Schumacher: o último piloto a vencer um GP com câmbio manual na F1

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Você já deve saber que o GP da Bélgica de 1992 representou o primeiro dos impressionantes 91 triunfos de Michael Schumacher na F1. Num misto de competência, senso tático e sorte, o alemão driblou o amplo favoritismo das Williams no templo de Spa-Francorchamps e, num rápido de intervalo de ano após sua estreia, na mesma praça, experimentou o gosto de subir ao degrau mais alto do pódio na principal categoria do automobilismo mundial.

Aquela vitória, que completa 23 anos no próximo domingo (30), significou ainda o único páreo da temporada não dominado pelas gigantas da época, Williams e McLaren. Ok, também não há tanta novidade assim nessa informação.

Apesar de ter um ótimo chassi desenhado por Rory Byrne, Benetton deixava a desejar em relação às rivais no quesito tecnologia em 92. Ausência do câmbio automatizado é reflexo disso
Apesar de ter um ótimo chassi desenhado por Rory Byrne, Benetton deixava a desejar em relação às rivais no quesito tecnologia em 92. Ausência do câmbio automatizado é reflexo disso

O que poucas pessoas se dão conta, de verdade, é que Schumacher, logo ele, tão criticado por “não ter sido campeão em uma época em que os carros eram mais difíceis e os pilotos, obrigados a fazer punta-taco e tirar as mãos do volante para trocar marchas”, foi o responsável, ao cruzar a linha de chegada à frente, por obter a última láurea de um monoposto dotado de câmbio manual na história da F1. Afinal, não é segredo que o período do fim dos anos 80 até 1993, quando um novo regulamento restringiu uma série de auxílios eletrônicos, foi o de desenvolvimento tecnológico mais célere já visto em seis décadas e meia de série.

Entre controle de tração, suspensão ativa e acelerador ride-by-wire, todos elementos que seriam vetados pela FIA num curto período, a transmissão automatizada (conhecida popularmente como semiautomática) se tornou uma inovação perene, presente até hoje em todos os carros que alinham no grid. O Projeto Motor já explicou como funciona o sistema neste artigo aqui.

Criada pela Ferrari em 1989 e aperfeiçoada pela Williams em 91 (com a padronização das trocas sequenciais), a caixa automatizada virou obsessão entre as esquadras de maior porte. Em 92, Williams, McLaren e Ferrari já dispunham da tecnologia. A Benetton, quarta força da época no que tange ao orçamento, ainda não tinha bala na agulha para tal e, por isso, teve que se virar o ano todo com um tradicional câmbio manual transversal de seis velocidades, desenvolvido por sua própria divisão esportiva.

Infelizmente não encontramos nenhuma passagem a bordo do heptacampeão durante a etapa belga para mostrar ao nobre leitor, mas não tem problema. N’outro vídeo, gravado durante as primeiras voltas do exigente GP da Austrália da mesma temporada, é possível observar as trocas manuais praticadas por ele e seu companheiro, o britânico Martin Brundle. Confira:

Sobre o GP belga em si, alguns fatos ajudaram a torná-lo um pouco mais especial. Antes mesmo de os trabalhos iniciarem, o histriônico dono da não menos patética Andrea Moda, Andrea Sassetti, foi preso in situ por emitir notas fiscais frias para comprovar pagamentos a fornecedores. Já contamos essa história. Não acabou por aí. Durante os treinos livres, Erik Comas sofreu um forte acidente na Blanchimont e ficou desacordado, dentro do habitáculo da Ligier, com o pé cravado no acelerador. Ayrton Senna percebeu o perigo ao passar pelo local e, num gesto até hoje lembrado por seus fãs, parou e desceu correndo do Mclaren MP4/7 para desligar o motor do bólido do francês e evitar um possível incêndio.

Após a largada, o favoritismo do líder do campeonato, Nigel Mansell, parecia inabalável, até que a chuva – sempre ela – começou a conspurcar a campanha do inglês. Primeiro foi Senna quem tentou o pulo do gato, ao não parar para colocar pneus sulcados apostando no fim breve do aguaceiro. A aposta do brasileiro se mostrou errônea e, em poucas voltas, o tricampeão passou a ser carta fora do baralho.

Triunfo de 23 anos atrás foi o primeiro de um total de seis que Schumacher conquistaria em Spa, recorde absoluto no templo belga
Triunfo de 23 anos atrás foi o primeiro de um total de seis que Schumacher conquistaria em Spa, recorde absoluto no templo belga

Todavia, chegou dado ponto em que a precipitação cessou, levando o asfalto a secar rapidamente. Na volta 30, Schumacher, que ocupava então o terceiro posto, atrás das Williams de Mansell e Riccardo Patrese, pisou fora do trilho e escapou na saída da Stavelot, danificando os arcos de seu B192. O germânico teve de ir aos boxes para trocar a borracha e, aproveitando o ensejo, decidiu arriscar sair dali já com um novo jogo de compostos lisos. O momento se provou o ideal: em três giros, o teutônico baixou de 24s4 para 5s7 a diferença em relação ao líder, alcançando a dianteira quando os demais competidores enfim rumaram aos pits para seguir sua estratégia.

Em condições normais, Mansell e Patrese teriam equipamento de desafiar Schumacher, mas ambos sofreram com problemas no escapamento e tiveram de recuar, deixando a vitória livre para aquele impetuoso jovem de 23 anos. Mal sabiam todos que aquele seria apenas o princípio do maior domínio já exercido por um ás em 65 anos de F1. E que começava em grande estilo: vencendo no traçado mais desafiador da temporada e batendo rivais com carros mais potentes e tecnológicos, embora a bordo de um Benetton muito bem acertado em relação ao chassi.

Foi assim, portanto, que o tão aclamado câmbio manual viveu seu último facho de brilho na categoria. Logo pelas mãos do maior vencedor de sua história. Nada mais justo. Muito além de iniciar um extenso legado, Schumacher mostrou naquele GP da Bélgica de 92 que seria um dos grandes, independentemente de que tipo de equipamento usasse para tal.

Assista à corrida na íntegra (em português) aqui (primeira de sete partes):

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Gustavo Machado

    A última equipe a usar câmbio manual na F1 foi a Forti Corsi, em 1995. A esquadra itálica tinha Pedro Paulo Diniz e Roberto Pupo Moreno como seus pilotos.

  • Gustavo Segamarchi

    Que matéria MARAVILHOSA, Projeto Motor! O texto está uma delícia de ler, me prendeu do começo ao fim.

    Bom, vamos à minha opinião: Acredito que o câmbio manual deveria retornar à F1. A morte desse tipo de transmissão, acredito ser um dos fatores responsáveis pelo atual declínio da categoria.

    Ver o piloto trabalhando, ali, para trocar as marchas, é uma coisa que nos transmite emoção, onde mostrava claramente que o controle da máquina só dependia do piloto.

    Esse atual grupo de estratégia da F1 vive falando em melhoras para o esporte, mas não vejo ninguém sequer, falando sobre o retorno dos câmbios manuais.

    A F1 tem que voltar a ser saudosista, mas, com tecnologia.

    Um abraço.