Seis motivos pelos quais Monza é um local único para a F1

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A semana foi marcada por uma notícia que animou os fãs mais tradicionais da F1: o circuito de Monza renovou seu contrato com a categoria e está garantido como sede do GP da Itália pelo menos até a temporada de 2024.

A novidade é importante não só por manter no calendário um país com profundas raízes na categoria, mas também por garantir um circuito que ocupa posição única na história da F1.

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Monza é um raro local que carrega uma bagagem de vasta tradição, acontecimentos históricos, um desafio técnico diferente e uma torcida apaixonada.

Mas por que a pista é tão cultuada tanto pela torcida da F1 como pelos próprios membros da categoria? Listamos abaixo seis motivos pelos quais Monza é, e sempre será, um local único para a F1.

1 – Monza, a “verdadeira casa” da F1?

Ao longo de suas décadas de existência, a F1 construiu uma relação especial com algumas pistas que ainda compõem o calendário. Mônaco, Silverstone, Spa-Franchorchamps e até mesmo Interlagos são alguns dos templos sagrados da categoria, palcos de momentos que entraram para a história. No entanto, Monza se destaca não só pelos acontecimentos marcantes que lá ocorreram, mas também por sua continuidade.

Monza está no calendário da F1 desde a temporada de inauguração do Mundial, em 1950, sendo o palco da sétima corrida oficial realizada. A pista ficou de fora da categoria somente por um ano, em 1980, ainda como consequência do acidente que culminou na morte de Ronnie Peterson, dois anos antes. Depois disso, o GP da Itália retornou à sua casa, de modo que Imola, única outra sede da corrida, passou a sediar a prova com nome de GP de San Marino.

Torcida quer “Monza para sempre” na F1. Concorda? (Dan Istitene/Getty Images)

No total, já foram realizadas 69 edições do GP da Itália, sendo 68 em Monza. Nenhum outro circuito recebeu a F1 por tantas vezes.

Silverstone, por exemplo, ocupa posição privilegiada por ter sido palco da corrida de número um da história do Mundial. Contudo, o local teve suas idas e vindas, já que o GP da Grã Bretanha fez visitas a Aintree, nas décadas de 50 e 60, e a Brands Hatch até os anos 80.

Spa-Francorchamps também compôs o calendário da temporada inaugural, mas se revezou como palco do GP da Bélgica com pistas muito menos cultuadas, como Nivelles e Zolder. Já Mônaco não esteve presente entre 1951 e 1955, enquanto que Interlagos somente se juntou à festa na década de 70 – tendo ainda passado praticamente todo o período dos anos 80 com o GP do Brasil sediado em Jacarepaguá.

Com sua assiduidade, Monza já presenciou vitórias marcantes de todos os grandes campeões da história da F1 – Juan Manuel Fangio, Jim Clark, Jackie Stewart, Niki Lauda, Nelson Piquet, Alain Prost, Ayrton Senna, Michael Schumacher, Sebastian Vettel e Lewis Hamilton. Silverstone pode ter sido o primeiro lar, mas Monza tem fortes argumentos a seu favor para ser considerada a verdadeira casa da F1.

2 – Um desafio técnico único

Em todos estes anos, Monza evidentemente precisou passar por uma série de adequações de segurança para se manter propícia para a F1. No entanto, a pista ainda assim conseguiu manter a mesma essência que representa um desafio técnico único no calendário.

A versão do traçado que recebeu a F1 no GP de 1950 é muito parecida com o que se vê atualmente. Algumas curvas ficaram mais estreitas e outras foram remodeladas completamente (como a Parabolica), sendo que agora a pista está preenchida por chicanes para conter a velocidade.

Claro, houve momentos em que Monza exigia praticamente o acelerador cravado de forma insana o tempo inteiro, como na versão da pista que contava com o lendário trecho do oval inclinado. No entanto, à sua maneira, Monza entrega o que nenhuma outra pista faz nos dias atuais.

Equipes usam asas que geram menos arrasto aerodinâmico em Monza (Ferrari)

84% da distância total da volta é preenchido com o acelerador ativado ao máximo, sendo que as longas retas proporcionam algumas das velocidades mais altas vistas durante o ano (em 2018, Sergio Pérez atingiu 362,5 km/h). Assim, as equipes levam à corrida um pacote aerodinâmico praticamente exclusivo para Monza, com a intenção de diminuir o arrasto nas retas, maximizar a eficácia e refrigeração dos freios e proporcionar o equilíbrio ideal entre velocidade final e equilíbrio nas curvas.

Na edição de 2018, Kimi Raikkonen registrou a volta mais rápida da história da F1 durante a conquista de sua pole position. Em uma era em que circuitos de rua e “Tilkódromos” invadem a F1, a presença de Monza representa também um respiro técnico de um desafio diferente.

3 – Uma corrida com torcida apaixonada

Se você prestar atenção nas declarações dadas por pilotos e equipes antes do GP da Itália, perceberá que existe um discurso que é praticamente unânime: Monza, de fato, traz uma corrida com clima único graças à torcida apaixonada pela Ferrari.

O entusiasmo vindo das arquibancadas não é uma exclusividade dos italianos. No entanto, o fato de a paixão ser destinada à única equipe presente desde a primeira edição do Mundial deixa o clima festivo mais constante, sem depender de uma boa fase de um determinado piloto.

(Ferrari)

Por exemplo, as corridas realizadas na Espanha tiveram barulho intenso da torcida na era de sucesso de Fernando Alonso. Porém, na medida que o espanhol foi ficando mais distante da posição de protagonista, a excitação da massa também ia se esvaindo.

Atualmente, a torcida holandesa de Max Verstappen transforma provas específicas do calendário em uma enorme festa laranja. Isso só foi visível com a ascensão meteórica do jovem piloto da casa.

O GP da Itália é a única prova que atrai uma torcida genuína em favor de uma equipe. Goste ou não da Ferrari, isso por si só representa um diferencial e traz um molho a mais para as corridas.

4 – Monza é palco de momentos marcantes…

Com tanto tempo de F1, Monza naturalmente é um local em que aconteceram alguns eventos que entraram para a história da categoria. O primeiro campeão mundial foi coroado por lá – Giuseppe Farina, até hoje o único piloto a levar o título em sua corrida de casa.

A natureza ultraveloz do circuito também proporcionou várias corridas eletrizantes. Nisso, destacam-se duas edições: em 1965, ocorreram pelo menos 40 trocas de líder até que Jackie Stewart obtivesse a vitória; já em 1971, Peter Gethin se sobressaiu em uma disputa insana, quando a diferença dele para o quinto colocado, Howden Ganley, foi de apenas 0s6 (sim, você não leu errado: esta foi a diferença do vencedor para o quinto colocado da prova).

Em 1976, Niki Lauda deu uma das maiores demonstrações de superação que a F1 já viu. Seis semanas antes, o austríaco havia tido um acidente de seríssimas proporções na Alemanha, quando sofreu graves queimaduras que afetaram para sempre a sua vida. Em meio às dificuldades, Lauda completou a corrida em quarto lugar e manteve vivas suas chances de título.

Schumacher anunciou sua primeira aposentadoria em Monza-2006 (Ferrari)

Doze anos mais tarde, a Ferrari viveu uma história digna de roteiro de cinema. Na primeira edição do GP da Itália após a morte de Enzo Ferrari, o time italiano esperava fazer figuração diante de uma McLaren que sobrava nas mãos de Ayrton Senna e Alain Prost. No entanto, uma quebra do francês e um enrosco do brasileiro com um retardatário abriram o terreno para que Gerhard Berger e Michele Alboreto conquistassem uma dobradinha inesperada, o que representou a única derrota da McLaren na temporada de 1988.

Por falar em Ferrari, a Scuderia comemorou vitórias importantes de Michael Schumacher na construção de um dos maiores reinados que a F1 já viu. As edições de 1996, 1998, 2000 e 2003 representaram passos importantes para o alemão e deixaram os tifosi em estado de êxtase. Foi ali também que a parceria entre o heptacampeão e o time chegou ao fim: após vencer em 2006, Schumacher anunciou que deixaria a Ferrari e se aposentaria das pistas.

Porém, a Ferrari também se deparou com derrotas doloridas em Monza, como em 1990, quando Senna bateu Prost no ápice da luta pelo título daquele ano, ou nas duas edições mais recentes, quando Lewis Hamilton emendou vitórias consecutivas com a Mercedes.

5 – … e de tragédias

Infelizmente, nem só de momentos positivos vive o automobilismo. As corridas têm como traço histórico uma mescla entre intensidade esportiva e acontecimentos trágicos, e, obviamente, Monza não foge a essa implacável regra das modalidades a motor.

Alberto Ascari, um dos grandes ases dos primórdios do Mundial de F1, perdeu sua vida depois de um acidente durante os preparativos para os 1000 km de Monza, em 1955. No local da fatalidade, foi construída uma chicane na versão moderna do traçado, sendo que o ponto foi batizado em homenagem ao primeiro bicampeão da história da F1.

Poucos anos mais tarde, em 1961, Wolfgang von Trips chegou a Monza com o plano de se tornar o primeiro alemão a conquistar um título na F1. Aquela edição do GP da Itália terminou em tragédia: Von Trips se envolveu em uma colisão com Jim Clark, o que fez com que seu carro decolasse em direção ao público que assistia à prova nos contornos da entrada da Parabolica. O incidente matou o piloto alemão e mais 15 torcedores.

A aproximação da curva Parabolica viu outra fatalidade em 1970. Jochen Rindt, líder daquele campeonato, testava uma versão sem asas do modelo Lotus 72C, o que representava um menor arrasto aerodinâmico nas retas. Porém, um problema de freio fez com que o carro guinasse para a esquerda e colidisse com o guard-rail, matando o piloto austríaco – que, posteriormente, se tornaria o único campeão póstumo que a F1 já viu.

Ronnie Peterson também integra a lista de talentos que perderam a vida em Monza. Em uma confusão durante a largada na edição de 1978, o sueco foi vítima de um acidente múltiplo que também envolveu Riccardo Patrese e James Hunt. Peterson foi retirado do carro com vida, com leves queimaduras e graves lesões nas pernas, mas faleceu no dia seguinte devido a uma embolia.

Por fim, uma outra tragédia relativamente mais recente. Na edição do GP da Itália de 2000, uma batida coletiva envolveu Heinz-Harald Frentzen, Rubens Barrichello, Jarno Trulli, David Coulthard e Pedro de la Rosa, e uma roda do carro do alemão da Jordan voou para trás do guard-rail. A peça atingiu o fiscal de pista Paolo Gislimberti, que morreu pouco depois – a primeira fatalidade ocorrida em um fim de semana de GP desde a morte de Ayrton Senna, seis anos antes.

6 – Um local especial para a torcida brasileira

Barrichello obteve a última vitória brasileira na F1 em 2009 (Ferrari)

Os pilotos brasileiros viveram momentos de brilho no circuito de Monza. Emerson Fittipaldi conquistou no local uma vitória icônica em 1972, o que resultou no primeiro título mundial de um piloto do país.

Nelson Piquet venceu no circuito por três vezes, incluindo na campanha de 1987, quando liderou uma dobradinha com Ayrton Senna e deu um passo importante rumo à conquista do campeonato daquele ano.

Senna também venceu por suas oportunidades: em 1990, na já citada disputa contra Alain Prost, e em 1992, que representou a última vitória da combinação icônica de Senna-McLaren-Honda.

Por fim, Rubens Barrichello também escreveu seu nome no rol de vencedores em Monza. Nas duas primeiras, em 2002 e 2004, triunfou a bordo da Ferrari e se aproximou do vice-campeonato naquelas temporadas. Em 2009, com a Brawn GP, venceu aquela prova que é até hoje o último triunfo de um brasileiro na F1.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.