Salário, proibições e mais: os detalhes do contrato de Senna com a Lotus em 87

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Os contratos dos pilotos com as equipes de F1 via de regra são mantidos no mais absoluto sigilo. Salários, condições de trabalho, bônus… Todos os temos são guardados a sete chaves, o que faz o público imaginar o que está por trás de cada acordo. 

Mas a curiosidade pode ser parcialmente saciada de forma curiosa. Há alguns anos, o contrato de Ayrton Senna com a Lotus para a temporada 1987 veio a público, o que trouxe à tona alguns pontos interessantes – como obrigações contratuais, salário, proibições de fazer certas atividades esportivas e status de primeiro piloto.  

O contexto do contrato de Senna

Naquela altura da carreira, Ayrton Senna tinha na bagagem a temporada de estreia pela Toleman, em 1984, e mais duas pela Lotus: em 1985 e 1986, quando foi quarto colocado em ambas as campanhas, com duas vitórias em cada. Portanto, o brasileiro, prestes a completar 27 anos de idade, partiria para sua quarta temporada na F1, ainda de olho em conquistar seu espaço e em busca do primeiro título mundial.    

A permanência de Senna na Lotus em 87 já era algo encaminhado havia um tempo. Porém, o contrato foi só assinado de fato no dia 30 de janeiro daquele ano. O documento tem 19 páginas, e as duas partes envolvidas são o Team Lotus International Limited (sediada em Norfolk, na Inglaterra), e a Ayrton Senna da Silva Promotions Limited (uma empresa com sede em Nassau, nas Bahamas, um paraíso fiscal). 

E aí já fica a primeira curiosidade: o contrato sequer tem a assinatura de Senna em próprio punho, e sim de um advogado que representa a Ayrton Senna Promotions. A empresa forneceria à Lotus o serviço do piloto, Ayrton Senna da Silva.

O contrato engloba dois períodos: o primeiro, de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 87, e o segundo período, de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 88. Mas o contrato tinha uma cláusula de rompimento para a segunda temporada, mas a gente fala disso mais para frente.

As obrigações de cada parte

As obrigações de Senna incluíam: 

  • Obviamente, se disponibilizar à Lotus para participar de todas as atividades em pista, como corridas, treinos e os testes que fossem necessários, sem que as atividades a mais rendessem pagamentos adicionais ao piloto. 
  • Se manter em boa forma para conseguir lidar com as demandas físicas das atividades previstas no contrato. Mas ele estava proibido de andar de moto, praticar esqui na neve ou voar de asa-delta, já que eram atividades de risco à integridade física do piloto. 
  • Ele também tinha de lidar com a imprensa e a comunidade do automobilismo de maneira “totalmente profissional”, além de cooperar com as atividades promocionais e sociais da Lotus e de seus patrocinadores.

Além disso, Senna também assumia que todas as atividades de pilotagem previstas no contrato eram sob sua própria conta e risco. 

Por fim, Senna e seus representantes estavam proibidos de negociar com outra equipe até o dia 8 de agosto de 87.

Já as principais obrigações da Lotus eram:

  • Ter motor Honda, patrocínio comercial da Camel, da Elf e da própria montadora japonesa – lembrando que, até 86, a Lotus usava motores Renault e tinha o patrocínio principal da John Player Special. 
  • A equipe também confirmou que contaria com Gerard Ducarouge na posição de chefe de engenharia pelo menos durante a temporada de 87. 

A equipe também garantiu que faria seu melhor para ceder “equipamentos o mais parecido possível” aos pilotos, mas que, “se fosse necessário, a prioridade seria dada a Senna tanto em 87 quanto em 88 – lembrando que o companheiro de Senna em 87 foi Satoru Nakajima, piloto da Lotus a pedido da Honda. 

Os termos financeiros

A Lotus teria de pagar US$ 40 mil à Ayrton Senna Promotions para cobrir custos de viagem e hospedagem do piloto durante as provas.

O salário bruto de Senna para 87 seria de US$ 1,5 milhão, com um bônus de US$ 4 mil para cada ponto marcado no Mundial. Só para você ter uma ideia, Senna marcou 57 pontos na temporada de 87, então foram mais US$ 228 mil para o piloto. 

Para a temporada de 88, o salário previsto era maior: US$ 1.650.000, com US$ 5 mil a mais para cada ponto marcado. 

Os pagamentos seriam feitos até o começo de fevereiro de cada ano, a um banco da escolha de Senna. E caso o piloto não participasse de um GP por um motivo que não fosse responsabilidade da Lotus, a equipe teria de ser recompensada financeiramente pelo valor proporcional ao número de provas que Senna ficaria afastado.

Mas, caso Senna vencesse o título mundial, ele receberia US$ 250 mil de bônus. 

Já no caso de outras recompensas adicionais, feitas por terceiros, elas seriam divididas na seguinte proporção: 45% para a Lotus, 45% a Senna e 10% aos mecânicos. 

Os troféus seriam divididos por igual entre Lotus e Senna, mas a equipe teria prioridade de escolha sobre quais ela gostaria de ficar.

Foto: Divulgação

Também havia termos específicos e detalhados sobre patrocinadores. Na pista, Senna deveria usar apenas o uniforme e macacão da Lotus, expondo apenas os patrocinadores da equipe. Isso também incluía o clássico boné do piloto: em vez de usar a logo do Banco Nacional, como fez em 86 e em outros anos de sua carreira, ele usaria um com um patrocinador da Lotus – no caso, seria a Elf, a fornecedora de combustível. No pódio, o boné teria de ser da fornecedora de pneus, a Goodyear.

Mas também havia algumas concessões a Senna. Ele conseguiu uma liberação especial para usar o boné do Banco Nacional somente em entrevistas curtas para a Globo durante os GPs.

A Lotus também permitia o uso de patrocinadores pessoais de Senna em áreas específicas:

  • Na parte lateral superior e na área do queixo do capacete;
  • Em duas áreas do macacão: na parte da frente, logo abaixo dos patrocinadores da equipe, sem sem extrapolar 30 cm de comprimento por 12 cm de altura. E na parte das costas, também abaixo dos patrocinadores da Lotus, com um espaço de 30 cm por 8 cm. A empresa em questão não poderia entrar em conflito com os patrocinadores da Lotus, de modo que Senna preencheu todo este espaço com o Banco Nacional. 

Falando em conflitos, havia uma liberação específica para que Senna pudesse ter um contrato de patrocínio pessoal com a Ford, desde que isso acontecesse somente dentro do território brasileiro e sem usar o nome da Lotus em ações – até porque a equipe tinha relação com a Honda. Caso Senna tivesse que fazer as ações com a Ford usando macacão ou um outro uniforme da Lotus, precisaria apenas remover a estampa da Honda e deixar o espaço vazio. 

Por fim, vamos às cláusulas de rompimento. 

Senna teria direito de anular o acordo caso a Lotus não conseguisse participar de três corridas consecutivas, já se sabe que não aconteceu. 

E lembra que o acordo tinha dois períodos de duração? Pois poderia haver a rescisão do contrato para 88 caso alguma das partes comunicasse sua intenção à outra até o dia 8 de agosto de 87.  Durante o ano, ficou cada vez mais evidente que Senna se transferiria para a McLaren em 88. No dia 7 de agosto, a Lotus oficialmente confirmou que Nelson Piquet entraria no lugar de Senna a partir do ano seguinte. 

Em 87, Senna venceu mais duas corridas e terminou o Mundial em terceiro, sua melhor posição com a Lotus. Em setembro de 87, foi confirmado oficialmente que ele iria para a McLaren, equipe onde permaneceu por seis anos e conquistaria três campeonatos do mundo.  

E já que mencionamos Piquet, o seu contrato com a Lotus em 88 também chegou ao conhecimento público anos mais tarde. Desta vez, se tratava de um piloto em um patamar diferente na carreira, mais veterano e já com títulos mundiais. Falaremos dos detalhes deste contrato em um artigo futuro.

VEJA AQUI O CONTRATO DE SENNA COM A LOTUS NA ÍNTEGRA

Confira mais detalhes em nosso vídeo especial:


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.