Super Fórmula: por que o caminho rumo à F1 também deve passar pelo Japão

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Para quem se interessa por categorias de base e formação de pilotos, segue um dado curioso. Entre 2014 e 2016, os três campeões da GP2 (hoje F2) demoraram um ano para ir à F1. E dois deles passaram essa temporada de espera competindo na mesma categoria: a Super Fórmula japonesa.

Essa transição Europa-Japão-F1 é relativamente rara nos tempos modernos. Algumas questões geográficas e comerciais tiraram a Terra do Sol Nascente da rota convencional rumo ao topo, mas, no passado, não era bem assim.

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A Super Fórmula japonesa tem suas raízes nos anos 1970, quando foi criada a divisão de monopostos no país. De lá para cá, ela passou por fases e nomes distintos, como Fórmula 2000, F2, F3000 e F-Nippon, inclusive abrigando figuras como Michael e Ralf Schumacher, Eddie Irvine e Heinz-Harald Frentzen, que posteriormente brilharam na F1.

Atualmente, Stoffel Vandoorne e Pierre Gasly são indícios de que, sim, a Super Fórmula pode se tornar um passo valioso para um piloto que quer afiar suas armas e chegar à F1 o mais bem preparado possível, preenchendo lacunas que talvez as divisões europeias ainda deixem em aberto.

Por dentro da categoria japonesa

Grid da Super Fórmula tem 19 carros (GEPA Pictures)
Grid da Super Fórmula tem 19 carros (GEPA Pictures)

A Super Fórmula utiliza desde 2014 o chassi SF14, produzido pela fabricante italiana Dallara – a mesma que também constrói os carros de F2, Indy, Fórmula E, entre outras.

O desenvolvimento do SF14 teve seu pontapé inicial após um longo intercâmbio de informações entre pilotos e projetistas, o que resultou em um modelo baixo e parrudo – ao menos em comparação ao GP2/11, usado entre 2011 e 2017 pela categoria imediatamente abaixo da F1.

Super Fórmula Japão

Com chassi padrão, o que divide a competição são os motores. As unidades turbo de quatro cilindros em linha de 2 litros são responsabilidade de Toyota e Honda, únicas a abastecer os 19 pilotos do grid (11 usam motores da primeira, oito da segunda).

Mas, configurações técnicas à parte, uma coisa se destaca em favor da Super Fórmula: trata-se de uma das categorias mais velozes de todo o planeta. Evidentemente, é difícil traçar parâmetros confiáveis de comparação com a Indy, por exemplo. Contudo, após um cruzamento de dados, ela se posiciona em destaque diante de outros certames de renome, sendo uma das mais próximas da F1 neste quesito.

No gráfico abaixo, a F1 se estabelece como a mais veloz, em posição zero. O cálculo, então, foi feito em porcentagem do déficit de velocidade em comparação a ela:

Entretanto, velocidade não é o único parâmetro de avaliação de uma categoria. A questão aqui é que o comportamento do SF14 em pista coloca os pilotos em um desafio que nem mesmo a F2 consegue impor a seus participantes.

SF14 não tem muita velocidade final: ele se destaca é nas curvas (GEPA Pictures)
SF14 não tem muita velocidade final: ele se destaca é nas curvas (GEPA Pictures)

O motor da Super Fórmula não é dos mais fortes. Ele produz regularmente cerca de 540 cv, com 50 cv a mais quando o botão de ultrapassagem é acionado – ele pode ser utilizado cinco vezes na corrida, por 20s em cada ativação, o que aumenta tanto os giros quanto o fluxo de combustível usado. Além disso, o SF14 é largo, o que também provoca grande arrasto aerodinâmico.

Na F2, por exemplo, o motor empurra mais: o GP2/11 conta com um propulsor de 610 cv, sendo que o conjunto também é 11 cm mais estreito – o que representa uma menor resistência do ar.

Isso significa que, mesmo sendo mais veloz no cômputo geral, o Super Fórmula tem velocidades finais mais baixas nas retas. Ele se destaca, então, justamente nas curvas, já que a grande pressão aerodinâmica e o peso geral (28 kg mais leve que o F2) permitem ao piloto carregar maior velocidade nas tomadas. Essa dinâmica acaba por se assemelhar mais com o que se vê na F1 e seu carro da nova geração de 2017.

“A aderência que você tem é incrível. O carro é realmente leve e tem muita pressão aerodinâmica. Em termos de potência está um pouco abaixo da GP2, mas a aderência na curva é impressionante – o que é um bom ponto se comparado aos novos carros da F1″, avalia Pierre Gasly

Há outros aspectos que fazem da Super Fórmula uma boa saída para complementar a formação de um piloto rumo à F1. Os pneus Yokohama, usados na categoria desde 2016, são altamente resistentes, o que diminui a variação estratégica e até mesmo pode provocar corridas menos movimentadas.

Contudo, isso também possibilita que os pilotos mantenham um ritmo forte o tempo inteiro, sobretudo em uma categoria cujas rodadas têm, em sua maioria, 250 km de extensão – o que proporciona corridas longas, com cerca de 1h20.

Os pneus de alto desgaste da F2 desenvolvem um senso de preservação valioso, mas a passagem adicional pela Super Fórmula pode complementar a apuração das habilidades em diferentes aspectos e tornar pilotos mais versáteis.

Por fim, um outro ponto de destaque da Super Fórmula nesta comparação direta: ao contrário de categorias de base, repletas de jovens famintos por espaço, o certame japonês conta com pilotos dos mais diversos perfis.

(GEPA Pictures)
(GEPA Pictures)

Em 2017, por exemplo, ela tem em seu plantel nomes como Andre Lotterer, Kamui Kobayashi e Kazuki Nakajima, todos veteranos no automobilismo internacional; Felix Rosenqvist e o próprio Gasly são jovens que buscam seu espaço; já nomes como Hiroaki Ishiura, Yuji Kunimoto e Naoki Yamamoto fazem carreira na categoria e já possuem longa bagagem por lá. Qualquer aspirante que se testa em um grid com esse perfil certamente aprenderá lições que podem fazer a diferença em um ambiente altamente competitivo com a F1.

Porém, há entraves que impedem que a Super Fórmula seja uma fornecedora de talentos frequente para a F1 – inclusive o político. Após a revisão do sistema de pontos para a aquisição de superlicenças, a categoria japonesa contribui menos do que GP3 ou a capenga Fórmula V8 3.5. Até a Fórmula E, que, apesar de sua visibilidade, é menos representativa tecnicamente para a formação de um piloto, coloca seus representantes mais perto da F1.

Mesmo nesse cenário, a Super Fórmula pode desempenhar um papel importante. A história recente tem mostrado que, por diversos motivos, nem sempre um campeão da F2 consegue promoção imediata à F1. Nesse interim, a presença em uma divisão tecnicamente forte, diante de uma concorrência experiente, ajuda a afiar as armas e se manter na ativa. A rota rumo à F1, normalmente concentrada na Europa, também pode ter uma parada a mais no Japão.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • SuzukaDriver90

    Fazer uma temporada na Super Formula é um grande negócio para pilotos como Gasly e Vandoorne, mas acredito que seria um erro colocar a SF no rol de categorias de base visto que a mesma é uma categoria profissional.

  • Maurilio Andrade

    Torço muito para que os japoneses internacionalizem a SF.
    Seria legal se algum canal de tv a cabo tivesse interesse em transmitir as corridas para o Brasil, mesmo que fosse em VT.

  • Rômulo Guimarães Andrade

    Excelente texto.
    Estive buscando ultimamente alguma informação sobre essa categoria e não conseguia muita coisa.
    Parabéns pela matéria!

  • Lembro de ter averiguado a diferença de desempenho entre a Indy e a F Nippon em 2011, na ocasião em que a categoria americana foi correr em Montegi e contou com a participação de João Paulo de Oliveira. na época as duas categorias estavam correndo com as gerações anteriores dos carros que vimos em 2017 e os bólidos japoneses eram cerca de 5 segundos mais rápidos…

    Lembro que Oliveira andou bem e abandonou com problemas mecânicos mesmo sem conhecer o carro. O fato de ele não ter se preocupado em buscar uma vaga na Indy meio que demonstrou a força da categoria japonesa na época. Penso que há um empate técnico entre as categorias em termos de profissionalismo, com os americanos desempatando a seu favor por causa da tradição e de ter as Indy 500 no calendário. vale a pena aguardar mais um pouco e ver se os japoneses conseguem levar adiante o plano de internacionalizar a SF…