Sette Câmara na McLaren, Fittipaldi na Haas: o que as novidades significam?

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Se o fã brasileiro se sente chateado com a ausência de um compatriota no grid da F1 em 2018, algumas notícias trouxeram certo alento, já que foi anunciado que dois jovens pilotos do país terão envolvimento com a categoria em um futuro imediato.

A primeira novidade foi a confirmação de que Sérgio Sette Câmara, único brasileiro na F2, ocupará cargo de piloto de testes e de desenvolvimento na McLaren – equipe que possui parceria técnica com a Petrobras. Depois, Pietro Fittipaldi, neto de Emerson e campeão da já extinta Fórmula V8 3.5 em 2017, foi anunciado em função semelhante na Haas.

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É claro que a participação de jovens brasileiros de forma oficial em equipes de F1 provoca empolgação em uma torcida sedenta por representantes do país no grid, e certamente se tratam de passos importantes nas carreiras de ambos.

No entanto, por mais que a situação traga claras vantagens, isso ainda está longe de representar qualquer garantia de vaga definitiva na categoria, já que os dois precisam percorrer um caminho crucial pela frente.

Por que são boas notícias?

Em princípio, as funções de Sette Câmara e Fittipaldi possuem algumas semelhanças, mas também contam com diferenças importantes.

O mineiro atuará com mais ênfase no simulador da McLaren, na sede de Woking, além de participar das reuniões com os engenheiros do time e entender com mais detalhes toda a rotina de um fim de semana de GP de F1.

Sette Câmara (ao lado de Lando Norris) já desfila com as cores da McLaren

Neste primeiro momento, Sette Câmara não tem confirmada nenhuma participação em pista com a McLaren, seja em sessões de testes (mesmo que seu cargo seja de “piloto de testes”) ou em treinos livres de sexta-feira.

Fittipaldi ao menos terá a chance de guiar o modelo da Haas, o que fará já nos testes pós-temporada da F1 em 2018, em Abu Dhabi, quando será o responsável pelas atividades em 27 de novembro.

A experiência tende a enriquecer ambos. A vivência com os engenheiros e os trabalhos no simulador (ferramenta crucial para o desenvolvimento dos pilotos e do carro na F1 atual) são grandes auxílios, especialmente para competidores mais jovens e que buscam obter qualquer vantagem em relação à concorrência na luta por espaço no automobilismo internacional.

Só que vai além da parte técnica: o simples fato de haver conexão oficial com times de F1 os coloca em maior evidência. Ambos irão aparecer com maior frequência no paddock da categoria, ganhando visibilidade e a possibilidade de fazer conexões. Sem contar que a presença em equipes aumenta a credibilidade de Sette Câmara e Fittipaldi perante a possíveis parceiros e patrocinadores para o futuro.

Por que é preciso conter a empolgação?

No entanto, as contratações não trazem garantia de titularidade na F1. Sette Câmara se junta a uma equipe que não possui portas abertas, já que a McLaren terá a chegada de dois novos titulares em 2019, com Carlos Sainz e Lando Norris. Portanto, o time ainda não precisa preparar terreno para um eventual desfalque – pelo contrário, a expectativa é de que o espanhol e o inglês liderem o projeto de longo prazo da McLaren na F1.

No caso de Fittipaldi, a Haas está comprometida com o cambaleante Romain Grosjean e com Kevin Magnussen até o fim do ano que vem. Porém, por mais que a saída de algum deles em 2020 não represente um cenário tão absurdo, o time americano tem assumidamente a filosofia de procurar por pilotos com bagagem na F1.

Pietro: do título em 2017 à campanha conturbada em 2018

Por se tratar de uma operação enxuta, com recursos reduzidos, a Haas visa a aproveitar ao máximo o feedback  de seus pilotos. Além disso, o fato de a equipe ter desempenhado um papel forte neste ano, com uma parceria técnica estreita com a Ferrari, tornaria uma eventual vaga aberta por ali bastante concorrida por nomes de mais destaque e experiência do que o de Pietro.

Mas agora vem o ponto mais importante disso tudo: as funções de Sette Câmara e Fittipaldi na F1 serão apenas detalhe em 2019, já que suas possibilidades serão determinadas por aquilo que fizerem em competições em paralelo dentro da pista.

O mineiro deverá permanecer na F2 por mais um ano, embora os detalhes ainda não tenham sido confirmados. Para poder competir na F1 em 2020, Sette Câmara precisa acumular os pontos para a superlicença, o que ainda impede qualquer salto imediato para a principal categoria. Caso feche a temporada de 2018 em sexto, posição que ocupa atualmente, o piloto teria de fechar o campeonato de 2019 em quarto; se for o quinto neste ano, teria de obter um novo quinto lugar na próxima campanha.

A mesma coisa se aplica a Fittipaldi, que teve uma temporada totalmente atribulada em 2018 – ele competiu parcialmente em três categorias diferentes, mas teve seu ano atrapalhado por fraturas nas pernas que sofreu durante a etapa do WEC em Spa-Francorchamps, ainda em maio.

Sette Câmara reconhece que precisa de resultados de destaque na F2 em 2019

E a questão não é só burocrática, mas também de reputação. Ainda faltam a ambos títulos e vitórias em categorias que compõem a rota tradicional antes da F1. Sette Câmara tem apenas uma vitória no automobilismo internacional, na F2, no ano passado. Já Fittipaldi têm como ponto alto de sua carreira o título em uma categoria que sequer existe mais e que vivia momentos dificílimos em 2017.

Os exemplos dos últimos anos mostram que a F1 observa com mais atenção os jovens que possuem bons resultados em certames como F2, GP3 ou F3. Esta tem de ser a prioridade para Sette Câmara e Fittipaldi caso almejem ganhar força no mercado e entrar no Mundial.

Muitas peças precisam se encaixar para os pilotos que sonham em entrar na F1, já que é preciso estar alinhado no aspecto comercial, com resultados atrativos na base e com boas conexões nas equipes do grid. Sette Câmara e Fittipaldi deram os primeiros passos para cumprir com os pré-requisitos, mas ainda há um longo – e importante – caminho pela frente.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.