Rosberg não é 1º a sair de modo inesperado da F1. Alguns se arrependeram

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Nico Rosberg pegou o mundo do F1 de guarda baixa ao anunciar, no fim da semana passada, que está deixando a série após conquistar o tão sonhado título de pilotos em 2016. A surpresa foi tamanha que a Mercedes se viu totalmente despreparada para achar um substituto. Este terá de ser selecionado muito provavelmente por improviso, quase que como um “tampão”, até que o nome certo para o futuro da escuderia seja escolhido.

O alemão de 31 anos não foi o primeiro a tomar tal decisão de maneira repentina inesperada. O comitê editorial do Projeto Motor rememorou pelo menos outros 10 nomes relevantes ao esporte que adotaram conduta similar. Em alguns casos o ás ainda estava fora do estágio crepuscular da carreira (entre 35 e 40 anos). N’outros, a notícia espantou pela forma repentina com que foi anunciada. Rosberg, curiosamente, se encaixa em ambos.

Assim como Rosberg, Hawthorn anunciou que estava deixando a F1 logo depois de se tornar campeão
Assim como Rosberg, Hawthorn anunciou que estava deixando a F1 logo depois de se tornar campeão

Em 66 anos de Mundial a história mais parecida com o de Nico talvez seja o de Mike Hawthorn. Logo após consumar a conquista do campeonato de 1958 o controverso bretão declarou que estava se retirando das pistas, aos 29 anos. O motivo, provavelmente, foi a exaustiva pressão de uma temporada em que, além da disputa com Stirling Moss, Hawthorn teve de lidar com uma briga fratricida contra o companheiro de Ferrari e desafeto Luigi Musso, ao lado do amigo Peter Collins. Collins e Musso acabariam morrendo em acidentes sofridos naquela estação.

Três anos mais tarde foi a vez de Tony Brooks, aos mesmos 29, dizer chega. Vice-campeão de Jack Brabham em 59, o também inglês se desmotivou com o excessivo risco proporcionado pelo esporte naqueles tempos. Um acidente, em especial, sofrido nas 24 Horas de Le Mans de 57, contribuiu para isso. “Tive muita sorte em não quebrar nada naquela batida, mas sofri sequelas severas. Um buraco do tamanho do meu pulso foi aberto na parte interna de minha coxa”, relatou certa vez.

Jackie Stewart se cansou da brincadeira aos 33. Em busca do recorde de vitórias e do tricampeonato mundial, o escocês definiu, pouco antes do início da temporada de 73, que aquele seria seu último certame na F1. No fim a despedida acabaria acelerada pela morte do parceiro de Tyrell, François Cévert, em treino para o GP dos Estados Unidos. Stewart optou por sequer largar em sua participação derradeira.

Outro grande campeão, Niki Lauda viveu tempos turbulentos ao trocar a Ferrari pela Brabham, de 77 para 78. Além de não ter em mãos um equipamento competitivo a ponto de brigar pelo tri, o austríaco encarou confrontos homéricos com o chefe, um tal de Bernie Ecclestone, durante as negociações para renovar contratos. Ecclestone, um negociante nato e ensaboado, fazia de tudo para desvalorizar o passe do bicampeão. De saco cheio, o metódico austríaco anunciou, logo após vencer um evento-teste da F1 em Ímola, em setembro de 79, que estava se aposentando “com efeito imediato”, por “não ter mais motivação para correr em círculos”.

De saco cheio das artimanhas de Ecclestone e da falta de competitividade da Brabham, Lauda preferiu cuidar de sua companhia aérea e sequer terminou a temporada em 79
De saco cheio das artimanhas de Ecclestone e da falta de competitividade da Brabham, Lauda preferiu cuidar de sua companhia aérea e sequer terminou a temporada em 79

Companheiros de Williams por dois anos e inimigos ao fim desse período, Alan Jones e Carlos Reutemann saíram quase de mãos dadas do grid. Primeiro piloto declarado e campeão de 80, o australiano ficou extremamente contrariado ao ter sua supremacia no time desafiada pelo argentino na campanha seguinte. Tanto que, logo depois de vencer a rodada de encerramento do calendário, em Las Vegas, e se deleitar ao ver o arquirrival perder a taça para Nelson Piquet, Jones decidiu largar a carreira.

Reutemann, já próximo dos 40 e desgostoso com o desperdício de sua grande (e última) chance de título, até iniciou a campanha de 82 ao lado de Keke Rosberg, mas alegou que “seu coração não batia mais” pelas corridas e largou o trabalho depois de disputar somente o GP do Brasil. Havia outro fator escuso ali envolvido: Carlos era um argentino competindo por uma escuderia bretã em plena Guerra das Malvinas.

Nigel Mansell viveu as sensações de um aposentado-relâmpago em 1990: insatisfeito com o fato de ser batido constantemente por Alain Prost na Ferrari, o volúvel inglês armou uma coletiva de imprensa em pleno GP da Inglaterra para dizer que estava fora da F1 em 91. O rompimento durou pouco: Frank Williams logo o convenceu a regressar para a velha casa em 91 e o “Leão” sequer chegou a passar por algum período sabático.

Mansell atribuía a superioridade de Prost em 1990 a um possível favorecimento da Ferrari, e chegou a anunciar que estava pendurando as luvas. Graças à Williams a decisão durou pouquíssimo tempo
Mansell atribuía a superioridade de Prost em 1990 a um possível favorecimento da Ferrari, e chegou a anunciar que estava pendurando as luvas. Graças à Williams a decisão durou pouquíssimo tempo

Por fim, lembramos de dois finlandeses, Mika Hakkinen e Kimi Raikkonen. O primeiro ficou desmotivado com os problemas da McLaren (a gota d’água foi a quebra de embreagem na última volta do GP da Espanha) e, em meados de 2001, aos 33 e ainda no auge, trocou os monopostos pelo DTM e pelos ralis. Já o segundo foi “jogado a escanteio” pela Ferrari em 2009: decepcionada com sua falta de liderança, a Scuderia preferiu pagar um ano de contrato para deixá-lo fora da F1 e trazer Fernando Alonso ao seu lugar. O “homem de gelo” deu de ombros e se despediu da categoria com meros 30 anos.

O que todas essas histórias nos ensinam? Que a decisão de Rosberg, embora corajosa, pode trazer arrependimentos em médio prazo. De todos os relatos acima, em pelo menos quatro oportunidades o piloto tentou voltar. Nem sempre deu certo: Jones claudicou na Arrows em 83 e na Haas, entre 85 e 86, com desempenho pífio. Hakkinen, por sua vez, testou o MP4-21 em novembro de 2006 e, apesar do clima de “brincadeira”, fontes como a revista Autosport analisaram o caso como uma tentativa séria de regresso à F1. Como seus tempos foram bastante ruins (ele foi o último na folha de tempos, a 3s da Ferrari de Luca Badoer), a ideia acabou descartada.

Lauda e Mansell foram os casos mais bem-sucedidos: o austríaco regressou pela McLaren em 82 e, dois anos mais tarde, alcançou o tão aguardado tricampeonato. Já o inglês pôde finalmente, após longa espera e amargas derrotas, receber como presente da Williams o ultratecnológico FW14B em 92. Raikkonen também viveu bons momentos ao regressar pela Lotus e vencer dois páreos em 2012 e 13, mas nos últimos anos tem sido ofuscado na Ferrari.

Houve, claro, quem tenha levado a decisão a cabo: Brooks, Stewart e Reutemann. Hawthorn não teve tempo de querer voltar atrás ou não, pois morreu num acidente de carro em janeiro de 59.

Em qual caso Rosberg vai se encaixar? Só o tempo vai dizer. Uma coisa parece indiscutível: em algum momento o desejo de reacelerar vai bater. É aí que saberemos se ele conseguirá controlar o instinto ou se a coceira para pegar o telefone e chamar algum dirigente será mais forte. O problema é se a vontade ressurgir quando ele já não tiver mais idade nem portas abertas para isso.

DEBATE MOTOR #55: o balanço final da temporada 2016 da F1

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Leandro Farias

    Acho que se Rosberg voltar ao automobilismo pode não ser necessariamente pra correr. Ele chegou a se matricular em um curso de engenharia, salvo engano, e não duvido nada que – SE QUISER VOLTAR – tenha inteligência o suficiente para ser um bom staff, seja em que posição ocupar.

  • ituano_voador

    Faltou falar do pai do próprio Nico. Me lembro de um artigo do Nigel Roebuck na Autosport, em que ele relatou a possibilidade de Keke substituir Nigel Mansell no GP da Austrália de 87, depois do acidente do inglês no Japão, e Rosberg disse que teria adorado se tivesse dado certo. Como não deu, foi para outras categorias.

    • Leonardo Felix

      Olá, Ituano, tudo certo?

      Não lembrava dessa história do Keke em 87. Certamente merecia uma menção. Eu não o citei porque em 86 ele já tinha 38 anos e ele próprio havia decidido em 84 que “correria por mais dois anos”.

      Grande abraço!

    • Leonardo Porfiro Mazzoco

      Em 1991 Rosberg foi citado como possível piloto da Jordan.

      • David Félix Krapp

        E John Watson testou aquela Jordan…

  • Luiz S

    E ele nem falou se vai (ou pelo menos deseja) correr em outra categoria.