Sergey Zlobin: a surreal história do primeiro russo a pilotar um F1

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Pode parecer mentira, mas não é: a Rússia se tornou um dos países que mais tem colocado pilotos na F1 nos últimos anos. Sergey Sirotkin, escolhido pela Williams para 2018, será o terceiro representante da nação a correr na categoria somente na atual década.

Isso é um número e tanto, especialmente se considerarmos que apenas França (com cinco pilotos) e Reino Unido (com quatro) revelaram mais nomes de 2010 para cá. Claro, você pode pensar, há inúmeros fatores que explicam o advento russo, sobretudo o financeiro. De qualquer forma, o cenário mostra que a Rússia chegou para ficar na F1.

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O curioso é que, há até pouco tempo, o panorama era quase o oposto. O país demorou para surgir no automobilismo de fórmula internacional, sendo que um russo só colocou as mãos em um carro de F1 contemporâneo em 2002. E o responsável pelo feito foi um outro Sergey, o Zlobin, cuja história envolveu testes apagados, uma polêmica com rachas na rua e até uma tentativa de assassinato.

Pioneiro russo na F1

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Zlobin posa felizão com as cores da Minardi: bem ou mal, ele fez história em seu país

Nascido no dia 29 de maio de 1970, Sergey Zlobin iniciou sua trajetória no automobilismo em seu país natal de forma tardia, aos 27 anos de idade. O moscovita pingou por algumas categorias de base sem grande destaque, incluindo participações esporádicas (e apagadas) na F3000 Europeia.

Acontece que no automobilismo existe uma coisa chamada timing, que pode consagrar carreiras ou destruí-las. No início dos anos 2000, a Rússia estava firme em seu plano de receber a F1, o que já contava com a bênção de Bernie Ecclestone para um GP em 2003, em um novo circuito a ser construído em Moscou.

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Portanto, foi natural que empresas da Rússia passassem a querer se envolver com a categoria de alguma forma. Uma delas foi a Gazprom, gigante do setor de energia, que buscava patrocinar uma escuderia e levar Zlobin a tiracolo. Um mero adesivo no carro não bastava: o plano era fazer história e, com um dos seus ao volante, mostrar que o fechado mundo da F1 também pertencia aos russos.

Patrocínio da Gazprom chegou à Minardi no fim de 2002
Patrocínio da Gazprom chegou à Minardi no fim de 2002

O alvo ideal passou a ser a Minardi, que, como era corriqueiro, vivia mal das pernas financeiramente. As conversas começaram na segunda metade de 2002, costuradas pela empresária Oksana Kossachenko (aquela mesma que acompanhou Vitaly Petrov em sua passagem pela F1).

A ideia era depositar US$ 9 milhões à Minardi tendo em troca um destaque na região da carenagem do motor, mais a chegada de Zlobin em longo prazo. E o momento era bastante oportuno, já que Alex Yoong, mesmo com o apoio financeiro que trouxera, via sua vaga de titular em risco por seu desempenho fraco.

Dito e feito: o patrocínio foi fechado já para o GP da Hungria, o primeiro com a presença da Gazprom na carenagem do PS02. Faltava, então, dar a Zlobin a tão aguardada oportunidade com um F1, o que veio a ocorrer pouco depois.

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No dia 3 de setembro de 2002, Zlobin se tornou o primeiro piloto russo a fazer um teste oficial com um carro de F1. O local escolhido foi Fiorano, pista particular da Ferrari, a bordo de um PS01, do ano anterior.

Ao todo, Sergey deu 55 voltas pela curta pista, registrando 1min09s464 como melhor tempo. Porém, ele teve de dividir as tarefas com Matteo Bobbi, que guiou naquele dia justamente para servir de referência ao novato russo – e o italiano acabou por ser 1s3 mais rápido, mesmo completando 30 voltas a menos. Àquela época, o recorde da pista, de Michael Schumacher, era de 58s6.

Uma quinzena mais tarde, Zlobin teve repeteco, desta vez em Mugello. Novamente com um carro de 2001, ele dividiu a pista com os pilotos de testes da Ferrari, e, após 45 voltas, não conseguiu ficar a menos de 13s5 do melhor tempo daquele dia, de Luca Badoer.

Mas, na verdade, os resultados pouco importavam. O que contava era que a grana da Gazprom caiu na conta da Minardi, que, assim, passou a ter futuro garantido na F1, podendo organizar seu 2003 com um pouco mais de tranquilidade – e, quem sabe, com Zlobin dentro desses planos. Mas não foi bem assim…

Empecilho maior nos planos

Se ainda havia alguma dúvida, Gazprom e Minardi fizeram questão de saná-las. Em novembro de 2002, após o desfecho da temporada da F1, um evento foi realizado em Moscou para celebrar a parceria, o que incluiu uma visita de Giancarlo Minardi (que ocupava cargo decorativo após ter vendido a equipe) ao Kremlin como convidado de honra. A Minardi queria estreitar de vez os laços com a Rússia.

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A Minardi quis ficar “mais russa” entre 2002 e 2003

Mas onde entra Zlobin nisso tudo? Bem, aí é que está: se houve a ideia de colocá-lo como titular da equipe, ela foi freada logo nos estágios iniciais pelo fato de o piloto não ter conseguido a superlicença da FIA. E olha que, naquela época, não havia critérios rígidos como hoje em dia – a entidade decidia de forma arbitrária, somente com base na experiência prévia e na quilometragem acumulada a bordo de um F1. E mesmo assim o russo não foi aprovado.

Claro que, superlicença à parte, havia vários outros problemas. O russo era demasiado cru para sua idade, aos 32 anos. Em 2002, quando conciliou os testes da F1 com provas da F3000 Europeia, era frequentemente muito mais lento do que todos seus concorrentes. Além disso, Zlobin não falava um “a” de inglês ou italiano, sendo que sua comunicação com os engenheiros tinha de passar por um tradutor. Aí fica complicado.

Assim, Zlobin teve de se conformar com o posto de piloto de testes. Mais uma sessão foi para a sua conta em Valência, ainda em novembro de 2002, quando virou, respectivamente, 3s1 e 2s7 mais lento que Bobbi e Franck Montagny, que guiaram o mesmo carro nas mesmas circunstâncias.

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Teste coletivo em Valência não terminou bem para Zlobin

Polêmica com racha – e uma derrota bizarra

Mesmo sem vaga no grid da F1, Zlobin havia adquirido notoriedade no cenário automobilístico da Rússia – e isso o colocou em certas saias justas, se é que podemos classificar assim.

No início de 2003, ele foi repreendido pela polícia após ter sido flagrado em um racha em Moscou. Mas vamos contextualizar, porque a bizarrice não para por aí: pouco depois de fazer seus primeiros testes na F1, Zlobin foi desafiado, ao vivo em plena televisão, por dois pilotos ditos especialistas em corridas de carro ilegais nas ruas.

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Zlobin passou a ser uma figura visada na Rússia

É um absurdo pensar em um piloto profissional, que sonha em chegar à F1, aceitando se submeter a esse tipo de situação, certo? Não para Zlobin. Alegando “nunca negar um desafio”, o russo mergulhou nessa. O traçado, montado próximo ao Kremlin, só foi revelado aos competidores em cima da hora, a fim de evitar chamar a atenção da polícia. O horário também queria deixar as coisas mais discretas, às 5h locais.

Acontece que os “rivais” de Zlobin conheciam o local como a palma da mão. Assim, não foi surpresa que eles tenham superado o piloto profissional na disputa, completando a contenda em cerca de 16 minutos.

O problema foi que o tempo passou, passou… E nada de Zlobin chegar. Ele só veio a cruzar a linha de chegada nove minutos mais tarde. Por quê? O juízo veio à cabeça: o piloto alegou que, na verdade, respeitou os semáforos e sinalizações para evitar acidentes. Afinal, ele mesmo admitiu que, se houvesse um contratempo maior, sua carreira estaria acabada. Apesar de tudo, Zlobin pediu revanche, desta vez em um autódromo, para mostrar “quem manda”. Isso nunca aconteceu, e o russo saiu da história com uma derrota curiosa e um puxão de orelha da Minardi.

O fim da passagem curta pela Minardi

Mas voltemos à F1. Sem poder sonhar em ter Zlobin como titular, a relação entre Gazprom e Minardi estremeceu. O russo, contratado com pompa e circunstância como piloto de testes, não participou de uma atividade oficial sequer em 2003.

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Primeira passagem de Zlobin pela Minardi durou pouco

Ainda em era de treinos irrestritos, a FIA fez a seguinte proposta para aquele ano: as equipes não passariam de 10 dias de testes durante a temporada (entre março e outubro); em troca, ganhariam um treino livre extra nas manhãs de sexta-feira nos GPs, de duas horas, onde poderiam incluir um terceiro carro.

A Minardi embarcou na ideia, ao lado de Renault, Jaguar e Jordan, enquanto que as demais mantiveram a intenção de testar ilimitadamente durante o ano. Porém, mesmo assim, Zlobin ficou na mão. Apenas Matteo Bobbi e Gianmaria Bruni foram escalados para os treinos extras ao lado dos titulares, o que deixava claro que a posição do russo era, àquela altura, meramente decorativa.

Assim, a Gazprom não realizou o pagamento previsto para aquela temporada, e a parceria acabou desfeita antes do GP da Áustria, a sexta etapa do campeonato. O pobre coitado Zlobin, obviamente, se mandou junto.

Mas pensa que acabou? Nada disso. Mais de um ano se passou, e, em 2004, outra empresa russa se dispôs a patrocinar a Minardi e levar Zlobin junto. Seu nome? SMP Commercial Bank. Se você não fez a associação, trata-se do mesmo banco que está por trás do programa que financiou a carreira de Sirotkin rumo à vaga na Williams em 2018.

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Zlobin estava de volta ao jogo, e o teste que marcaria o retorno triunfal foi agendado para setembro de 2004, em Vallelunga. O primeiro dia foi mais concentrado em pegar novamente o jeito da coisa, afinal, fazia dois anos que ele não guiava um F1.

O problema é que, no dia seguinte, quem esteve em ação com a Minardi foi Tiago Monteiro, que, coincidentemente, também não pilotava um F1 havia duas temporadas. E o português destroçou o tempo de Zlobin: foi 3s1 mais rápido, mesmo tendo andado muito menos.

Foi a gota d’água para o Sergey pioneiro na F1. O SMP Bank permaneceu na Minardi em 2005, temporada derradeira do time, mas Zlobin nunca mais deu as caras.

Zlobin voltou a testar em 2004, mas não passou disso
Zlobin voltou a testar em 2004, mas não passou disso

A partir disso, Zlobin se mandou para o endurance e saiu do noticiário mainstream, mesmo com um título do WEC na classe LMP2. Seu nome voltou a ser assunto em 2007, em mais um caso de polícia.

Em uma manhã de segunda-feira como outra qualquer em Moscou, Zlobin manobrava seu Mercedes G500 e, quando andava em ré, sentiu uma explosão de uma bomba. O ocorrido foi grande o suficiente para danificar o assoalho do carro e machucar as pernas do piloto, que, mesmo assim, deixou o veículo por conta própria e chamou a polícia.

As autoridades locais investigaram o episódio como tentativa de homicídio, mas não houve uma conclusão para o caso. O próprio Zlobin não fazia ideia de quem havia tentado tirar sua vida, nem por quê.

Mas e como ficaram os russos na F1? Vitaly Petrov estreou em 2010 e deixou a categoria com um pódio; o país, depois do fiasco do natimorto GP de Moscou, enfim ganhou sua etapa no calendário, em Sochi; Daniil Kvyat também teve seus momentos de destaque entre 2014 e 2017, com um segundo e um terceiro lugar no bolso. Agora, Sirotkin chega para espantar a pecha de piloto pagante e fazer barulho. Não é nada mal para um país que, nas décadas anteriores, sequer conseguia colocar um piloto para guiar um F1.

A tradição da Rússia na F1, movida a paixão e dinheiro, está só começando. Se vai longe ou não, impossível dizer agora. Contudo, não deixa de ser curioso lembrar que uma história promissora começou com um personagem para lá de incomum.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Franco

    Muito bom esse artigo. Lembro de em um Especial da Quatro Rodas sobre competições do ano 2003, citar o nome do Zlobin como piloto reserva da Minardi, lembro também de ter lido esses dois “eventos”, o racha e o atentado no jornal EM. Mas nunca tinha lido como esse cara chegou na F1, e o que ele arrumou depois, gostei do texto.
    Outro que vocês poderiam falar também é aquele único húngaro até o momento que guiou um F1:
    Zsolt Baumgartner. Se puder ser na mesma linha desse, vai ser bem válido.

  • Ilmar Fernandes Souza Junior

    É, a Rússia não teve mesmo muita sorte na Fórmula 1…
    Quando os carros de Fórmula 1 ainda eram mais bonitos do que feios, até 2008, o projeto russo de uma corrida e de um piloto local não vingaram…
    Só depois que os carros de Fórmula 1 ficaram feios de vez, em 2009, e quando o sistema de pontuação ficou complicado pra c******, em 2010, é que a Rússia passou a contar com pilotos como o Vitaly Petrov, o Danil Kvyat e, agora, o Sergei Sirotkin, e desde 2014 com uma etapa da categoria, mas no modorrento circuito de rua de Sochi…