Ross Brawn: de mecânico a dono de equipe campeão e chefão da F1

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Quem acompanhou minimamente a F1 nos últimos 30 anos já vou ouviu falar no nome de Ross Brawn. O inglês certamente é um dos engenheiros mais vitoriosos da categoria, com um currículo de dar inveja para muita gente grande que passou pelo Mundial.

Desde 2014, quando deixou a Mercedes, ele estava afastado das competições e disse diversas vezes que tinha se aposentado, apesar de seu nome aparecer sempre em algum rumor de retorno por diversas equipes do grid. Eis que Brawn acabou se tornando uma das grandes novidades trazidas pelos novos donos da F1, o Liberty Media, como diretor administrativo. Ou seja, ele será um dos principais responsáveis por desenhar o futuro do campeonato.

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Você pode concordar ou não se ele tem o melhor perfil para o cargo, mas currículo, certamente, não falta. São mais de 40 anos trabalhando no automobilismo, principalmente na F1, passando de um simples mecânico a engenheiro de sucesso e até dono de equipe.

Brawn Schumacher FerrariNascido em Ashton-under-Lyne, no nordeste da Inglaterra, Brawn começou a se interessar por automobilismo ainda na infância, no começo dos anos 60. Em 1971, aos 17, ele estudou instrumentação industrial na Autoridade Britânica de Energia Nuclear, onde se qualificou como mecânico. Cinco anos depois, ele foi trabalhar na operação de F3 da March.

Em 78, ele se candidatou à uma vaga na recém-formada equipe de F1 Frank Williams GP. Ele foi entrevistado por Patrick Head e contratado para o setor de fresagem de materiais. Não demorou, porém, para ele crescer dentro do time, e logo foi promovido para a área de Pesquisa e Desenvolvimento, ligado diretamente ao trabalho em túnel de vento, onde ganhou uma boa experiência em aerodinâmica.

Brawn passou oito anos na Williams, sempre crescendo dentro da estrutura técnica do time. Em 1985, ele acompanhou o chefe Neil Oatley e deixou a equipe para se juntar ao projeto americano da Haas Lola, onde trabalhou na Force, empresa aberta especialmente para desenvolver os modelos da nova organização.

Como já contamos aqui no Projeto Motor, a iniciativa da Haas foi um fracasso total e a escuderia fechou ao final de 86, mesmo com a participação de diversos nomes bastante tarimbados do paddock.

Brawn, no entanto, começou a ganhar alguma fama entre os dirigentes, e foi convidado para ser o projetista chefe da Arrows, equipe pequena, mas que tinha assegurado um bom orçamento para os próximos anos através de novos patrocinadores e teria o motor Megatron, que nada mais era que o bom BMW turbo.

O time teve algum sucesso se comparado com seu histórico, chegando a ficar na quinta posição no campeonato de construtores de 88, empatado em pontos com a Lotus, quarto. No final de 89, porém, Brawn seguiu para um novo desafio, na equipe da Jaguar que competia no Mundial de Marcas (o que seria o WEC, hoje). Com a montadora britânica, ele conquistou o título de 1991.

No final daquela temporada, ele foi recrutado por Tom Walkinshaw, que dirigia a equipe Jaguar e estava assumindo o cargo de diretor de engenharia da Benetton na F1, para retornar à categoria de monopostos. Em sua nova casa, como diretor técnico, ele desenvolveu uma grande parceria com o projetista Rory Byrne e Michael Schumacher. Juntos, eles venceram os campeonatos de pilotos de 1994 e 95 e o de construtores de 95.

Ross Brawn e Michael Schumacher, nos tempos de Benetton
Ross Brawn e Michael Schumacher, nos tempos de Benetton

No ano seguinte ao último triunfo, os três seguiram para a Ferrari, onde iniciaram um novo projeto de ressuscitar a tradicional equipe italiana, que estava passando por período sem vitórias bastante difícil no começo dos anos 90. E essa história é mais do que conhecida: após alguns anos de estruturação, o time se tornou uma verdadeira máquina de títulos, conquistando os Mundiais entre 2000 e 2004 de forma consecutiva. Durante o período, além de seu talento técnico, o inglês passou também a ser bastante reconhecido por sua visão estratégica das corridas.

A partir de 2006, no entanto, Brawn anunciou que iria tirar um ano sabático para descansar, mas nunca voltou a Maranello. Dois anos depois, ele assumiu o posto de chefe de equipe da Honda. O time japonês, depois de muito investimento da marca, não conseguia deixar de frequentar posições intermediárias do grid. O inglês chegou para começar a trabalhar no carro de 2009, temporada em que a F1 enfrentaria uma grande mudança no regulamento.

Só que ao final de 2008, a empresa resolveu deixar a categoria. Depois de uma longa negociação, Brawn assumiu a equipe, ao lado de outro dirigente da escuderia, Nick Fry, rebatizando a organização de Brawn GP. Ele garantiu o fornecimento de motores da Mercedes, que já tinha o melhor equipamento do campeonato, e aproveitou o final dos recursos deixados pela Honda para terminar o desenvolvimento do modelo BGP 001 a tempo da estreia.

Ross Brawn e o modelo BGP 001, campeão de 2009
Ross Brawn e o modelo BGP 001, campeão de 2009

A aposta de Brawn não poderia ter sido mais certeira. A equipe venceu seis das sete primeiras etapas, com Jenson Button. Rubens Barrichello ainda triunfaria em mais duas provas no segundo semestre, e a equipe, que quase fechou as portas, terminaria a temporada com os títulos de pilotos, com Button, e de construtores.

O sucesso da Brawn, somado a um desgaste na relação com a McLaren, empolgou a Mercedes, que resolveu comprar o time. Ross seguiu como chefe de equipe, agora tendo como pilotos Nico Rosberg e Schumacher, que voltava de sua aposentadoria. As primeiras temporadas, no entanto, foram complicadas, sem muitos resultados de destaque.

Toto Wolff, Niki Lauda e Ross Brawn
Toto Wolff, Niki Lauda e Ross Brawn

No final de 2012, o time decidiu fazer a contração de Lewis Hamilton, além de diversos outros engenheiros, que se concentrariam no modelo de 2014, ano em que aconteceria mais uma grande alteração das regras. O que Brawn não contava, porém, era com a mudança no corpo diretivo patrocinado pela marca alemã. Toto Wolff e Niki Lauda assumiram a administração. Para aumentar o desconforto do inglês, Paddy Lowe, ex-McLaren, foi contratado para a direção técnica.

Vendo-se cada vez com menos espaço e voz, Brawn deixou a equipe no final de 2013, antes da explosão de resultados e títulos da Mercedes a partir de 2014. Obviamente que seu nome começou a ser especulado por diversos concorrentes, mas ele anunciou que estava se aposentando da F1.

No começo de 2017, ele foi anunciado pelo Grupo Liberty para seu novo cargo na categoria, voltado principalmente para a área técnica. A promessa é de costurar acordos entre o novo proprietário, FIA e equipes, para buscar um regulamento técnico-esportivo mais simples aos olhos do público e que promova corridas mais interessantes. Resta saber se o conhecimento técnico de Brawn, que já participou da elaboração de outras regras antes, será o bastante para atingir o objetivo.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.