Rixa de Nelsinho e Di Grassi é antiga, e não fez bem para nenhum deles

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A reta final do já popular campeonato inaugural da Fórmula E ganhou recentemente um atrativo a mais, especialmente para os fãs brasileiros. Lucas di Grassi e Nelsinho Piquet, que disputam ponto a ponto as principais posições na tabela de classificação, tornaram pública sua intensa rivalidade e jogaram uma pimenta nas últimas corridas da temporada, que poderão proporcionar a qualquer um deles o primeiro título em um longo tempo em suas carreiras.

Para quem não acompanhou, um breve resumo: no ePrix de Mônaco, os dois se desentenderam após Nelsinho acusar Di Grassi de bloqueá-lo no treino classificatório (mais detalhes no vídeo abaixo). Na corrida seguinte, em Berlim, Di Grassi venceu, mas foi desclassificado por uma irregularidade em seu carro. Com isso, Nelsinho assumiu a ponta do campeonato, à frente de Sébastien Buemi, e Di Grassi, agora em terceiro, soltou em seu Twitter uma mensagem bastante direta:

“Estão tentando fazer com que eu vença este campeonato do jeito mais difícil. Não se preocupe, eu vou voltar e chutar o traseiro de Piquet e Buemi NA PISTA”, esbravejou o piloto da Audi Sport ABT

Muito antes de sequer pensarem em dividir curvas com os carros elétricos, os brasileiros já se esbarraram em corridas de F-Renault, F3 e GP2. Mas foi na porta de entrada da F1 que seus caminhos se cruzaram de uma forma que acabou mudando os rumos de suas carreiras, trazendo consequências infelizes para ambos.

O ano era 2006. Di Grassi fazia parte do programa de desenvolvimento de pilotos da Renault, e, com a iminente ascensão de Heikki Kovalainen à F1, era, em tese, o próximo da fila a ser promovido à categoria máxima do automobilismo. Tudo mudou, no entanto, quando Nelsinho, vice-campeão da GP2, passou à frente e assinou com a equipe francesa para ser piloto de testes em 2007, assumindo a vaga de piloto oficial no ano seguinte.

“É lógico que se eu tivesse entrado com a Renault em 2008, se isso ou se aquilo, eu poderia estar em uma situação diferente. Mas a vida nos leva cada hora para um lado e não dá para otimizar tudo”, refletiu Di Grassi ao Tazio, em maio de 2012

A partir de então, a carreira de Lucas passou por mudanças importantes. Ele permaneceu no competitivo clube de pilotos da Renault, mas suas chances de promoção ao time, sobretudo com Nelsinho por lá, eram mínimas – inclusive sendo preterido por Romain Grosjean dentro do programa. Di Grassi chegou a fazer testes com a Honda ao fim de 2008, mas o time acabaria dias depois em meio à crise financeira global. Para piorar ainda mais sua situação, a equipe Renault foi vendida ao Genii Capital de 2009 para 2010, e confirmou-se que a tão sonhada vaga jamais viria.

Di Grassi só estreou na F1 em 2010, pela estreante Virgin (Divulgação)
Di Grassi só estreou na F1 em 2010, pela também novata Virgin (Divulgação)

Assim, Di Grassi se viu obrigado a permanecer na GP2 por mais tempo do que o originalmente planejado, à espera de uma chance na categoria de cima. Sua chegada à F1 aconteceu somente em 2010, na pequenina e estreante Virgin. Sem condições de mostrar seu potencial, deixou a categoria após uma temporada e nunca mais esteve próximo de outro cockpit por lá.

Mas a posição de Nelsinho ficou mais promissora, certo? Errado. Tudo porque Fernando Alonso brigou feio com a McLaren em 2007 e se voltou à Renault para pedir refúgio para o ano seguinte. Kovalainen, então, assumiu o assento vago pelo espanhol no time prateado, o que deixou Nelsinho, prestes a fazer sua primeira temporada na F1, com a dura missão de dividir a garagem com o bicampeão mundial.

“Foi o timing errado. Peguei o melhor cara no meu primeiro ano, com um carro que não era lá essas coisas. Se eu tivesse corrido com o Kovalainen, estava feito. Para mim, ia ser mole, acho – não ia ser mole, mas [seria mole]em comparação com o Alonso”, analisou Piquet, também ao Tazio, em agosto de 2012

Mais do que ter de lidar com um dos melhores pilotos do grid, Nelsinho também via, segundo suas próprias palavras, o espanhol ser favorecido de tempos em tempos por questões técnicas no carro. Isso, somado à pressão violenta imposta pelo genioso Flavio Briatore, culminou no cenário visto na fatídica corrida de Cingapura de 2008, que acabou por fechar qualquer porta minimamente válida para Nelsinho na F1.

Nelsinho (dir.) passou por apuros ao lado de Alonso (esq.) e Briatore (Divulgação/Renault)
Nelsinho (dir.) passou por apuros ao lado de Alonso (esq.) e Briatore (Divulgação/Renault)

Os trilhos de Piquet e Di Grassi estiveram bastante relacionados, mesmo que de forma não intencional, quando ambos estavam à beira de entrar na F1. O fato de um ter assumido o posto pleiteado pelo outro, por assim dizer, é algo frequentemente visto no automobilismo, mas acabou sendo um capítulo importante na história de rivalidade entre eles – e também na história de cada um em busca do sucesso que não veio na F1.

De qualquer forma, por obra do destino, os caminhos dos compatriotas novamente irão se cruzar nas provas de Moscou e Londres, as últimas da temporada da Fórmula E. Se mais uma vez ambos saírem no prejuízo, quem pode sorrir no fim é o suíço Buemi…

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.