Status de nº. 1 e muita grana: os detalhes do contrato de Nelson Piquet com a Lotus

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Nelson Piquet se juntou à Lotus em 1988, imediatamente depois de conquistar seu terceiro título mundial na F1. O tricampeão não viveu na equipe os melhores momentos de sua carreira, mas o seu contrato, que veio há público há alguns anos, revela alguns detalhes interessantes, como uma explícita situação de primeiro piloto, um código de conduta com o companheiro, Satoru Nakajima, e diversos bônus financeiros. 

Só para ter um parâmetro, recomendamos você também confira nosso material sobre o contrato de Ayrton Senna com a mesma Lotus-Honda na temporada anterior, em 1987. Mas, para poder comparar, é importante lembrar da situação que cada um vivia na carreira: Senna ainda era um jovem piloto em busca de espaço, com apenas quatro vitórias na F1, enquanto que Piquet já era um veterano, com 34 anos, 18 vitórias e dois títulos mundiais no currículo. 

É isso mesmo, dois títulos mundiais. Isso porque o acordo de Piquet com a Lotus foi assinado antes da conquista do tricampeonato, em duas fases: a primeira, no dia 5 de agosto de 1987, num documento chamado de “Memorando de Entendimento”, que era uma espécie de pré-contrato com os termos principais (confira seu conteúdo na íntegra aqui).

O anúncio oficial de sua chegada à Lotus foi feito poucos dias depois, no dia 7 de agosto, e em seguida, no dia 11 de setembro, Piquet assinou o contrato definitivo, este detalhando os termos um pouco mais a fundo (confira seu conteúdo na íntegra aqui). 

A assinatura de tudo tinha quatro partes envolvidas: por um lado, a equipe Lotus e a RJ Reynolds Tobacco International, dona da Camel, a principal patrocinadora do time; por outro, o piloto Nelson Piquet Souto Maior e a sua empresa, Race Ace Management Corporation, com sede em Curaçao, um paraíso fiscal nas Antilhas Holandesas. O acordo tinha duração de que ia de 1º de janeiro de 1988 a 31 de dezembro de 1989, ou seja, obrigatoriamente já englobava duas temporadas. 

Todo o contrato estava sob algumas condições, e logo no primeiro tópico o “Memorando de Entendimento” já diz: “O status de Nelson Piquet será de piloto nº. 1 da equipe Lotus, e o piloto nº. 2 será Satoru Nakajima.” Mais pra frente, o contrato de Piquet também diz que Nakajima está “contratualmente vinculado” à Declaração de Objetivos e Código de Conduta da Lotus, o que será aplicado a qualquer outro piloto que guiar pelo time. Explicaremos isso logo mais. 

As obrigações de cada parte

Ao assinar o acordo, a Lotus admitia: 

  • Dar a Piquet um seguro de vida com cobertura de £ 750 mil por corrida.
  • Manter o projetista Gerard Ducarouge como diretor técnico para 1988, com a intenção de renovar o contrato para 1989.
  • Contar com os motores Honda pelo menos por 1988.
  • Ter a Camel como patrocinadora principal em 1988, com a opção de extensão para 1989.
  • E ressaltar mais uma vez que Piquet seria o piloto nº. 1 durante todo o acordo. 

Já Piquet também se comprometia: 

  • Como de praxe, a ceder à Lotus seus serviços como piloto de corridas, além do direito de utilizar seu nome, fama e imagem para questões promocionais.
  • O brasileiro, porém, não estaria obrigado a endossar, na esfera pessoal, produtos de tabaco. Ele apenas teria de fazê-lo durante ações oficiais, comparecendo como um representante da Lotus.
  • A fazer todos os testes em pista que fossem “razoavelmente necessários”.
  • Além de ceder 10 dias à Lotus e 10 dias à Camel para se dedicar a ações promocionais fora dos autódromos. Todas as despesas seriam cobertas (incluindo viagem de primeira classe, hotel e aluguel de carro).
  • Ele não podia participar de atividades como asa-delta ou escalada, mas poderia andar de moto, esqui na neve e pilotar aviões. Mas, se ele por acaso perdesse alguma corrida por um acidente de moto ou de esqui, por exemplo, seu salário sofreria descontos proporcionais ao número de GPs que ele ficasse afastado – ou seja, receberia 1/16 a menos para cada corrida perdida. 
  • Piquet também não poderia negociar com nenhuma outra equipe até 31 de julho de 1989.

Sobre patrocinadores, Piquet teria de usar somente o uniforme da Lotus, com os patrocinadores da equipe, sem poder exibir nenhum patrocinador pessoal. Caso quisesse exibir alguma marca própria, ele teria de pedir autorização por escrito da Lotus, até para evitar que houvesse algum conflito com os patrocinadores do time. 

No capacete, Piquet teria de ter a presença da Honda acima da viseira, e da Camel no topo e nas laterais – ele decidiu pintar as suas tradicionais gotas de amarelo para deixar a marca de cigarros mais visível. 

Piquet usou capacete com tons de amarelo em passagem pela Lotus

As condições financeiras

Agora, vamos às partes mais curiosas: primeiro, as condições financeiras. Piquet recebeu US$ 220 mil de luvas da Camel logo no ato da assinatura do contrato. Ele também teria US$ 40 mil por temporada para cobrir despesas de viagem e estadia para as corridas.

A Lotus lhe pagaria US$ 1,5 milhão de salário (sendo US$ 900 mil pelas corridas, US$ 200 mil pelos testes e US$ 400 mil pelo direito de imagem). Estas condições eram idênticas às de Ayrton Senna um ano antes, mas, no caso de Piquet, ainda tinha muito mais.

Em 88, ele receberia mais US$ 3,5 milhões da Camel para poder explorar sua imagem e a fama. Ou seja, só no primeiro ano Piquet receberia um salário total bruto de US$ 5 milhões. Essa quantia seria paga em quatro partes iguais: em fevereiro, maio, agosto e outubro. 

Também há um destaque especial para os bônus. Na data do documento, Piquet ainda estava na luta pelo título de 1987, e ele receberia US$ 500 mil caso se tornasse campeão naquele ano (sendo US$ 150 mil da Lotus e US$ 350 mil da Camel). Ou seja, era um pagamento especial caso Piquet levasse o nº1 para os carros da Lotus. 

O curioso é que, no momento da assinatura do contrato, antes do GP da Hungria, Piquet liderava o campeonato justamente à frente de Ayrton Senna, que corria pela Lotus. No fim do ano ele confirmou o tricampeonato, então foi mais dinheiro para sua conta.

Em 1988, Piquet receberia US$ 4 mil por cada ponto marcado, mais US$ 250 mil caso conquistasse o título (US$ 75 mil pagos pela Lotus, US$ 175 mil pagos pela Camel). Sabemos que o título não veio, mas Piquet marcou 22 pontos (ou seja, foram mais US$ 88 mil para o brasileiro).

Para 1989, as condições eram mais ou menos parecidas, com o reajuste do salário total para US$ 5,5 milhões brutos pela temporada. Ou seja, era bastante dinheiro para a época. Em 1989, Piquet marcou 12 pontos, o que lhe rendeu US$ 48 mil a mais.

Declaração de Objetivos e Código de Conduta dos pilotos

Nakajima não poderia tentar ultrapassagens em Piquet sem autorização prévia

E agora a gente chega ao Anexo 1 do contrato, com a chamada “Declaração de Objetivos” da Lotus para a temporada de 88, o que ia ditar a dinâmica interna entre Piquet e Nakajima. A equipe destaca que seu principal objetivo para o ano é vencer o campeonato de Construtores, o que, segundo está escrito, “historicamente também deve resultar na conquista do título de pilotos”. 

Assim, continua o documento, os pilotos receberão equipamentos o mais idêntico possível, mas haverá ocasiões em que o programa de desenvolvimento determinará que um dos carros seja levemente diferente em termos de especificação. Então, para isso, o piloto de nº. 1 (no caso, Piquet), terá este suporte – e também teria prioridade para o uso do carro reserva. 

Então temos o Código de Conduta, que usa determinações de forma bastante clara. Em um evento de condições normais, espera-se que o carro de nº. 1 “termine à frente do segundo carro”. Para isso, o “carro de apoio”, como está escrito, não deverá tentar ultrapassagens, a menos que Piquet, seja por mau rendimento, seja por problema mecânico, sinalize com as mãos para que Nakajima o ultrapassasse, ou que haja um aviso claro vindo dos boxes.

Além disso, caso estivesse à frente de Piquet, Nakajima também teria de aceitar ceder sua posição “para os interesses de pontuação”. 

No papel parecia um projeto grandioso, mas na prática não foi bem assim. Piquet, que ainda sentia os efeitos do acidente que sofreu em Imola, em 1987, conquistou apenas três pódios em 1988 e ficou somente na sexta posição na tabela. Em 1989, a Lotus perdeu os motores Honda e passou a usar os Judd, sendo que Piquet não subiu no pódio e ficou em oitavo no campeonato. Depois disso, ele se transferiu a Benetton, onde viveu os últimos e felizes capítulos de sua carreira. 

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Confira mais detalhes em nosso vídeo especial:


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.