Só Clark e Ascari sabiam liderar um GP de F1 tão bem quanto Vettel

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Cada piloto – e aqui estamos falando apenas daqueles que ficaram/ficarão marcados entre os grandes da F1 – tem um jeito diferente de “saber” vencer um GP de F1. Juan Manuel Fangio, por exemplo, dosava velocidade e consistência na medida certa. Com a filosofia de que o ás de sua época deveria ser o “mais lento possível”, de acordo com as características da pista e o ritmo impresso pelos adversários, o maestro argentino sabia a hora certa de esperar ou, eventualmente, pisar fundo para pressionar concorrentes.

Leitura de corrida e administração de equipamento também eram o forte de gênios como Jackie Stewart, Niki Lauda, Emerson Fittipaldi e Alain Prost. Eles não se incomodavam em ocupar um segundo ou terceiro lugar durante boa parte de uma corrida, desde que soubessem que tinham condições, no fim da prova, de “dar o bote”.

Schumacher elevou o ritmo de corrida a outro patamar em ocasiões como o GP da França de 2004, em que venceu fazendo quatro paradas para reabastecimento e troca de pneus
Schumacher elevou o ritmo de corrida a outro patamar em ocasiões como o GP da França de 2004, em que venceu fazendo quatro paradas para reabastecimento e troca de pneus

Já Ayrton Senna e Michael Schumacher estavam o tempo todo no ataque. Para o brasileiro, se não houvesse um rival a superar na pista, os retardatários viravam alvo de sua extrema agressividade. Ser incisivo nas ultrapassagens foi fator primordial para várias das vitórias do tricampeão, mas também lhe custou páreos como Mônaco-88, Itália-88 e Brasil-90. O alemão, por sua vez, elevou o ritmo de corrida a novo patamar ao transformá-lo numa sessão classificatória contínua. Na era do reabastecimento, Schumacher soube como ninguém extrair tudo do bólido durante várias voltas consecutivas.

Os grande vencedores da era atual da categoria são, indubitavelmente, Lewis Hamilton, Fernando Alonso e Sebastian Vettel. Se o primeiro é o mais arrojado e o segundo, o mais calculista, o tetracampeão entra num rol não menos peculiar, o de competidores que sabem, melhor do que nenhum outro, administrar uma corrida a partir do momento em que aparecem na dianteira.

Primeira vitória, no GP da Itália de 2008, mostrou que Vettel saberia perfeitamente o que fazer cada vez que lhe abrissem brecha para assumir a ponta de uma prova
Primeira vitória, no GP da Itália de 2008, mostrou que Vettel saberia perfeitamente o que fazer cada vez que lhe abrissem brecha para assumir a ponta de uma prova

Vettel é até hoje criticado porque, teoricamente, tudo o que conquistou teria sido fruto de ter na Red Bull um “foguete” para conduzir. Muito dessa desconfiança vem de seu estilo dominador. Embora já tenha provado, em ocasiões como os GPs de Abu Dhabi e do Brasil de 2012, que consegue empreender grandes exibições de recuperação se necessário, o atual volante da Ferrari tem como principal característica controlar as ações a partir da liderança, de uma forma que ninguém mais consegue fazer no grid de hoje.

Tal qualidade ficou evidente desde a inesperada conquista no GP da Itália de 2008, quando ponteou o páreo em Monza da largada à bandeirada, mesmo sob chuva e com uma Toro Rosso, para vencer pela primeira vez na F1. Grande parte de seus três triunfos na Red Bull seguem o mesmo estilo, e até as conquistas de 2015 são assim: na Malásia, foi alçado à liderança por um erro estratégico da Mercedes e não a deixou mais. Na Hungria, roubou o posto de Hamilton após a largada e seguiu ali até o final.

Vettel no GP de Cingapura de 2015
Vettel no GP de Cingapura de 2015

Em Cingapura, no último domingo (20), desbancou a todos na classificação e, partindo já de primeiro, segurou as ações de Daniel Ricciardo durante todo o tempo. Vettel só não conquistou o chamado grand chelem (pole, vitória, volta mais rápida e liderança de todas as voltas) porque a passagem mais veloz de seu ex-companheiro ficou 28 milésimos abaixo da sua. Seria o quinto de sua carreira.

Clark é até hoje, e com sobras, recordista em número de grand chelems: oito
Clark é até hoje, e com sobras, recordista em número de grand chelems: oito

As estatísticas, aliás, estão aí para corroborar o que estamos dizendo: mesmo sendo apenas o 35º competidor em  número de GPs disputados (152), o tetracampeão ocupa o sexto lugar no ranking de hat tricks – pole, vitória e volta mais rápida -, com sete, o sétimo no de grand chelems (quatro) e o terceiro naquele que calcula ases que faturaram um GP sem perder a liderança em nenhuma passagem (fez isso em 13 oportunidades). Também já é o terceiro entre os os que converteram posição de honra na grelha em degrau mais alto do pódio, tendo repetido o feito incríveis 28 vezes.

Proporcionalmente, apenas dois automobilistas do passado se mostraram tão eficientes quanto o imberbe germânico nesse sentido: Alberto Ascari e Jim Clark. Dos 13 triunfos obtidos pelo italiano, sete ocorreram com hat trick e cinco com grand chelem. Já o escocês, dono de 25 troféus de vencedor na categoria, elevou esses mesmos índices a 11 e oito, respectivamente. No segundo caso, sua marca segue como recorde absoluto até hoje.

Mais da metade dos triunfos de Ascari na F1, sete de 13, foi conquistada com o chamado hat trick
Mais da metade dos triunfos de Ascari na F1, sete de 13, foi conquistada com o chamado hat trick

Como conquistaram tudo isso defendendo somente uma escuderia (Ferrari, no caso de Alberto; Lotus, a de Jim), é bem capaz que Clark e Ascari, dois monstros do esporte a motor, fossem duramente criticados nos dias atuais. Basicamente é o que acontece com Vettel – embora as “acusações” tenham arrefecido após a sólida temporada que vem fazendo com a Ferrari este ano, sabidamente tendo um conjunto inferior ao de Hamilton e Nico Rosberg.

Ainda assim, o estilo do jovem teutônico continua a fazer muita gente torcer o nariz, como se ser mister em controlar uma corrida a partir do primeiro lugar fosse um pecado, quase uma heresia. Este é, na verdade, o grande diferencial de Vettel sobre seus contemporâneos. Há outros pontos em que Hamilton e Alonso são superiores a ele, certamente, mas os números até aqui têm provado que o estilo do ferrarista oferece frutos com um pouco mais de abundância. E isso jamais deveria ser encarado como demérito.

Assista à análise do GP de Cingapura de 2015 na edição #9 do Debate Motor:

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Leandro Farias

    O problema não é o Vettel ser um dos maiores dominadores durante uma corrida. Atacar o piloto – que é um dos melhores tanto dentro quanto fora da pista – é um dos grandes erros dos fãs.

    Era pra se criticar a direção da F1 nessa época por permitir hegemonias grandes demais. Aí no final das contas, a da Mercedes acabou sendo muito mais entediante.

  • Joshué Fusinato

    Perfeita análise! De fato é impressionante as similaridades do Clark com o Vettel. Ainda, fiquei curioso sobre a história do Alberto Ascari… Vou pesquisar!

    Abraços!