os hollywoodianos John Travolta, Kirstie Alley e Tom Cruise são alguns deles. Em 2011 especulou-se que Lewis Hamilton teria sido convertido, numa explicação do por que sua cabeça andava tão virada naquele período. O atual tricampeão britânico jamais confirmou os boatos.

Sempre muito bem financiada e defendida por seus praticantes, a cientologia já foi alvo de muitas polêmicas e até processos judiciais em países como os Estados Unidos. Os motivos são os mais diversos: extorsão (de seus próprios membros, exigidos a doar altas quantias à causa), espionagem e perseguição (contra aqueles considerados inimigos da seita) são algus deles.

Patrocínios do livro Dianética começaram a pipocar em categorias menores dos EUA em meados dos anos 80
Patrocínios do livro Dianética começaram a pipocar em categorias menores dos EUA em meados dos anos 80

Nos anos 80 a seita resolveu investir pesado em novos recrutas. Como Hubbard era um entusiasta do universo dos automóveis, por que não tentar pescar novos fiéis no ambiente do esporte a motor? Foi com essa decisão que a cientologia começou a patrocinar equipes em categorias menores de motociclismo e resistência nos EUA.

Na Europa a opção foi por agraciar o ás francês Philippe de Henning com uma vantajosa parceria que começou em 1987. No primeiro ano de acordo a propaganda do livro Dianética (traduzido para o francês “Dianetique”) apareceu no Spice SE86C-Ford que Henning conduziu, ao lado de Gordon Spice – o dono da escuderia que levava seu sobrenome – e Fermín Vélez, naquela edição das 24 Horas de Le Mans. com as “bênçãos” do recém-falecido Hubbard o trio terminou o páreo como vencedor da classe C2.

Henning seguiria competindo com o apoio dos cientólogos por cinco anos, tendo participado de diversas etapas do Mundial de Protótipos com bólidos que ostentavam pintura âmbar e o nome do livro decalcado em vermelho. Detalhe: a grafia de “Dianética” mudava conforme o circuito. Em Le Mans e Dijon-Prenois, franceses, era “Dianetique”; em Silverstone e Donington Park, bretões, “Dianetics”; em Nürburgring, alemão, “Dianetik”.

Henning levou o patrocínio novamente a Sarthe em 91, mas o ALD C91 do time de Louis Descartes durou só até a 16ª volta de corrida, abandonando por falha de câmbio. Não há muitas informações sobre como exatamente a parceria começou e por que foi encerrada.

"Dianetik" na alemã Nürburgring; "Dianetique" na francesa Le Mans; "Dianetics" na inglesa Donington: as diferentes grafias para oferecer um mesmo livro em diferentes países
“Dianetik” na alemã Nürburgring; “Dianetique” na francesa Le Mans; “Dianetics” na inglesa Donington: as diferentes grafias para oferecer um mesmo livro em diferentes países

 

Felizmente o envolvimento da cientologia com o automobilismo americano está mais bem documentado. Um dos casos mais emblemáticos é o de Roberto Guerrero nas 500 Milhas de Indianápolis de 1988. À época o colombiano competia pela Granatelli, a bordo de um Lola T88/00 equipado com motor Cosworth DFX. Vince Granatelli, dono da operação, pegou o patrocínio curiosamente num refugo da Penske: Roger, atendendo a um pedido de sua esposa, recusou a oferta.

Amigo pessoal de John Travolta, Vince aproveitou o contato para selar um contrato de absurdos US$ 500 mil por corrida para estampar o decalque Dianetics no #2 de Guerrero em Long Beach, Brickyard e Milwaukee. Para se ter uma ideia, essa quantia, hoje, chegaria a US$ 1 milhão atualizados pela inflação. “Eu estava tirando dinheiro do próprio bolso para competir, então resolvi aceitar”, justificou Granatelli em recente entrevista ao jornalista Marshall Pruett, um dos maiores especialistas em automobilismo americano.

Para o proprietário da escuderia, receber dinheiro de uma seita seria tão natural quanto ser apoiado por qualquer outra empresa. Ledo engano. Quando Guerrero sofreu coincidentes batidas nas curvas 2 tanto de Indianápolis quanto de Milwaukee, indo parar no hospital após a segunda colisão, os religiosos resolveram entrar em ação: queriam fazer com que o colombiano passasse pela tal auditoria. “Eles colocaram na cabeça que Roberto tinha algum bloqueio psicológico em relação à curva 2 dos autódromos”, rememorou Granatelli.

Guerrero posa com o Lola-Cosworth #2 da Granatelli em Indianápolis, já ostentando a propaganda do livro Dianética
Guerrero posa com o Lola-Cosworth #2 da Granatelli em Indianápolis, já ostentando a propaganda do livro Dianética

A tentativa de converter o piloto chegou ao ponto de Travolta, pessoalmente, levá-lo para jantar a fim de convencê-lo. O sul-americano acabou cedendo à persuasão, mas não passou da primeira experiência. “Foi a coisa mais estranha do mundo. Depois de uma sessão eu pensei: ‘Para mim está de bom tamanho'”, comentou o volante.

Parceria acabou após três etapas: acidente de Guerrero em Milwaukee gerou intromissão excessiva dos cientólogos na operação
Parceria acabou após três etapas: acidente de Guerrero em Milwaukee gerou intromissão excessiva dos cientólogos na operação

Irritado com a excessiva intromissão dos patrocinadores, Granatelli encerrou o contrato imediatamente, mesmo recebendo tentadora contra-proposta de aumentar a cota para US$ 750 mil a cada páreo. “Acho ok tentar vender seu produto, mas essas pessoas são agressivas e fizeram as coisas de um jeito com o qual não concordei”, argumentou.

No fim de 88, outra situação constrangedora: no Desafio Mundial de Protótipos, prova extra-campeonatos que colocou em confronto bólidos de Grupo C (Europa) e IMSA (EUA), o Porsche 962 da escuderia alemã Kremer surgiu com o decalque do malfadado livro. O problema é que os condutores seriam Mario e Michael Andretti, e o progenitor simplesmente não aceitou sentar num bólido patrocinado pela cientologia. “Se fizesse aquilo, seria excomungado pelo Papa”, exagerou o campeão de 78 da F1.

Por exigência de Mario Andretti, equipe Kremer trocou livery da Dianetics pelo da gráfica Bridge na disputa do Desafio Mundial de Protótipos
Por exigência de Mario Andretti, equipe Kremer trocou livery da Dianetics pelo da gráfica Bridge na disputa do Desafio Mundial de Protótipos

A solução: trocar os adesivos pelos da gráfica Bridge. O que essa companhia tem a ver com o imbróglio todo? Foi ela que imprimiu milhares e milhares de exemplares do Dianética nos anos recentes. O curioso é que os Andretti não sabiam disso, e por isso aprovaram o novo livery. Terminaram o embate no sexto posto.

Pensa que acabou? Quase. Em 2006 começou a circular um rumor de que a cientologia iria investir numa equipe própria para divisões regionais da Nascar. O nome seria “Dyanetics Racing Team” e o slogan, “Ignite Your Potential” (“dê ignição a seu potencial”, numa tradução livre do inglês). Felizmente a ideia não foi para frente.

Scientia… Algo absolutamente necessário para se fazer carros competirem uns contra os outros no mais alto nível. Mas estamos falando de ciência verdadeira. Um circuito de corridas não é lugar para a auditoria da ciência dos tolos.

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 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.