Sob Liberty, F1 lida com crise do coronavírus como nos velhos tempos

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A saga do cancelamento do GP da Austrália de F1, mais uma vez, mostrou a face mais desprezível e fria do esporte e da categoria. Em meio à crise mundial do coronavírus, que foi reconhecida na última quarta-feira (11) pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma pandemia, o que vimos em Melbourne foi um jogo de empurra e tentativa de driblar a realidade.

A decisão de não realizar o GP foi comunicada apenas duas horas antes do horário para que estava marcado o primeiro treino livre da etapa. E pouco depois da Mercedes anunciar que tinha enviado uma carta à FIA pedindo o cancelamento do GP, na sexta-feira (da Austrália). Para se ter ideia, existia público esperando nos portões do circuito sem saber se poderia entrar ou não para o evento.

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Isso tudo mais de 12 horas depois da McLaren já ter anunciado que não iria participar da corrida. A equipe teve um integrante diagnosticado com coronavírus. Outros 14 funcionários que tiveram contato direto com ele entraram em regime de quarentena no hotel em que o time está hospedado, seguindo recomendações das autoridades de saúde australianas. Será que a F1 ainda não percebido que não tinha como seguir com o evento?

Durante os últimos dias e horas, diversas categorias pelo mundo, como Fórmula E, MotoGP, Indy, Nascar, Stock Car e outras, cancelaram, adiaram ou resolveram fazer suas corridas sem a presença de público, cada uma analisando o cenário específico que iria enfrentar.

A F1 recebeu o comunicado da McLaren e adiou até o fim a sua decisão, sem uma comunicação ou nada. Isso paralelamente a um mundo em que as bolas de valores despencam, governos anunciam áreas de quarentenas, eventos, encontros e fóruns são cancelados nas mais diversas áreas da economia, e empresas estão colocando em prática planos de crise para evitar a maior disseminação do coronavírus.

O maior problema nem foi a decisão a ser tomada, mas a demora. Não se considerou que a cada hora sem informações sobre evento no país, aumentava a chance de mais problemas com o coronavírus. Pessoas estavam se movimentando, equipamentos sendo instalados e por aí vai. E nem vamos falar da imagem da F1, que foi jogada no lixo após um dia inteiro no fuso horário ocidental com informações desencontradas e nenhuma posição oficial. Um desrespeito total com público, funcionários, voluntários e stake holders em geral.

Circuito de Albert Park, em Melbourne, recebe a F1 desde 1996
Circuito de Albert Park, em Melbourne, recebe a F1 desde 1996 (Foto: Sam Bloxham / LAT Images / Pirelli)

Cerca de 4 mil pessoas viajam com a F1, entre equipes, imprensa, organização, FIA e outros. Essas pessoas estão vindo ou indo para lugares que estão enfrentando problemas com o coronavírus. Seja qual for o sentido desse fluxo, essa movimentação só aumenta a chance de acelerar a disseminação do vírus. É o problema de um evento global.

Se custa dinheiro – e custa muito – para o cancelamento, alguém deveria fazer a conta de qual é o valor dessa irresponsabilidade com a saúde de pessoas que talvez nem saibam o que é F1, mas que em algum momento de seu dia cruzam com alguém que está nesta circulação louca pelo mundo. Quanto vai sair a brincadeira com pessoas no hospital, fazendo quarentenas e exames?

Uma história de descaso antes do coronavírus

A história nos mostra que a F1 nunca foi muito interessada no que acontece fora dos muros de seus autódromos. Um dos exemplos mais recorrentes e lembrados dessa frieza com a condição humana foi a categoria competir na África do Sul ainda durante o período do apartheid, enquanto quase todos os outros esportes excluíam o país de suas competições e governos pelo mundo rompiam relações com o regime sul-africano.

Não faz tanto tempo assim, há menos de 10 anos, a F1 voltou a dar de ombros para uma situação parecida. Mesmo durante a explosão da Primavera Árabe, a administração da categoria levou até o limite a intenção de competir no Bahrein em 2011, sendo obrigada a cancelar a prova poucas semanas antes do GP. Um ano depois, porém, mesmo com o país do Oriente Médio ainda em crise interna, acusado de sufocar as manifestações com violência, e diversos governos reprovarem a etapa, a F1 voltou a Sakhir e correu como se nada fosse.

Alvo de polêmicas no passado, GP do Bahrein de 2020 já foi adiado pela F1 por causa do coronavírus
Alvo de polêmicas no passado, GP do Bahrein de 2020 já foi adiado pela F1 (Foto: Mark Sutton / Motorsport Images / Pirelli)

Em 2017, o grupo americano Liberty Media comprou a empresa que detém os direitos comerciais da F1, tirando Bernie Ecclestone da administração da categoria. Junto com a troca, veio uma promessa de modernização, não só dos carros, mas da visão para o campeonato. Agora, podemos avaliar que a promessa foi uma bravata e tudo continua do jeito que sempre foi.

Há poucos meses, a companhia lançou um grande plano para zerar a pegada de carbono da F1, acenando para uma categoria ambientalmente mais equilibrada. Nesta semana, no entanto, ela anunciou uma parceria comercial com a Aramco, empresa petrolífera estatal da Arábia Saudita e uma das maiores poluidoras do planeta. E isso, um dia depois dos árabes causarem um pandemônio na economia internacional ao entrar em uma guerra comercial sobre o preço do petróleo. E daí, certo?

Sim, a F1 é um negócio. E sim, ela tem acionistas que visam o lucro. Tudo sempre foi assim. Mas será que um negócio gerido desta forma terá espaço no mundo no futuro a médio prazo? Tem hoje? E no final das contas, levar a situação até o limite fez bem ou foi pior para a imagem financeira da categoria. Não podemos esquecer que a F1 hoje é listada na bolsa de Nova York e o valor de suas ações estão em queda brutal desde o começo do problema com o coronavírus. Será que levar tudo até as últimas consequências foi a melhor maneira de mostrar um bom gerenciamento de crise?

A Liberty chegou ao comando da F1 prometendo mudanças, e durante esta semana pré-GP da Austrália se mostrou tão fria e cruel quanto era Bernie Ecclestone. Precisou algo que não víamos há tempos: um posicionamento mais firme das equipes, principalmente McLaren e Mercedes, que vieram a público.

Diante de tantos problemas, a categoria também já anunciou o adiamento dos GPs do Bahrein e Vietnã, que seriam os dois próximos do calendário, e admite que Holanda e Espanha estão em risco ao colocar no comunicado que o campeonato deve retornar apenas “no final de maio”. Uma atitude mais sensata e transparente para uma empresa que detém tantos seguidores. Pena que o primeiro estrago já foi feito. De novo.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.