Só os mandachuvas não entendem que guerra de pneus é ótima para a F1

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Quem acompanhava a F1 em meados dos anos 2000 lembrará da verdadeira “briga de facão e foice” entre Bridgestone e Michelin. De 2000 a 2004 a fabricante japonesa monopolizou as láureas da categoria, sempre pelas mãos da Ferrari; uma radical mudança de regulamento vinda em 2005, porém, impedindo as trocas de pneus durante os GPs, reverteu a vantagem em favor dos compostos franceses.

Para os mais velhos, a memória vai ir além: há o caso da própria Bridgestone, em 1997, que surpreendeu ao criar, em seu ano de entrada na categoria, compostos que rendiam muito mais do que os Goodyear em pistas com temperaturas altas e curvas de raio longo. Já a Pirelli, na virada dos anos 80 para os 90, vivia a mexer com a ordem lógica do grid ao construir arcos otimamente adaptados a sessões de classificação e a ambientes de muito calor.

Desde 2011, Pirelli fornece sozinha pneus para a F1
Desde 2011 Pirelli é fornecedora solitária na F1

Por tudo isso, a chamada “guerra de pneus” se tornou um atrativo extra para as corridas. Só que, desde que a Michelin deixou a categoria, ao fim de 2006, os contratos de fornecimento passaram a prever exclusividade a uma única fabricante, em nome da contenção de custos e de um suposto equilíbrio de forças. A primeira a desfrutar da regalia foi a Bridgestone, entre 2007 e 2010; depois veio a Pirelli, de 2011 até hoje.

Como o contrato da companhia italiana encerra no fim do ano que vem, já há rumores de que a Michelin estaria disposta a retomar seu vínculo a partir de 2017, desde que em um formato no qual possa promover um duelo de forças com a concorrente italiana.

Seria um cenário perfeito para o regresso da guerra de pneus, e justamente num momento em que a F1 precisa, mais do que nunca, readequar seu espetáculo ao gosto do público contemporâneo. Como bem destacado no tempo verbal da primeira palavra deste parágrafo: “seria”, não fosse a teimosia dos chefes de equipe.

Paul Hembery, diretor esportivo da Pirelli, já deixou escapar que há um documento, assinado por representantes das escuderias, que garante campeonatos disputados com fornecedor único de pneus até no mínimo 2019. “Os times querem deixar a situação como está, e não temos nada a acrescentar em relação a isso”, disse o dirigente, deixando transparecer que sua empresa também prefere a exclusividade.

Franz Tost, comandante da Toro Rosso, foi enfático ao defender a posição dos dirigentes:

Dois times [escolhidos pelas fabricantes]pegariam os pneus bons; o resto ficaria só com as porcarias.

Franz Tost, que comanda a Toro Rosso, é um dos maiores opositores da concorrência entre diferentes fabricantes de pneus
Franz Tost, que comanda a Toro Rosso, é um dos maiores opositores da concorrência entre diferentes fabricantes de pneus

Christian Horner, dirigente da Red Bull, endossou a opinião do colega: “Franz resumiu a questão de forma esplêndida. O uso de pneus padronizados foi uma das razões para o sucesso da Red Bull como equipe independente. Jamais desfrutaríamos disso se fornecedoras concorrentes de pneus se aliassem a montadoras oficiais”, argumentou.

Até Robert Fernley, vice-diretor da Force India, é a favor da restrição. “Ter só uma marca é uma das coisas positivas da F1 atual. Não deveríamos mudar”, posicionou-se.

Nesta questão, os pilotos parecem contra os manda-chuvas. Fernando Alonso, que viveu na pele o que significa a guerra de pneus em 2006, contra Michael Schumacher, puxou o coro dos descontentes: “Uma competição dessas iria ajudar a F1, porque todos iriam acelerar o desenvolvimento ao limite novamente”, declarou, emendando:

Poderíamos ter um pneu bom de classificação e ruim de corrida, e vice-versa. Um se adaptaria a determinado tipo de circuito, o outro [se adequaria]a outro tipo. Isso mexeria com os resultados.

Tost alfinetou a opinião do asturiano: “Quando a Michelin participava, [a equipe privilegiada]era a Renault, e é por isso que Alonso guarda memórias tão boas”, ironizou.

O volante da McLaren acabou defendido por Jacques Villeneuve, campeão mundial de 97, ano em que a Goodyear passou a ser desafiada pela Bridgestone, saiu em defesa do volante da McLaren: “Sim, são os times maiores que desenvolvem os compostos, mas só quem tem estrutura pode fazer isso, e não os times menores. A vida é assim”, enfatizou.

Mesmo tendo apenas as pequeninas Arrows, Minardi, Stewart e Prost, Bridgestone surpreendeu em seu primeiro ano de F1, 1997; quase-vitória de Damon Hill no GP da Hungria foi ponto alto
Mesmo tendo apenas as pequeninas Arrows, Minardi, Stewart e Prost, Bridgestone surpreendeu em seu primeiro ano de F1, 1997; quase-vitória de Damon Hill no GP da Hungria foi ponto alto

Na briga de palavras entre chefões e (ex-)pilotos, o comitê editorial do Projeto Motor decidiu ficar do lado de quem sente os efeitos desse tipo de decisão na pista. Há uma grande motivação para isso: nós não vimos o equilíbrio de forças da F1 aumentar com a padronização dos pneus. Pelo contrário: desde que a regra vige, estamos no segundo ciclo hegemônico recente da categoria: primeiro foi o da Red Bull, de 2010 a 2013; agora temos o da Mercedes, que começou no ano passado e sabe-se lá até quando vai durar.

Óbvio que as donas da borracha vão dar preferência a uma ou outra escuderia, mas a concorrência ao menos abre opções a quem ambiciona lutar por vitórias e títulos. Em 2001 e 2002, quando se sentiram desprestigiadas pela Bridgestone, cujo desenvolvimento priorizava a Ferrari, McLaren e Williams migraram para a Michelin. Hoje, para encarar a Mercedes, a própria Ferrari não tem para onde correr.

Segundo ponto: a falta de opções priva os fãs de momentos como o do GP dos Estados Unidos de 1990, em que a Minardi de Pierluigi Martini largou da segunda posição do grid, porque os compostos da Pirelli se adaptavam muito bem ao clima e ao asfalto de Phoenix. Por fim, atravanca o desenvolvimento de compostos mais velozes, algo necessário para a F1 deixar de ser tão lenta em relação às categorias de base quanto agora.

Graças à boa adaptação da borracha da Pirelli ao circuito citadino de Phoenix, Pierluigi Martini obteve a única primeira fila de grid da história da Minardi
Graças à boa adaptação da borracha da Pirelli ao circuito citadino de Phoenix, Pierluigi Martini obteve a única primeira fila de grid da história da Minardi

Defender ações como esta, a fim de recuperar um senso de justiça perdido, não passa de subterfúgio, a fim de desviar o foco do que realmente causa desequilíbrio à F1: a divisão esdrúxula do dinheiro, algo que Lucas Santochi já apontou neste texto aqui.

Portanto, se os caciques querem realmente equalizar as coisas, que o façam do jeito certo. Acabar com a “guerra de pneus” não apenas é remédio improfícuo contra as disparidades da categoria: contribui para deixar o espetáculo um pouco mais sem graça…

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.