Sai ou fica: o que pesa na decisão da Mercedes sobre seu futuro na F1

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A conversa não é nova. Desde meados de 2019, já existiam rumores e conversas de lado no paddock da F1 sobre uma possível despedida da Mercedes ao final de 2020. O papo, inclusive, não incluía apenas a marca alemã, mas também a Renault.

As duas empresas passaram por alterações em seus quadros administrativos no último ano. A primeira de forma mais planejada, enquanto a segunda com manchetes na seção policial da imprensa pelo mundo e profundas mudanças na direção da companhia.

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Deixaremos por enquanto a Renault para um próximo capítulo e vamos entender melhor no que acontece na Mercedes, já que a discussão interna em Stuttgart segue bastante quente. E a decisão sobre a saída ou não precisa ser tomada o quanto antes. Por quê? Em 21, a F1 passará por uma grande transformação em seu regulamento técnico. E isso reflete diretamente no orçamento de 20, já que as equipes precisarão gastar mais dinheiro do que o normal durante este ano para o desenvolvimento de carros completamente diferentes para a próxima temporada.

Sendo assim, até faz sentido a notícia publicada nos sites ingleses AutoCar e Racefans de que uma reunião de Conselho da Mercedes, com alguma pressão da empresa irmã Daimler, estaria marcada para o próximo dia 12 de fevereiro e poderia definir o futuro da marca na F1. Não faria sentido o time começar a queimar dinheiro no carro de 21 se ele não vai continuar. Certo?

Bem, pode até ser, como você tem lido na maioria das publicações que estão desesperadamente repercutindo a matéria dos bem informados sites citados. Mas existe mais caldo neste molho.

O que pode definir a situação da Mercedes

Existem vários fatores que estão na mesa dos dirigentes da companhia. Os resultados comerciais não são dos melhores nos últimos tempos e a direção da empresa se comprometeu publicamente a cortar mais de ‎€ 1 bilhão (cerca de R$ 4,6 bilhões) de seus custos até o final de 2022. Cargos de gerência serão cortados em 10% com o objetivo de se economizar ‎€ 300 milhões em pessoal. Os dirigentes também devem passar uma tesoura de ‎€ 250 milhões em custos fixos, como a manutenção de estruturas e fábricas, principalmente no departamento de caminhões.

Lewis Hamilton, com sua Mercedes no GP de Abu Dhabi de 2019
Lewis Hamilton, com sua Mercedes no GP de Abu Dhabi de 2019 (Foto: LAT Images /Daimler)

Se pensarmos assim, perto da demissão de funcionários e retirada de investimentos por todo o mundo, qual seria o sentido de manter uma equipe de F1? “Corta isso logo!”, devem bradar muitos.

O motivo, porém, não seria inteiramente esse. Segundo dados publicados pela própria equipe, do seu orçamento de U$ 425 milhões, apenas uma parte U$ 80 milhões saem dos cofres da Daimler, em formato de patrocínio. Ok, ainda é bastante, mas está dentro da margem de marketing do grupo, com alguma sobra.  

E de onde vêm os outros U$ 325 milhões? Bancada por parceiros comerciais, de tecnologia (Petronas, especialmente) e premiações da F1. A Mercedes GP Ltda, inclusive, divulgou um lucro de £ 12,7 milhões (aproximadamente R$ 70 milhões) na competência de 2018, após chegar a fazer £ 13,3 milhões no ano anterior. O resultado de 2019 ainda será publicado. A médio prazo, a partir de 2021 e principalmente 22, com a entrada do teto de gastos que será imposto às escuderias da F1 de U$ 175 milhões, essa conta pode até melhorar. Então, a conta em um geral fecha.

A operação de motores é separada e não entra no cálculo. Então, sair da F1 não iria influenciar tanto no balanço que os acionistas da Daimler recebem, mas sim na mensagem que a companhia envia para seus stakeholders ao deixar de participar de um evento com números de gasto tão grandiosos em tempos de planos de demissões. E isso pesa. Muito.

Além disso, existem outros motivos que podem pesar na decisão. O primeiro é esportivo. Vencedora dos campeonatos de pilotos e construtores de forma consecutiva desde 2014, para que a Mercedes iria se arriscar a ser superada por uma concorrente quando o regulamento da F1 mudar em 21? Seria a versão do “sair por cima” para a empresa.

O outro fator que pode influenciar a discussão do Conselho da Mercedes é o posicionamento estratégico quanto ao mercado de carros elétricos. A marca estreou na atual temporada de 2019-20 com um time oficial na Fórmula E. E apesar da F1 ter sido nos últimos anos uma base importante de marketing para sua tecnologia híbrida, a visão pode ser de que é hora de focar no outro lado.

Com regulamentação de vários países, principalmente na Alemanha, apertando o cerco em torno de veículos que ainda utilizam propulsão a combustão e na pegada de carbono de seus fabricantes, diversas montadoras estão mudando completamente sua linha de produção para carros elétricos. A Mercedes não é diferente e isso vai contar bastante na hora de bater o martelo.

Negociação com a Liberty/F1

Não sejamos ingênuos. Toda esta movimentação também pode depender de um acerto com o Liberty. Depois de patrocinar a grande revolução do regulamento técnico, a proprietária da F1 está em processo de também mudar a forma como as verbas de premiação das equipes é dividida.

Mercedes tem dominado a F1 desde o início da era dos motores híbridos, em 2014
Mercedes tem dominado a F1 desde o início da era dos motores híbridos, em 2014 (Foto: Wolfgang Wilhelm/Daimler)

Ao contrário do que acontece hoje, em que os grandes e mais tradicionais times possuem garantias de valores mínimos independente da posição em que terminam no campeonato de construtores, o grupo americano gostaria de adotar um sistema um pouco mais justo.

A Ferrari já utilizou diversas vezes em sua história a tática de ameaçar deixar o Mundial quando se sentiu prejudicada ou próxima de perder regalias. E a Mercedes, hoje uma das maiores stakeholders da categoria, obviamente também quer receber a parcela que acha justa.

A negociação com Liberty está em curso e todos sabem que para os donos da F1, segurar uma marca como a Mercedes seria importante e manteria o valor da categoria. E nesta negociação, cada um usa as armas que tem.

A equipe pode simplesmente fechar as portas?

Assim como o orçamento para abrir e depois tocar o dia-a-dia de uma equipe de F1 mudou consideravelmente nas últimas décadas, fechar um time com a estrutura que a Mercedes tem hoje também não é das coisas mais simples. Existem muitos equipamentos, tecnologia industrial com direitos de propriedade intelectual e, claro, funcionários com direitos trabalhistas.

Há 11 anos, a Honda preferiu repassar praticamente de graça a sua equipe para Ross Brawn, com algum orçamento para os primeiros meses de 2009 garantido ainda, do que simplesmente tirar o plugue da operação e arcar com os custos do fechamento do time. A equipe de Brackley venceria mais tarde aquele campeonato sob novo nome e ao final do ano teria a maior parte de suas ações vendidas para um novo proprietário: a Mercedes.

Seguindo esse exemplo, dificilmente o programa da marca na F1 será encerrado sem que alguém assuma a estrutura. E aí que entram os nomes de Toto Wolff e Lawrence Stroll.

Toto Wolff é o líder da equipe Mercedes na F1 desde 2013
Toto Wolff é o líder da equipe Mercedes na F1 desde 2013 (Foto: Paul Ripke/Daimler)

É público o interesse do empresário canadense, que atualmente já lidera um grupo que comprou a Racing Point (ex-Force India), na aquisição da Aston Martin. Veja bem, não estamos falando aqui apenas de um time esportivo, mas da fabricante de automóveis mesmo.

Paralelamente a essa conversa, lógico que já surgiu o papo dele rebatizar seu time com o nome da tradicional marca inglesa, que hoje até já tem uma ligação com a F1, patrocinando a Red Bull. A Aston Martin inclusive já mostrou nos últimos tempos interesse em aumentar essa participação e chegou a integrar rodadas de conversas sobre o próximo modelo de motores da categoria.

A nova informação é que Toto Wolff, que hoje já é dono de 30% das ações da equipe, poderia assumir, em parceria com Lawrence Stroll, a equipe Mercedes. Assim, o canadense ainda concluiria a aquisição da Aston Martin e trocaríamos no grid o nome “Mercedes” pelo da fabricante britânica. Para a F1, nada mal, não?

Já a Racing Point também seria vendida e tem até interessado: Dmitry Mazepin. O empresário russo do ramo químico já tinha tentado comprar o time na época em que a Force India entrou em administração judicial. Porém, foi superado nas negociações por Stroll e seu grupo de investidores. O filho dele, Nikita Mazepin, é piloto e competiu na F2 em 2019, terminando na 18ª posição no campeonato pela ART GP. No ano anterior, ele tinha sido vice da GP3, pelo mesmo time.

Tudo isso faz sentido? Sim, mas é complexo. Uma multioperação destas não se conclui do dia para a noite e o time certamente precisará tomar uma decisão sobre seu orçamento de 2020/21 antes disso. Desta forma, a reunião do dia 12 pode até decidir por uma saída da F1, mas não definirá o tempo que o movimento será feito.

Existe até uma forte possibilidade que por problemas burocráticos, a equipe ser vendida, mas por conta da certa manutenção de investimentos, o time seguir por pelo menos uma temporada com o nome Mercedes como uma compensação de marketing. Ou até para garantia de recebimento das verbas da F1. Algo parecido aconteceu no passado com a venda da Renault para o Genii e da BMW para Perter Sauber. Neste último caso, aconteceu até o curioso fato de termos um carro de nome BMW equipado com motor Ferrari.

E como ficariam os pilotos?

O contrato tanto de Lewis Hamilton quanto de Valtteri Bottas se encerram ao final de 2020. O inglês até já iniciou no ano passado uma negociação para renovação, mas nenhum acordo foi firmado até o momento. Já existem até boatos na imprensa de uma conversa com a Ferrari para o hexacampeão entrar na vaga de Sebatian Vettel ao lado de Charles Leclerc.

Lewis Hamilton conquistou cindo dos últimos seis campeonatos da F1 pela Mercede
Lewis Hamilton conquistou cindo dos últimos seis campeonatos da F1 pela Mercedes (Foto: Steve Etherington/Daimler)

Já o finlandês, depois de entrar no time em 2017 na vaga de Nico Rosberg, vem renovando seu contrato ano-a-ano.

Desta forma, em caso da equipe encerrar suas operações, ela não teria débitos com os dois. No caso de uma mudança de proprietário, tanto os novos donos quanto os pilotos também estariam livres para decidir seus respectivos destinos, já que não existem contratos amarrando ninguém.

E os motores Mercedes?

A operação de motores da Mercedes é separada em termos administrativos da equipe de F1. Não só fisicamente (a fábrica fica em Brixworth), mas também em propriedade, já que não tem participação acionária de Wolff, que sequer tem cargo por lá.

Ao contrário do time, que voltou à F1 em 2010, o programa de fornecimento de propulsores está funcionando na categoria desde 1994 de forma ininterrupta. A companhia tem contratos para os próximos anos com Racing Point, McLaren e Williams. Os acordos com as duas últimas vão até 2025. Por isso, o nome Mercedes não deve desaparecer totalmente da categoria tão cedo.

Até mesmo no caso da escuderia passar a correr como Aston Martin, a opção seria da continuidade de fornecimento dos motores, com o time correndo como “Aston Martin-Mercedes” ou o equipamento sendo rebatizado com o nome da marca inglesa em um segundo acordo comercial.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.