Revelação de Alan Jones prova: F1 sempre lidou com política do jeito errado

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Alan Jones publicou recentemente uma autobiografia que, claro, está repleta de várias histórias interessantes que todo piloto de alto nível deve ter. Só que um trecho em especial que chamou a atenção de muita gente que já teve acesso ao livro e a notícia está correndo o mundo.

O campeão de 1980 revelou que Bernie Ecclestone o subornou para ele não participar do GP da África do Sul de 1985. Até hoje, acreditava-se que o piloto não tinha participado da prova, após até treinar e andar na classificação, por um problema de saúde. A história é muito louca e só mostra como a administração do inglês e da F1 no geral sempre teve sérios problemas quando tinha que olhar para o que acontece fora de seu paddock.

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É preciso contextualizar a questão. A F1 já corria há alguns anos em Kyalami e era um dos poucos esportes que ignorava o regime sul-africano do apartheid. Só que naquela temporada, a pressão internacional para que a categoria não realizasse sua prova no país passou a ser enorme.

Encorajadas pelo governo francês, Renault e Ligier não foram para a corrida. Existiram muitos pedidos para que outras equipes e pilotos também boicotassem o evento. Alguns times chegaram a questionar a FIA se o cancelamento da etapa não era o melhor caminho, mas tudo continuou em frente.

Alan Jones, no GP de Mônaco de 1986, pelo Team Haas
Alan Jones, no GP de Mônaco de 1986, pelo Team Haas

A equipe americana Haas – que não tem ligação nenhuma com a atual Haas e cuja história já contamos aqui no Projeto Motor – estava em outra encruzilhada. A escuderia era bancada pelo Grupo Beatrice, enorme corporação do ramo de alimentos, entre outros. A empresa tinha na época fábricas na África do Sul e certa presença comercial.

Só que ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, ativistas civis antirracismo estavam aumentando a pressão sobre o governo local e outras instituições em relação à situação sul-africana. Jesse Jackson, famoso líder sobre a questão, estava ameaçando publicamente que caso a Haas competisse no GP em Kyalami, ele iria promover uma greve de todos os funcionários negros da companhia ao redor dos Estados Unidos.

A Beatrice ficou em uma sinuca de bico. Ela não queria deixar parecer que estaria recuando publicamente ao ser afrontada por Jackson, mas, ao mesmo tempo, temia um greve em suas fábricas, o que obviamente poderia causar um grande prejuízo.

protesto apartheid

Curiosamente, no dia da corrida, o piloto da equipe, Alan Jones, alegou ter acordado se sentindo mal, não foi ao autódromo e partiu direto do hotel para o aeroporto, onde tomou um avião para a Austrália, seu país natal e que sediaria a corrida seguinte. A história que se conhecia terminava aí. O piloto, no entanto, veio com novidades:

“Durante a sexta-feira, eu fui chamado para ver Bernie Ecclestone em sua cobertura. Eu não sabia o que tinha feito daquela vez. Quando abri a porta, Bernie disse ‘Como você está?’. Uma saudação padrão, apesar de um olhar diferente, que eu respondi, ‘Muito bem, obrigado’.

‘O que você acha de suas chances de vencer a corrida amanhã?’, ele perguntou. De novo, senti que tinha algo nas entrelinhas. ‘Bernie, acho que você sabe a resposta para esta pergunta. Se eu largar agora, provavelmente são boas’. [nota do redator: a Haas era uma equipe iniciante e ainda em desenvolvimento e não tinha chances de vitória]

‘Bem, tenho uma ideia. Se você ficar doente e não puder correr neste final de semana, nós pagaremos o prêmio de primeiro lugar. Vá para casa e visite a Austrália.’

Jones explica que esperou até o sábado de manhã, dia da corrida, e simplesmente não foi para o autódromo. O carro estava pronto para ele. Ele diz que ninguém na equipe ficou sabendo do acordo, para evitar vazamentos, apesar de acreditar que Teddy Mayer e Carl Haas, proprietários do time, tinham conhecimento da manobra.

A ideia toda de Ecclestone era basicamente que a Haas não estava deixando de competir, mas estava enfrentando um problema de força maior, que seria a doença de seu piloto. Assim, a Beatrice não se sentiria derrotada na queda de braço com Jackson, que também não teria motivo para iniciar a greve. E a estratégia deu certo.

Além de uma história muito curiosa, a revelação de Jones só mostra o quão simplista era a visão do mundo de Ecclestone e da F1 no geral. Correr na África do Sul, claramente, já tinha se transformado em um problema, independente de se querer ignorar a questão política. O inglês, no entanto, deu o famoso jeitinho, que o brasileiro adora dizer que só ele tem, para contornar a situação, da forma mais nefasta possível. Assim, ele achava que manteria um investidor gigantesco, a Beatrice, na categoria, e também não causaria problemas para os organizadores sul-africanos.

Fica fácil entender como a categoria passou por cima dos problemas que aconteceram recentemente no Bahrein, sem o menor pudor, mesmo com toda a comunidade internacional, inclusive parlamentares do Reino Unido, pedindo para que o Grande Prêmio não acontecesse.

Resta agora a esperança de que a nova administração mude um pouco esta forma de se ver as coisas, com uma visão além dos muros do paddock. Destaco do paddock porque nem para as arquibancadas a F1 nunca ligou muito. Infelizmente, esse autor não tem muita esperança ou convicção de que isso possa acontecer, visto que o objetivo principal deve continuar seguindo os conceitos mais radicais do capitalismo de lucro a qualquer preço, mesmo que este esteja do outro lado de uma questão muito maior que um campeonato de carros de corridas e que pode até definir o rumo da vida de milhões de pessoas.

 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Dox

    Jones recebeu dinheiro para fazer algo que muitos fariam com o maior prazer, e sem levar nenhum troco.
    Espero que o Jones tenha concluído de forma parecida e tenha certo arrependimento, pois pegou mal para ele mesmo.

  • Dragon

    Bom, a nova administração já demonstrou que está olhando, pelo menos, para as arquibancadas, mas veremos mesmo, a partir do ano que vem…

  • Timothy Dalthonic 3.0

    Estava tudo ótimo até “seguindo os conceitos mais radicais do capitalismo de lucro a qualquer preço”

    Ah véi, na boa. Curtia pra caramba o site. Mas vai começar a dar uma de comunistinha de faculdade que nem Flávio Gomes? Então fico com o original, que já basta um.

    • E vai deixar de curtir o site por causa de uma frase de um parágrafo de um texto de um autor da equipe?

      • Timothy Dalthonic 3.0

        Como eu disse e repito “Mas vai começar a dar uma de comunistinha de faculdade que nem Flávio Gomes? Então fico com o original, que já basta um.”

        Vamos ver como vai ser daqui pra frente. E já sei que vc vai dizer que o site é dos caras, eles fazem o que quiserem, etc, etc… Realmente. Mas tb é um direito meu não gostar.

        • Na verdade eu não ia dizer isso não. Mas sei lá, o conteúdo do site é muito bom para deixar de ler por causa da posição de um colunista.

          E sim, o Flávio Gomes é um xarope.

        • Dragon

          Deixei de seguir o Flávio Gomes por que aquilo virou política pura…

          Espero que aqui não vire a mesma coisa…

        • Lucas Santochi

          Só para deixar claro, o que eu quis dizer com essa frase é que Ecclestone explorou ao máximo a F1 no sentido capitalista de tirar tudo que pudesse de lucro, sem se importar com o esporte ou fazendo qualquer tipo de reinvestimento. E que agora temos que esperar para ver se o Liberty, que pagou uma nota pela F1 para ganhar dinheiro, vai fazer o mesmo ou não. Os caras já estão conversando com outros países politicamente quase tão problemáticos quanto era a África do Sul, daí saiu minha frase um pouco desesperançosa.

          • Timothy Dalthonic 3.0

            E tem países piores do que China, Rússia, Índia, Azerbaijão, México e Bahrein?

          • Lucas Santochi

            Concordo, por isso falei que o próprio Liberty (e antes do Ecclestone) está conversando com países tão problemáticos quanto a antiga África do Sul. Entendeu a minha primeira afirmação sobre o capitalismo exagerado no texto? Meu problema é com a forma exagerada de lucro a qualquer preço da administração da F1.

          • Dox

            Tem … fica entre o México e o Canadá, com sede numa ilha acima da França.

  • Claudio Antonio Cesario Dasilv

    Épocas e contextos totalmente diferentes , acho que se julga muito se sonha com um mundo cor de rosa e se esquece que a F1 é um jogo que envolve interesses de dimensões gigantescas . O regime de segregação racial existente na Africa não dependia de Bernie ou de qualquer outro empresario para cair e sim de vontade politica de seus dirigentes e só terminou quase uma decada depois.

    • Lucas Santochi

      Claudio, a F1 foi um dos poucos esportes que continuou colocando a África do Sul no seu calendário no decorrer dos anos do apartheid. Isso passa uma ideia de ignorar o problema ou, até pior, de referendar o regime como parceiro. Foi um erro terrível da F1. E, pela história contada por Jones, a maneira como Ecclestone lidou com a situação foi horrível, mostrando seu olhar extremamente simplista sobre a questão, sem perceber o peso da categoria tanto para a imagem do país como para a sua mensagem. Tanto que três décadas depois, a F1 ainda é cobrada por isso tudo. .

      • Claudio Antonio Cesario Dasilv

        Bernie nunca escondeu sua maneira de agir . Ele sempre se guiou pelo caminho aonde pudesse perder menos dinheiro. Hoje mais de 30 anos depois talvez se pensasse no estrago feito a imagem da categoria se ele tivesse feito isso mais , o mundo era outro há 30 anos. Bernie não tem problemas em ser cobrado por isso , ele pouco se importa .O que ele se importa é em não perder dinheiro,e isso ele conseguiu.

        • Lucas Santochi

          O fato do Bernie não se importar não justifica o que foi feito – e o que vem sendo feito com a permanência do GP do Bahrein, por exemplo – e muito menos que devemos sentar e ficar quietos. Existem consequências e elas devem ser sempre lembradas. As pessoas que lideraram o processo e as escolhas da F1 (no caso) devem ser sempre cobradas por isso.

  • André Alves

    Acho que esse tipo de situação deixa bem claro que tipo de pessoa o Bernie Ecclestone é, e o porque a sua saída da F1 é algo importante. Não que não haverá nenhuma sujeira daqui para frente, pois onde há muito dinheiro certamente há gente disposta a fazer qualquer coisa por mais, mas ainda sim, já é um passo no caminho certo. Ou eu que sou besta por ser otimista.