Saúde, política, luto… As ausências de pilotos brasileiros em GPs da F1

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Todo entusiasta do automobilismo sabe que o Brasil possui representação consecutiva em todas as temporadas de F1 desde 1970, quando Emerson Fittipaldi ingressou à Lotus para se tornar segundo piloto de Jochen Rindt.

Ficamos por um fio de interromper tal estatística em 2017, é bem verdade, mas a inesperada aposentadoria de Nico Rosberg provocou um efeito cascata que culminou no “resgate” de Felipe Massa à condição de titular da Williams. Difícil acreditar que a situação se sustente por muito tempo, mas o estado de sobrevida persiste.

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No GP da Hungria de 2017, porém, a ausência de Massa, forçada por uma virose, deixou o país sul-americano sem um ás sequer no grid de largada de uma prova oficial do certame pela primeira vez desde 1982. 35 anos, portanto.

Aliás, se analisarmos desde a etapa da Grã-Bretanha de 70, quando Emmo estreou na categoria, veremos que em apenas seis páreos não houve nenhum volante tupiniquim alinhando na grelha. O Projeto Motor conta agora quais são eles, e o que está por trás dessas ausências.

1. GPs da Itália e Canadá de 1970

Fittipaldi durante treino para o GP da Itália de 70
Fittipaldi durante treino para o GP da Itália de 70

Não é preciso despender muitas linhas para que o douto leitor rememore o que aconteceu naquele fatídico fim de semana de setembro em Monza. Na classificação de sábado à tarde, Rindt sofreu uma falha no freio dianteiro direito e bateu fatalmente contra o muro à esquerda da entrada da Parabólica.

A morte prematura do austro-germânico, que viria ao fim daquela estação a se tornar o primeiro e (até hoje) único campeão póstumo da história da F1, levou Colin Chapman a tomar a clássica decisão de retirar a equipe da prova. Como consequência, Fittipaldi abdicou da disputa.

O que pouca gente sabe, ou lembra, é que a Lotus também deixou de participar da rodada canadense de Mont-Tremblant, três semanas mais tarde, ainda como sinal de luto. Isso significa que o “Rato” só regressou ao campeonato em Watkins Glen, nos Estados Unidos, para aquele que seria seu primeiro triunfo na F1 (em resultado que asseguraria o título pós-morte de Rindt).

2. GP da Holanda de 1971

Largada do GP da Holanda de 71
Largada do GP da Holanda de 71

Outra história pouquíssimo comentada a respeito de Fittipaldi está relacionada à etapa neerlandesa de Zandvoort, em 71. O motivo? Um perigoso e quase desconhecido acidente de carro sofrido por ele e a esposa, Maria Helena, na Suíça. Emmo voltava de Monte Carlo, onde dois dias antes disputara a etapa citadina de Mônaco, e acabou sofrendo forte colisão numa estrada próxima à cidade de Lausanne.

Muito pouco se sabe sobre a causa da quase tragédia, mas o fato é que Emerson e Maria Helena foram internados em estado grave, ambos com diversas fraturas em ossos da caixa torácica. Fittipaldi teve até de passar por operações de enxerto de ossos e pele.

Reine Wisell foi seu substituto no Lotus 72D #14, e obteve um interessante sexto lugar na prova classificatória. Logo na sétima volta de prova, porém, uma roda se soltou do carro em plena reta dos boxes e, a fim de resolver rapidamente a situação, Wisell não pensou duas vezes e entrou nos boxes pelo lado da saída, em marcha à ré. Obviamente foi desclassificado.

3. GP da Itália de 1977

Alex Dias Ribeiro durante classificação para o GP da itália de 77
Alex Dias Ribeiro durante classificação para o GP da itália de 77

Aqui não houve qualquer incidente ou imprevisto que tenha impedido Emerson Fittipaldi ou Alex Dias Ribeiro de disputar a 14ª etapa da temporada 77. O grande problema estava na qualidade do equipamento que ambos tinham à disposição.

Nenhum dos dois conseguiu se posicionar entre os 24 integrantes do grid. Numa cruel ironia, Ribeiro e Fittipaldi terminaram o classificatório posicionados justamente nas primeiras colocações da degola: 25º e 26º, respectivamente. Alex, à época, defendia a March e estava competindo com o desatualizado chassi 761B.

Já Emmo tentava extrair algum rendimento do problemático Copersucar F5, e encontrava dificuldades ainda maiores para tal em pistas de alta velocidade. Além de Monza, o bicampeão deixou de estar presente no GP da Alemanha, em Hockenheim, quando terminou a tomada de tempos em 28º e antepenúltimo lugar.

4. GP de San Marino de 1982

O escasso pelotão do GP de San Marino de 82
O escasso pelotão do GP de San Marino de 82

Esta é uma passagem já esmiuçada neste brilhante especial de Lucas Berredo sobre o quase infindável conflito entre montadoras – apadrinhadas pela Fisa (atual FIA) – e garagistas britânicas – representadas pela antiga Foca de Bernie Ecclestone.

O estopim da vez foi a desclassificação de Nelson Piquet e Keke Rosberg do GP do Brasil de 82, por conta do uso de tanques de água que supostamente serviam para refrigerar os freios, mas na verdade ficavam vazios e deixavam os bólidos abaixo do peso regulamentar ao longo de uma corrida.

Revoltadas com a decisão, que beneficiava diretamente a Renault, as esquadras bretãs providenciaram um boicote ao páreo de San Marino. Este acabou disputado por apenas 14 carros: os seis de Ferrari, Renault e Alfa Romeo, e mais oito das pequeninas Tyrrell, ATS, Toleman e Osella, estas independentes porém temerosas quanto a possíveis sanções.

Naquele momento havia três brasileiros competindo: Piquet (Brabham), Chico Serra (Fittipaldi) e Raul Boesel (March), todos por equipes que participaram do motim.

5. GP da Hungria de 2017

Massa deixa o carro durante treino para o GP da Hungria de 2017
Massa deixa o carro durante treino para o GP da Hungria de 2017

Caso recente e que ainda está fresco em nossas memórias: Felipe Massa sentiu tonturas ao andar com o Williams FW40 pelo travado circuito de Hungaroring na sexta-feira. Até tentou retomar o trabalho no sábado pela manhã, mas o desconforto persistiu e ele acabou vetado da prova. A causa oficialmente divulgada foi uma “virose”.

Paul di Resta, afastado da F1 desde 2013 e sem qualquer tipo de experiência com o bólido, assumiu às pressas a função e, mesmo sem caber direito no habitáculo – o escocês tem 1,85 metro de altura, enquanto Massa mede 1,66 metro -, conseguiu fugir do último posto na grelha, postando-se em 19º e penúltimo. Todavia, não pôde completar os 70 giros previstos, abandonado devido a um vazamento de óleo.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Carlos Alberto Junior

    Obrigado.

  • Annibal Magalhaes

    Apesar de interrompido, San Marino/1982 até Inglaterra/2017 é o recorde de participações consecutivas de um país na F-1. Cabe mencionar que a ausencia do Button em dois GPs em 2005 (devido a punição a equipe BAR) quebrou a sequencia inglesa. Eles se valem da participação do Coulthard . . . mas ele é escocês . . .