Se você é um coadjuvante na F1, a Áustria é o lugar certo para mostrar serviço

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Mesmo sem a suntuosidade de Mônaco e Abu Dhabi ou a tradição de Itália e Bélgica, o GP da Áustria é um dos eventos mais divertidos no atual calendário da F1. Primeiro pela rica história do Osterreichring (ou Red Bull Ring, como hoje é chamado), onde nomes como Jochen Rindt e Gerhard Berger estrearam na categoria. Depois, e não menos importante, pela peculiaridade na lista de vencedores.

Recebendo o GP desde 1970 (com paralisações entre 1988 e 1996 e 2004 e 2013), o Red Bull Ring é um sítio onde os coadjuvantes podem viver um dia de glória. Para atestar o caso, basta analisar rapidamente a lista de quem já ganhou por lá: Vittorio Brambilla, Jo Siffert, John Watson, Jean-Pierre Jabouille, Eddie Irvine. Bons pilotos, fato, mas nenhum que tenha sido um frontrunner usual no páreo – Watson e Irvine, sem muito sucesso, chegaram a flertar com o grupo dos primeiros.

Não há exatamente um motivo para que a corrida tenha permitido tantos vencedores improváveis. Às vezes se deu pela chuva, outros por quebras no pelotão principal. Há também o fato de, nos anos 70 e 80, a disposição do traçado, com curvas de raio longo e de alta velocidade, permitir um grande número de manobras.

E ainda que o desenho tenha sido alterado por Hermann Tilke nos anos 90, essa tradição segue firme na era moderna da F1. No ano passado, por exemplo, Felipe Massa, pela primeira vez em seis temporadas, obteve uma pole position justamente no Red Bull Ring. Para se ter uma ideia, o paulistano não largava do posto de honra no grid desde o GP do Brasil no distante ano de 2008.

No geral, o GP da Áustria produz corridas boas e imprevisíveis. Por conta disso, o Projeto Motor enumerou cinco edições em que esta máxima prevaleceu, digamos, com maior plenitude. Confira abaixo.

1982 – De Angelis segura Rosberg por 50 milésimos

De Angelis e Rosberg cruzam a linha de chegada juntos (Divulgação)
De Angelis e Rosberg cruzam a linha de chegada juntos (Divulgação)

Elio de Angelis sofreu boa parte de seu tempo na Lotus. O experimentalismo de Colin Chapman nem sempre se traduzia em sucesso nas pistas e, durante as temporadas de 80 e 81, o italiano ficou relegado ao pelotão intermediário no grid.

Em 1982, contudo, Chapman concebeu o 91, primeiro chassi da Lotus com suspensão ativa e um carro relativamente competitivo em pistas de alta velocidade. Foi assim que De Angelis obteve sua primeira vitória na F1, com uma dose de drama: o romano teve que afrontar a pressão de Keke Rosberg, da Williams, até os últimos metros do percurso. Venceu por incríveis 50 milésimos.

1977 – Na chuva, Jones vence a primeira na carreira

Jones com o Shadow DN8 (Divulgação)
Jones com o Shadow DN8 (Divulgação)

Devido à rivalidade com Nelson Piquet no início dos anos 80, o nome de Alan Jones é lembrado com pouca euforia no Brasil. De qualquer forma, a primeira vitória do australiano na F1 foi uma das mais impressionantes na década de 70.

À época piloto da mediana Shadow, Jones se aproveitou do piso molhado nas primeiras voltas para superar nada menos que 12 adversários, pulando de 14º no grid para segundo no 16º giro. Com a secagem do asfalto, o australiano recuou e ficou à espera de um erro do líder James Hunt, da McLaren, para tomar a ponta.

Foi o que aconteceu: na 44ª volta, o motor Cosworth do M26 explodiu e Jones conquistou a primeira vitória na carreira e a única para a coadjuvante Shadow na F1.

1980 – Jabouille conquista última vitória

Jabouille - Austria-80
Jabouille comemora vitória no Osterreichring (Sutton Images)

Jean-Pierre Jabouille já tinha um nome firmado no endurance quando foi convidado pela Renault para desenhar e desenvolver o primeiro carro turbo da F1, no fim dos anos 70. No entanto, o parisiense nunca converteu seu pioneirismo técnico em resultados concretos. Em 49 GPs disputados na F1, completou apenas dez e marcou pontos em três.

Duas destas três ocasiões foram vitórias. Ele venceu o GP da França de 79 (sim, aquele da clássica briga entre Gilles Villeneuve e René Arnoux) e o GP da Áustria de 80. No último caso, Jabouille se aproveitou da alta altitude do Osterreichring – que favorecia o motor turbocomprimido da Renault – para dominar a Williams de Alan Jones e obter seu último triunfo na carreira – e seus únicos pontos também naquele campeonato. Como de praxe na Áustria, a diferença foi apertada: 0s82.

1976 – Watson alcança o único triunfo da Penske na F1

Watson segura Hunt e Nilsson no GP da Áustria de 76 (Divulgação)
Watson segura Hunt e Nilsson no GP da Áustria de 76 (Divulgação)

Com apoio do Citibank, a Penske, uma das equipes clássicas na Indy, integrou o grid da F1 entre 1974 e 1976. Sua operação era restrita a uma inscrição – primeiro Mark Donohue, depois John Watson –, mas seus carros eram relativamente competitivos, em especial o PC4, modelo fabricado para a segunda parte da temporada 1976.

O auge técnico do modelo se deu no GP da Áustria. Watson posicionou o PC4 no segundo colchete do grid e, após um duro duelo contra o March da Ronnie Peterson nas primeiras voltas, levou a equipe americana à vitória no Osterreichring. Curiosamente, o triunfo veio um ano depois da morte de Donohue, antigo piloto nº 1 do time, no mesmo circuito. No fim de 1976, a Penske se retirou da F1.

1975 – Brambilla vence, mas se empolga e bate após bandeira quadriculada

Um dos personagens mais folclóricos na história da F1, o italiano Vittorio Brambilla sempre foi conhecido por ser um volante rápido, porém inconstante. Muitas vezes, seu excesso de violência na direção prejudicava o equipamento – em geral, de nível intermediário.

Na edição 1975 do GP da Áustria, porém, tudo deu certo para Brambilla. Em prova disputada sob temporal, o italiano da March superou os líderes Niki Lauda, da Ferrari, e James Hunt, da McLaren, nas primeiras voltas e obteve sua única vitória na carreira, com 27s de folga para o segundo colocado.

Por causa da forte chuva, Brambilla mal viu a bandeira quadriculada, espatifando seu 751 no muro de proteção pouco depois do fim da prova. Em seguida, numa das cenas mais pitorescas da história da F1, o italiano completou sua volta de triunfo com a seção dianteira do March totalmente danificada (o estrago pode ser no vídeo acima).

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.