Sete valiosas lições que as 24 Horas de Le Mans podem ensinar à F1

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A presença de Chase Carey, diretor executivo da F1, nas 24 Horas de Le Mans do último fim de semana é mais um indício de que a principal categoria do automobilismo mundial está disposta a interagir (e aprender) com outras modalidades para, quem sabe, iniciar um trabalho em conjunto.

O Projeto Motor também estava lá e viu de perto das as ações da maior competição do endurance do planeta. Pudemos observar com atenção algumas das características da prova – então, vamos dar uma forcinha e apontar sete lições valiosas que as 24 Horas de Le Mans poderão dar à F1 no futuro.

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1 – Respeitar a grandeza do evento individual

Le Mans

A F1 já expressou seu desejo em ampliar seu calendário e deixar o Mundial com 25 etapas anuais. Já defendemos aqui no Projeto Motor que mais em sempre significa melhor – um calendário inchado pode saturar a audiência, banalizar a instituição GP e reduzir a importância matemática de cada corrida para o desfecho do campeonato.

As 24 Horas de Le Mans mostram a importância de valorizar um evento individual e torná-lo uma atração à parte, independentemente do campeonato no qual ele está inserido. A prova tem seu próprio público, sua própria tradição e é promovido de maneira independente, o que faz com que se transforme em uma grande ocasião para quem acompanhe as corridas.

Evidentemente, em um campeonato tão numeroso como a F1 isso não seria viável nesses moldes, mas é possível fazer algo que valorize cada etapa individualmente. A categoria possui provas de ampla tradição, sendo que suas histórias deveriam ser mais enaltecidas para que elas se tornem uma grande atração anual. Provas como Silverstone, Monza, Spa-Francorchamps, Mônaco, Montreal, Hockenheim e Interlagos formam a “espinha dorsal” da F1, ou seja, tais etapas deveriam ter uma valorização mercadológica condizente.

2 – Variedade técnica sempre é bem vinda

Toyota GT

Por mais sofisticado e potente que o atual motor da F1 seja, um problema dificilmente será solucionado: a falta de barulho que incomoda o fã mais purista – e qualquer um que aprecie corridas. Inclusive há quem gostaria de chutar para longe as atuais unidades híbridas para trazer de volta o bom e velho V10 aspirado.

Mas como resolver o dilema entre tradição e tecnologia de ponta? Com suas diversas classes, o WEC apresenta soluções interessantes, já que o campeonato oferece carros para todos os gostos.

Os protótipos híbridos da LMP1 possuem toda a sofisticação necessária para despertar o interesse de montadoras em termos de marketing e manter a corrida tecnológica a todo vapor. Como destacou ao Projeto Motor Pascal Vasselon, diretor técnico da Toyota, a tecnologia híbrida representa o caminho natural da indústria automotiva, então o automobilismo de competição não pode ficar alheio a isso.

O regulamento da LMP1 também possui flexibilidade para que cada construtora possa encontrar as soluções técnicas que preferirem – Porsche e Toyota, por exemplo, usam sistemas bastante distintos. Isso cria maior tempero para a disputa entre as fabricantes, ao contrário do que se passa na F1, que, por ora, possui regulamento mais engessado.

Mas há quem não ligue para livros de regras modernos e queiram bólidos que satisfaçam os sentidos mais básicos, sobretudo a audição. Para isso há os simples e barulhentos LMP2 e GTs, que, por mais que não contem com uma tecnologia vanguardista, impressionam os espectadores aos redores da pista. Estar diante do Porsche 911 RSR rasgando as retas de Le Mans com seu motor estridente e agudo era como apreciar uma boa música para os ouvidos.

Como a F1, que não possui classes distintas, poderia resolver isso? Abrir o regulamento a soluções diferentes de tecnologia híbrida já poderia ser um bom começo. Além disso, por que não permitir que as equipes usem, caso queiram, motores mais antigos? Seria uma opção que poderia baratear custos e variar o grid, inclusive agradando aos fãs que sentem falta de motores ensurdecedores.

3 – Maior abertura ao público em termos técnicos

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A corrida pelo desenvolvimento técnico é uma das principais características da F1 em sua história. Justamente por isso, a categoria criou uma espécie de casca, em que todo e qualquer segredo dos carros precisam ser escondidos a sete chaves.

Mas isso ganhou proporções de exagero. Com medo de entregar de mão beijada suas soluções à concorrência, as equipes da categoria vivem cercadas por uma enorme bolha, o que deixa de fora justamente aqueles que mais deveriam ter acesso à F1: os fãs.

Le Mans, neste caso, mostra um desapego válido. As inspeções técnicas são realizadas no centro da cidade; o acesso de público e jornalistas às garagens é mais livre; há carros expostos nas áreas destinadas aos fãs.

Assim, o público, que desembolsou bons euros e abriu mão de um fim de semana para ir ao autódromo, tem oportunidade de tocar nos carros, examiná-los, tirar sua foto a poucos centímetros dos protagonistas da festa.

Sim, a F1 possui características particulares, de modo que, caso tal prática fosse aplicada, exigiria adaptações. Ao todo são dez equipes no grid, e cada uma delas é responsável por desenvolver seu próprio projeto – então, não dá para ter a mesma abertura de uma LMP2, que conta com apenas três fornecedoras de chassis para os 25 times.

No entanto, a F1 precisa fazer o público se aproximar de suas joias. Por que não expor carros antigos nas áreas comuns dos autódromos? Ou até mesmo alguns modelos atuais, como uma espécie de “mula” – ou seja, carros com cara de atuais, mas sem alguns detalhes técnicos? No geral, o público não está muito interessado em examinar o difusor do carro ou ver detalhes minúsculos de sua asa dianteira. Tudo o que ele quer é poder chegar perto de um bólido, tirar sua foto e guardá-la com carinho.

4 – Ser mais acolhedora com os fãs

Público tem atrações de sobra em Le Mans (Bruno Ferreira)
Público tem atrações de sobra em Le Mans (Bruno Ferreira)

A maneira como Le Mans trata seus fãs renderá um artigo à parte aqui no Projeto Motor. Mas dá para adiantar que é notória a preocupação da organização da prova com o público, até para manter a massa ocupada durante as 24 horas de disputa.

Atrações não faltam: estandes, lojas, exposições, museu, bares, experiências, brinquedos. Há também os fãs que compram bilhetes com acesso às dependências próximas ao paddock, o que, com um pouco de paciência, sempre dá a chance de uma foto com seu piloto favorito.

“Acho que a F1 precisa ser mais próxima ao público. Na Stock Car, temos uma hora de autógrafos antes da corrida. Tudo o que ouço é: ‘Rubens, estive atrás de você por 19 anos e nunca consegui me aproximar de você’. E eu tenho a chance de abraçar a pessoa, de agradecê-la. É disso que a F1 precisa: um afago, colocar as pessoas mais próximas. A F1 é sempre ‘não’. ‘Posso ter um passe?’ ‘Não’. Não é que precisamos do paddock cheio de gente, mas precisamos de pessoas mais juntas”, disse Barrichello ao Projeto Motor em Le Mans

5 – Leve a montanha até Maomé

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Le Mans acerta em cheio ao compreender que o evento vai muito além das dependências do autódromo. O objetivo das 24 Horas é, anualmente, mobilizar a cidade e fazer com que a atração seja percebida pelo maior número de pessoas possível, nem que, para isso, precise levar o evento até elas.

É nisso que entra a Grande Parade des Pilotes, o desfile oficial organizado na véspera da prova. Uma grande festa é montada no centro de Le Mans (aproximadamente a 7 km do circuito), com direito a música, dança, exposição de carros antigos, e, claro, os pilotos, os grandes astros da atração.

É mais um momento em que os competidores entram em contato próximo com o público, pois sempre há uma brecha para um autógrafo, uma foto ou a distribuição de um brinde.

E também há espaço para fortalecer as tradições. Em 2017, uma das figuras mais aplaudidas do desfile foi Derek Bell, cinco vezes vencedor da prova nos anos 1970 e 1980.

Trata-se de um evento gratuito, que leva as 24 Horas de Le Mans para toda a cidade – ao contrário do que acontece nos eventos de F1, que passam despercebidos para quem não compra os caríssimos ingressos para ir à pista.

Nessa nova forma de se comunicar com o público, é fundamental compreender a necessidade de fazer com que a corrida transcenda o autódromo. Por que não usar a quinta-feira anterior aos GPs, normalmente um dia marcado pelas modorrentas coletivas oficiais da FIA, para realizar ações fora da pista?

6 – Cative e espere resultados ao longo prazo

Toyota fa

Um exercício de observação rápido nos permite ver o perfil geral do público que comparece às 24 Horas de Le Mans. Sejam idosos, adultos ou crianças, boa parte das pessoas estão inteiradas do que se passa dentro da pista.

O evento mobiliza a cidade de tal forma que a história das 24 Horas de Le Mans se mistura com a história das próprias pessoas. É algo que já está impregnado na cultura local. Obviamente, isso não ocorre de uma hora para outra: é fruto de décadas e décadas de tradição, passada pelas gerações que cresceram no local.

A F1 precisa ter planejamento e paciência ao escolher suas praças. A fim de prosperar, o evento deve ter realização em longo prazo garantida e a materialização das ações promocionais citadas acima. Só assim a atração poderá prosperar e integrar de vez a cultura local.

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Os adultos de hoje cresceram ouvindo de seus pais histórias sobre nomes como Derek Bell e Henri Pescarolo. Esses adultos, hoje, contam histórias a seus filhos sobre Tom Kristensen. Desde cedo, essas crianças entram e contato e se encantam com o endurance. É assim que as 24 Horas de Le Mans se propagam de forma irreversível.

A F1 deve entender quais são seus eventos mais importantes, saber plantar a sementinha e fazer com que isso gere frutos futuramente. Até mesmo em suas praças mais tradicionais o certame não faz questão nenhuma de se abrir. Como consequência, é óbvio que haverá cada vez mais indiferença quanto à categoria nos anos que se passam.

7 – Entender que as demais categorias são aliadas, não concorrentes

Novo chefão da F1, Carey deu a largada em Le Mans
Novo chefão da F1, Carey deu a largada em Le Mans

Este, talvez, seja o item citado nesta lista que a F1 está mais perto de cumprir – a exemplo do que foi visto na jornada de Fernando Alonso nas 500 Milhas de Indianápolis. Mas, sim, a F1 precisa entender que as demais categorias e competições a motor podem ser boas aliadas caso haja uma política colaborativa saudável.

Em época recente, ainda sob o comando de Bernie Ecclestone, a F1 se incomodou ao ver Nico Hulkenberg, seu piloto regular, emprestar seu prestígio a Le Mans e vencer a corrida de longa duração em 2015. Assim, no ano seguinte, ela agendou o GP do Azerbaijão na mesma data da corrida francesa para evitar que outro piloto fizesse o mesmo.

A categoria mudou de gestor e aparentemente também de mentalidade. Mesmo assim, ela ainda pode fazer mais e estreitar laços com outras categorias, já que um automobilismo mais forte também a deixa fortalecida.

Os recentes episódios envolvendo Hulkenberg e Alonso apenas deixaram a F1 mais fortalecida. Além de passar uma imagem mais descolada e aventureira a seus competidores, isso serviu para mostrar, acima de tudo, que o nível da principal categoria do automobilismo mundial é altíssimo.

Por isso, as 24 Horas de Le Mans compreendem a importância de abraçar outras categorias. Em suas dependências há lojas com artigos de F1, MotoGP e rali, além de ter outras atrações que vão além do que se passa naquele fim de semana específico. A F1 não precisa necessariamente promover outras competições, mas reconhecê-las e entender a importância de um trabalho em conjunto pode trazer bons frutos.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • VolksLove

    Gostei muito da matéria principalmente dos tópicos sobre a aproximação do público, porém quero questionar o tópico Nº2 sei que foi sugestões mas vamos argumentar.

    Primeira questão que me deixou intrigado e achei a comparação injusta dos parágrafos 1 ao 5, pois a F-1 não tem diversas classes na mesma corrida como informado, porém foi esquecido que a F1 tem as categorias que abrem as corridas e que tem o argumento parecido que foi colocado nas categorias LMP2 e GT´s, pois os F2 são mais simples e barulhentos como os LMP2, e até o exemplo do Porsche da categoria GT, pois uma das categorias que abrem e a Porsche Cup, o que me leva a crer que todo o evento da F-1 tem tudo para todos os gostos da mesma foi seguindo os mesmos argumentos colocados.

    No último paragrafo deste mesmo tópico, levantou o assunto de tecnologias diferentes da Híbrida, não é necessário outra categoria pra testar diversas tecnologias, o WEC é bem mais interessante pras montadoras para a inclusão de novas tecnologias pois tem provas de longa duração o que torna o testes mais agradável do que a F-1, o que seria melhor neste caso diferentes tipos de arquitetura dos motores e quantidade de turbos.

    Referente a utilização de motores antigos, a F-1 já faz isso atualmente, a Sauber esta utilizando a unidade da Ferrari do ano passado, e ano passado a Toro Rosso fez o mesmo, mas não tem competição de igual pra igual, se não em provas atípicas, temos diversos exemplos no automobilismo/motociclismo e vai concordar comigo que isso é difícil de introduzir, equalizar e popularizar para o público, vide diversos exemplos que tivemos ao longo dos anos, os não HY (Privados) na LMP1 e as CRT da Moto GP, o que adianta poluir o grid e diversificar veículos na mesma categoria se eles não terão o mesmo desempenho? e também se for analisar, haverá a exclusão natural do mesmo, é difícil se dar atenção e recursos (patrocínio) a uma equipe que se sabe que não vai poder competir de igual pra igual, é mais fácil competir em outra categoria.

    • Fala, VolksLove! Desculpa a demora em te responder. Seu comentário foi muito bom e trouxe pontos importantes. Mas vamos por partes.

      Sobre as diferentes classes, realmente há eventos da F1 que proporcionam variedade técnica. Mas isso não é algo que acontece em todas as provas, e, por isso, não dá para considerar que isso faz parte da categoria.

      Por exemplo: o fã que vai a um autódromo assistir a um GP na Europa vê, além da F1, provas da Porsche Supercup, F2 e GP3. Isso não acontece com quem vai ver uma corrida no Japão ou na Rússia. Os eventos são muito diferentes entre si, sendo que há alguns que são bastante pobres em atrações preliminares.

      Ou seja, quando isso acontece é muito mais pela iniciativa das provas do que da categoria em si. Sem contar outros fatores, como real relevância esportiva dessas provas menores, ou do momento em que elas acontecem. Não é todo mundo que fica na pista depois do fim do treino classificatório para assistir à F2 ou GP3, porque são categorias com apelo e penetração menores.

      Sobre o ponto da tecnologia híbrida: a necessidade deste tipo de tecnologia estar na F1 é um assunto à parte, que pode gerar diversas opiniões diferentes. Mas, hoje, as fabricantes consideram que a F1 não pode ficar alheia às tecnologias híbridas. Então, dentro deste universo, até para gerar maior liberdade e competitividade, eu sugeri que houvesse um regulamento menos restritivo. Cada fabricante trabalharia na fórmula que achasse mais conveniente em vez de todas terem de seguir os rumos do V6 turbo, 1,6 L, de 8 MJ…

      Por fim: sim, a introdução de motores antigos exigiria um trabalho maior de equalização, e aí poderíamos discutir várias formas de fazer isso. A intenção seria colocar esses motores de forma que ainda assim houvesse certa competitividade, com um custo mais acessível. O uso de um V8 aspirado, por exemplo, custaria muito menos a uma equipe do que um V6 turbo híbrido, mesmo que seja um do ano passado.

      Mas a questão é que, no automobilismo, sempre houve e sempre haverá aqueles que não terão chances de lutar contra os ponteiros. É algo histórico do esporte. É só ver a Sauber, por exemplo: que patrocinador em sã consciência investiria ali pensando na possibilidade da equipe vencer corrida?

      Então, fica complicado. A equipe não tem dinheiro e precisa arcar com altos custos. Como não entra patrocínio, a ideia seria em ajudar financeiramente na outra ponta, cortando o custos para a aquisição de motores. E, quem sabe uma Sauber, com um V8 aspirado barulhento, não atraia fãs justamente por isso e, consequentemente, consiga patrocínios?

      Mas, infelizmente, no automobilismo sempre há as equipes grandes e pequenas, e nem todas elas têm condições de competir de igual para igual…

      • VolksLove

        Opa, tudo bem pela demora, e agradeço por me responder em primeiro lugar.

        Infelizmente não é todas as corridas que temos estas categorias de abertura, mas seria algo legal pro evento se tivesse em todas principalmente se fizesse um acordo com a FIA MASTERS HISTORIC FORMULA ONE CHAMPIONSHIP e tivéssemos os carros antigos da Categoria correndo novamente no mesmo evento seria um espetáculo trazendo que iria trazer os velhos e os novos espectadores, seria uma boa iniciativa para os Fãs mais antigos da Categoria.

        Referente a Híbrida e introdução de motores antigos, se tivesse regulamento mais aberto seria muito legal, como sua sugestão, motores V6 turbos (bi ou simples) com maiores MJ e motores V8 aspirados utilizando menos MJ, algo nessa pegada seria legal, pois iria aliar os motores mais barulhentos e os menos e criaria mais alternativas e baratearia esta questão e seria bem mais interessante.

        O problema de Visibilidade de visibilidade é difícil neste esporte , mas uma boa alternativa seria liberar o uso de pinturas diferentes corrida a corrida para os Carros de fundo de Grid, assim facilitando localizar patrocinadores para cada etapa.