Sette Câmara e o desafio que pode ditar os rumos de sua carreira

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Em momento de dificuldade sem precedentes para a formação de pilotos brasileiros para a F1, Sérgio Sette Câmara teria pela frente uma temporada decisiva em sua passagem pela F2. Contudo, uma série de contratempos no mês de maio provocou um grande dano às suas pretensões, o que também pode ter consequências definitivas em sua carreira.

Durante a jornada rumo ao estrelato, todo jovem piloto eventualmente se depara com o momento propício para despontar e se mostrar ao mundo. Para Sette Câmara, este poderia ser o seu caso em 2018, mas, por uma série de motivos, sua temporada não está perto de trazer os frutos esperados.

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Na tradicional Carlin, Sette Câmara esperava pelo salto desejado em sua carreira (F2)

O jovem mineiro partiu para sua segunda temporada na F2 com alguns fatores que o colocavam nos holofotes. Primeiro, trata-se do primeiro ano desde 1969 em que não há brasileiros na F1, sendo que Sette Câmara é o único representante do país na principal divisão de acesso da categoria.

Além disso, o próprio momento da F2 representava uma oportunidade valiosa para aparecer. Primeiro, ele mediria forças contra nomes badalados da base, como Lando Norris, George Russell, Jack Aitken, Antonio Fuoco e companhia, sendo estes relacionados a programas de pilotos da F1. Segundo, sua casa seria a tradicional Carlin, que, apesar de ter ficado de fora da F2 em 2017, possui ampla bagagem na base, tendo em sua história abrigado figuras como Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo, Nico Rosberg e Robert Kubica. E seu companheiro seria Norris, um dos garotos de ouro das categorias júnior e que deixou Fernando Alonso impressionado quando ambos dividiram a equipe United Autosports nas 24 Horas de Daytona.

Vitrine melhor, impossível, de modo que era importantíssimo para Sete Câmara agarrar a oportunidade com unhas e dentes. Ele, destaca-se, não possui atualmente relação com programas de pilotos da F1, ou seja, não há um caminho minimamente aberto para conseguir a promoção à categoria principal – como é o caso de Norris ou como aconteceu com Charles Leclerc e Pierre Gasly, os dois campeões anteriores da GP2/F2. Assim, o brasileiro ainda tinha de abrir seu terreno, e isso inevitavelmente precisaria do empurrão de resultados altamente expressivos.

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Sette Câmara atualmente é o sétimo colocado na F2

E, tão importante quanto isso, Sette Câmara tem de concluir a temporada na F2 pelo menos na terceira posição na tabela de pontos a fim de cumprir os pré-requisitos burocráticos para poder sonhar com a F1 já em 2019. Atualmente, a categoria exige que um piloto acumule, em um espaço de três anos, 40 pontos em sua carteira, que são distribuídos de acordo com a posição de conclusão nos campeonatos da base. Sette Câmara não tem nenhum. Isso significa que, caso a FIA realmente seja rigorosa neste item (como vem sendo até agora), ele não conseguiria entrar na F1 no ano que vem mesmo se aparecesse uma equipe interessada ou se houvesse um suporte financeiro pesado por trás.

Passadas quatro rodadas duplas já disputadas em 2018, o brasileiro é apenas o sétimo colocado na tabela, com menos da metade dos pontos de Norris, seu companheiro de equipe, que lidera. O que se passa?

Ao contrário do que os números indicam, essa discrepância não se explica por um rendimento pessoal ruim de Sete Câmara. Pelo contrário: por mais que não venha sendo exatamente brilhante, o mineiro é figura constante no pelotão dianteiro ou, pelo menos, na zona de pontuação. A questão é que, por diversos fatores, isso não se reflete na tabela do campeonato, o que, para um piloto que quer se fazer notar, é a pior notícia possível.

Na rodada do Azerbaijão, Sette Câmara perdeu um segundo lugar na bateria complementar ao ser desclassificado por falta de combustível em seu carro. Mas depois, somente no mês de maio, seu campeonato sofreu golpes bastante pesados.

Primeiro, um problema com o acelerador na classificação em Barcelona o fez largar somente em 14º na primeira bateria – ele se recuperaria para terminar em sétimo. Na corrida complementar do fim de semana catalão, abandonou quando o extintor de incêndio de seu carro disparou no meio da corrida.

Parceiro de Sette Câmara, Norris (atrás) é o líder da temporada (F2)
Parceiro de Sette Câmara, Norris (atrás) é o líder da temporada (F2)

Em Mônaco, duas semanas depois, o desfecho foi ainda pior: bateu na classificação na curva St. Devote, lesionou o pulso e não foi liberado pelos médicos para participar de nenhuma das baterias, o que o fez desperdiçar uma valiosa chance de recuperar terreno (uma vez que Norris também teve um fim de semana atrapalhado).

É importante ponderar que Sette Câmara também cometeu seus erros, como na já citada corrida complementar de Barcelona (quando escorregou no asfalto molhado e perdeu três posições), ou na própria batida que o deixou afastado em Mônaco.

Entretanto, os danos deixados pelas falhas mecânicas acabam destoando. Afinal, trata-se de uma categoria de base, e não da F1, com equipamento padronizado, sem desenvolvimento tecnológico, nem a filosofia de expor seu conjunto a situações de estresse extremo para derrotar as rivais.

Em tese, uma categoria de acesso fornece base sólida para diminuir ao máximo as variáveis e fazer com que cada piloto construa sua campanha em cima de seus acertos e erros. Neste aspecto, o novo carro da F2 ainda deixa a desejar, o que já provocou as queixas de vários pilotos, especialmente com a tendência de apresentar problemas nas largadas.

A Carlin, em sua defesa, relatou que os problemas mecânicos que afetaram a campanha de Sette Câmara não são de sua responsabilidade, já que foram em componentes que vêm lacrados da organização da categoria.

Mas, para o bem ou para o mal de quem quer que seja, corridas possuem essas coisas. Falhas mecânicas acontecem. E, independentemente da origem das causas, os danos às pretensões do brasileiro já são grandes. Quando o Projeto Motor conversou com o piloto ainda no circuito de Barcelona, pouco após o fim de uma desastrosa rodada, sua frustração era visível.

“A única coisa que dá para aprender no momento é controle emocional. Já passei por muita merda na minha carreira, e esse controle emocional eu já tenho. Esse negócio de ‘é preciso perder antes de ganhar’… Não, eu já perdi tanto, já me ferrei tanto aqui na Europa, com equipe ruim, com temporada onde tudo dava errado. Não vou nem falar que tem um ponto positivo, porque não tem. É uma porcaria essa situação, para falar a verdade. É duro, isso destrói o emocional de qualquer pessoa.”

Nas entrelinhas, é perceptível que Sette Câmara está ciente de que não se trata apenas de um campeonato que fica em risco, e sim possivelmente os rumos de sua carreira. Em suas entrevistas (como na dada ao Projeto Motor, em 2017), percebe-se que ele, ao contrário do que acontece com boa parte dos pilotos da sua idade, é autocrítico e não tem receio de admitir publicamente quando algo está errado. No fundo, Sette Câmara provavelmente sabe que qualquer possibilidade de sonhar mais alto pode ir por terra caso o resultado do campeonato seja apagado.

Triunfo em Spa, em 2017, é o único da carreira de Sette Câmara até o momento (F2)
Triunfo em Spa, em 2017, é o único da carreira de Sette Câmara até o momento (F2)

Ao contrário do caso de grande parte de seus atuais rivais, Sette Câmara tem currículo ainda bastante discreto nas pistas. Por mais que tenha tido uma passagem pelo badalado programa de pilotos da Red Bull (que até lhe rendeu um teste na F1), o mineiro tem na bagagem apenas uma única vitória no automobilismo. Em campeonatos, ele tem como ponto mais alto o 12º lugar na F2 no ano passado, ou o 11º posto na F3 Europeia, em 2016. Ainda é muito pouco para almejar voos maiores.

Demonstrações de velocidade de sua parte já foram vistas em alguns momentos distintos, como na segunda metade da F2 em 2017 (que contou com sua já citada única vitória nas pistas, em Spa-Francorchamps), nas atuações no GP de Macau de F3 (especialmente na “quase vitória” do ano passado) e na atual campanha com a Carlin na F2. Mas isso não foi concretizado para deixar seu currículo mais atrativo, sendo que seus rivais diretos na F2 – sobretudo o próprio Norris – são bastante condecorados nas categorias menores.

Para poder sonhar mais alto, Sette Câmara tinha de matar dois leões distintos: primeiro, despontar como real protagonista e postulante ao título da F2; segundo, começar a ser notado no mercado de pilotos da F1. O primeiro ainda não acontece, o que acaba por afetar o segundo.

Evidentemente, Sette Câmara ainda é jovem o bastante para, caso de fato seja necessário, fazer mais uma temporada na F2 e buscar algo maior em 2020. Porém, nesta fase da carreira, cada temporada adicional na categoria de acesso diminui gradativamente seu apelo em potencial, especialmente porque boa parte de seus rivais tende a ter uma passagem mais curta pelo certame e já migrar para a F1 assim que possível.

Os danos após um início de temporada complicado em 2018 já são visíveis, mas ainda há um longo caminho pela frente – são mais oito rodadas, ou 16 baterias. Para Sette Câmara, não está em jogo apenas uma posição em um campeonato, e sim os possíveis rumos de sua carreira.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.