Rossi pagou caro por fazer o que qualquer ser humano normal faria

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Olá, leitores do Projeto Motor! Meu nome é Lucas Carioli e fui convidado para dar alguns pitacos sobre a temporada 2015 da MotoGP, que se encerrou de forma polêmica no último domingo (8) e na qual acompanhei com atenção no meu site, Notícias Motociclísticas.

Antes de tudo, gostaria de dizer que também sou um de vocês. Antes de debandar definitivamente para as duas rodas, os carros e especialmente a F1 foram minhas paixões. Mas, assim como muitos, com o tempo comecei a me desiludir da F1. Ao mesmo tempo, fiquei fascinado com a sensação de liberdade das duas rodas e o clima descontraído do motociclismo. Essa diversão sempre foi capitaneada pelo maior piloto em atividade, Valentino Rossi.

Rossi nunca escondeu sua fome por competitividade. Ao longo desses anos todos foram nove campeonatos mundiais e incontáveis vitórias, mas, acima de tudo, ele sempre fez questão de deixar uma mensagem maior às pessoas: motociclismo significa diversão, amizade, liberdade e alegria. Mas todo esse clima adorável está perto de ruir por completo devido aos acontecimentos da MotoGP no último mês.

Rossi Inglaterra
Rossi fez temporada forte em 2015 e bateu na trave no título (Divulgação)

Mas vamos começar do início. Quando a largada para a primeira corrida do ano foi dada no Qatar, o que se viu foi a tônica de todo o campeonato: as Honda com claros problemas de estabilidade e a Yamaha exibindo o conjunto mais completo pelas mãos de Jorge Lorenzo e Valentino Rossi.

Aos 36 anos de idade, Rossi sabia que não tinha mais aquela velocidade mordaz da década passada. Isso, contudo, era compensado com uma sabedoria ímpar, sabendo “ler” uma corrida e entender rapidamente o que era preciso fazer para vencer.

Foi assim que Rossi venceu o GP da Argentina, uma das maiores corridas que já assisti na vida. Largando da oitava posição, o italiano foi ganhando posições até alcançar o líder Márquez. Na penúltima volta, os dois ficaram lado a lado e a dividida mandou o espanhol ao chão.

Na “catedral” holandesa de Assen, o que vimos foi outra corrida épica, antológica, inesquecível. Aproveitando sua incomum condição de pole position, Rossi liderou desde a primeira volta, sendo acossado o tempo todo por um sedento Márquez, disposto a tudo para vencer. Os dois não deram sossego um ao outro até a volta final, quando se tocaram na famigerada chicane final, onde diversas “encrencas” já aconteceram no passado.

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Após a etapa de Motegi, a 15ª do ano, Márquez já estava oficialmente fora da briga pelo título. Pensando em retrospecto, o espanhol pode ter decidido alguma coisa nos dias que antecederam o espetacular GP em Phillip Island. Os sinais de que algo estava errado não foram sentidos durante a corrida, na qual Márquez, Lorenzo, Rossi e Andrea Iannone lutaram entre si durante quase todas as voltas da prova, em um thriller que deixou todos de cabelo em pé.

Durante a corrida Márquez, alegando desgaste dos pneus oscilou muito de desempenho, ora brigando com Lorenzo pela liderança, ora sendo presa fácil para Rossi e Iannone, algo que deixou os italianos intrigados. O fato é que nas duas últimas voltas, o espanhol acelerou como nunca, ultrapassou Lorenzo nas últimas curvas e venceu.

Já no paddock de Sepang, Rossi colocou fogo na questão ao acusar Márquez de ter favorecido Lorenzo em Phillip Island, mesmo tendo vencido a corrida. Foram declarações pesadas que deixou todos os presentes atônitos. Foi estranho porque até o momento, os três davam demonstrações de tranquilidade e pacifismo, apesar das disputas.

Bomba-relógio explodiu quando Rossi tirou Márquez da corrida em Sepang (Divulgação)
Bomba-relógio explodiu quando Rossi tirou Márquez da corrida em Sepang (Divulgação)

O clima, no entanto ficou absurdamente tenso para a corrida. A panela de pressão explodiu como uma bomba atômica durante o fatídico acidente na 12ª volta. De início, parecia que Rossi simplesmente havia perdido a cabeça e chutado Márquez em uma atitude puramente anti-desportiva. Uma análise mais detalhada, no entanto deixa evidente que o espanhol parecia estar realmente querendo atrapalhar o italiano de propósito. De repente, as palavras de Rossi passaram a fazer sentido.

Em Valência, Rossi fez o possível, mas Lorenzo, que liderava desde a largada, estava muito longe. Foi acompanhado de perto por Márquez que não fez nenhuma tentativa de ultrapassagem. A armação que o italiano havia dito que existia (citando inclusive uma confissão de Emilio Alzamora, mentor de Márquez e Pedrosa) ficou ainda mais verossímil em Valência.

Os motivos que levariam Márquez a atrapalhar deliberadamente Rossi, seu ídolo de infância, e a ajudar Lorenzo, que nunca foi seu amigo, ainda são um mistério. A imprensa italiana fala que os dois teriam se encontrado em Andorra (país onde residem) para selar o acordo, logo após o GP do Japão.

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Especula-se que Márquez teria ficado ofendido com Rossi nas disputas da Argentina e Holanda, culpando o italiano por não conseguir lutar pelo campeonato até o final. Fala-se que o espanhol teria resolvido impedir o seu décimo título, um recorde que pretende alcançar. Também foi dito que Lorenzo estaria negociando com a Honda para 2017 e isso seria parte do acordo, evitando a enorme promoção que Rossi daria à Yamaha em seu aniversário de 60 anos, completados em 2015.

Seja lá o que realmente tenha acontecido nunca ficará completamente provado se Márquez e Lorenzo realmente planejaram uma conspiração contra Rossi ou foi o italiano que desencadeou uma reação de rancor com suas palavras ao jovem de 22 anos que o tinha como ídolo e fonte de inspiração.

Se antes nutriam relação de fã e ídolo, Márquez e Rossi são hoje ferrenhos rivais (Divulgação)
Se antes nutriam relação de fã e ídolo, Márquez e Rossi são hoje ferrenhos rivais (Divulgação)

Apesar de tudo, tendo a acreditar em Rossi. Quem conhece a trajetória do italiano sabe que ele já foi derrotado antes e nunca foi um mau perdedor, pelo contrário. Sim, ele criou inimizades, com Max Biaggi, Sete Gibernau, Casey Stoner e o próprio Lorenzo, mas também fez amigos em muito maior número, inclusive com Nicky Hayden que o superou justamente em Valência, 2006.

Além disso, como foi mencionado no começo desse artigo, Rossi sempre foi extremamente competitivo, mas também preocupado em passar a melhor mensagem possível do motociclismo. Por isso, é tão amado em todos os cantos do mundo. É uma coisa que os espanhóis parecem incapazes de entender e repetir no futuro. Lorenzo, por exemplo, desde seu primeiro dia na MotoGP admitiu que seu único objetivo era destronar Rossi. Márquez, apesar dos encantos mostrados nas pistas, parece que pensa do mesmo jeito, não importando os custos morais e éticos disso.

Não que eu não aprove o desejo de um aprendiz em superar o seu mestre. Mas existe uma diferença entre se comportar de forma competitiva e outra de forma predatória. Foi dessa forma que Márquez e Lorenzo agiram na reta final da temporada 2015, coisa que Rossi jamais fez em todos esses anos de campeonato mundial. Seu único deslize talvez tenha sido entrar no jogo dos espanhóis e dar aquele empurrão em Sepang, no calor do momento. Mas, qualquer ser humano normal faria a mesma coisa, provavelmente.

O fato é que esse comportamento predatório pode abrir precedentes, como aconteceu na F1. O que isso gerou? Mais regras e mais influência dos dirigentes sobre as disputas, que ficaram cada vez mais “plastificadas”. O resultado desse clima de “vale tudo” pode ser conferidos hoje. Não deixem que o mesmo aconteça com a categoria rainha do motociclismo.

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Lucas Carioli

Publicitário de formação, mas jornalista de coração, Lucas Carioli acompanha corridas desde 1989. Sua primeira lembrança real da categoria é o acidente de Gerhard Berger em Imola, o que o deixou “fascinado com o perigo”. O interesse pelo Mundial de Motovelocidade começou na mesma época, quando assistiu à primeira vitória de Alex Barros e viu Wayne Rainey em Interlagos. Desde o começo da década, escreve para vários veículos relacionados ao esporte a motor. Integrou a equipe de jornalistas do Motorpasión Brasil, Motordrome Brasil e, em 2014, criou o “Notícias Motociclísticas”, site exclusivamente voltado para a cultura em duas rodas. Também é colunista do GP Total. Nas horas vagas toca contrabaixo com os amigos ou está perdido em alguma estrada com sua motocicleta.