Testes, simulador, superlicença: como Pietro Fittipaldi almeja o sonho da F1

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Pietro Fittipaldi acumulou mais uma experiência na F1 nas atividades de pré-temporada de 2019. O brasileiro, piloto de testes e de desenvolvimento da Haas, atuou na primeira semana de ação em Barcelona e pôde obter uma bagagem valiosa, algo que não é exatamente comum para não-titulares neste estágio do ano.

Como o período de testes antes do início do campeonato é relativamente curto – apenas oito dias de treinos, divididos entre os pilotos –, Fittipaldi foi uma exceção da primeira semana na Espanha: ele foi o único não-titular a guiar os novos modelos.

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Porém, a semana também lhe trouxe surpresas, já que a programação foi alterada por motivos de força maior. Originalmente, Fittipaldi guiaria por dois turnos completos (na tarde do terceiro dia e na manhã do quarto), mas problemas mecânicos fizeram com que a Haas repensasse o plano.

Quando Kevin Magnussen teve problemas com seu banco no segundo dia e precisou se afastar ao fim das atividades, a equipe americana fez uma convocação surpresa a Pietro para completar a jornada. Não houve tempo para muita ação – o brasileiro só foi à pista nos 30 minutos finais e deu apenas 13 voltas, mas foi suficiente para ter um primeiro contato com o VF-19.

“Com certeza aquilo ajudou – especialmente com a posição do banco, dos pedais. Quando você faz a posição do banco e dos pedais, isso tem de ficar 100% para que você possa começar a acelerar. Às vezes você precisa fazer ajustes, como fizemos, mas foi bom para que pudéssemos começar o segundo dia acelerando logo de cara, sem precisar parar e mudar os pedais ou coisas do tipo”, comentou Fittipaldi, em entrevista acompanhada pelo Projeto Motor  em Barcelona.

E, de fato, o segundo dia proporcionou um trabalho mais intenso. Apesar de um problema elétrico em seu carro que o fez parar na pista e provocou uma bandeira vermelha, Pietro conseguiu se aclimatar mais ao modelo, desbravando aos poucos o limite e mostrando progresso. Ele completou seu dia com 48 voltas e anotou 1min19s249 com pneus C4, o segundo mais macio da Pirelli.

Steiner (direita) elogiou participação de Fittipaldi (Divulgação/Haas)

“Foi um bom dia, realmente produtivo. O carro estava muito confiável e pudemos passar por todo o programa que queríamos. Isso foi importante: dei muitas voltas, fiz algumas boas mudanças e melhorias. Para mim, pude obter mais quilometragem em um carro de F1, o que é realmente importante”, analisou.

No entanto, Pietro não pôde guiar o tanto que gostaria. Novos problemas mecânicos da Haas tiraram tempo de pista de Romain Grosjean e fizeram com que a equipe mudasse sua programação para priorizar os titulares, de modo que o brasileiro foi “desescalado” no último dia. Mesmo assim, o chefe da Haas, Gunther Steiner, aprovou a participação de Fittipaldi.

“Pietro fez um bom trabalho”, comentou. “Sua performance foi muito boa e ele fez exatamente aquilo que precisávamos.”

“Ele esteve em todas as reuniões com engenheiros e sabe o que está fazendo. Para sua idade, ele guiou muitos carros, e isso faz diferença para um piloto: ele andou para cima e para baixo e já guiou em ovais, em pistas de terra. Ele tem um bom entendimento e sabe o que o engenheiros querem saber.”

Foco após temporada complicada

A maior presença na F1 representa uma fase de recuperação para Fittipaldi, já que o piloto de 22 anos veio de uma temporada bastante complicada em 2018. Ele pretendia competir simultaneamente em três categorias (Indy, WEC e Super Fórmula japonesa), mas sem estar integralmente em nenhuma delas – uma decisão que até provocou estranheza e levantou dúvidas sobre o foco de Fittipaldi para seu futuro.

Porém, em maio, veio o episódio que mudou tudo. Fittipaldi sofreu um forte acidente nas atividades das 6 Horas de Spa do WEC, quando seu BR Engineering-Gibson BR1 da equipe DragonSpeed enfrentou problemas mecânicos no complexo Eau Rouge/Raidillon. O violento impacto com a barreira de proteção fraturou as duas pernas de Pietro.

O piloto voltou à ativa somente dois meses depois, mas seu ano já havia sido comprometido. “Eu planejei fazer quase que o campeonato inteiro da Super Fórmula, mas infelizmente tive o acidente em Spa e fiquei de fora da maioria das corridas. Voltei acho que um pouco cedo demais, minha perna ainda estava fraturada, então foi muito difícil dirigir”, comentou ao Projeto Motor.

Fittipaldi voltou à ativa apenas dois meses após fraturar as duas pernas (Chris Owens/IndyCar)

“Quando voltei na Indy, não estava conseguindo pisar no freio, porque o osso ainda estava separado. Doía muito. Mas, a cada semana que se passava, minha perna melhorava, então, no fim, eu estava quase 100%.”

Apesar disso, Pietro conseguiu tirar proveito da experiência de atuar em diversos carros, já que guiou, nos últimos dois anos, modelos de F1, Indy, LMP1 (tanto híbridos quanto privados), F2, Super Fórmula e Fórmula E.

“Normalmente sou muito bom quando vou guiar um carro novo, me adapto muito rapidamente ao carro, e para mim não seria um problema pular de um carro para outro.”

“Pude trabalhar com várias equipes diferentes, categorias diferentes, então essa experiência foi muito boa para mim. Toda vez que eu entrava em um carro novo era como um exercício e eu conseguia chegar ao limite bem rápido, o que é muito importante.”

“Tive que aprender vários sistemas diferentes, de vários carros diferentes, porque não é só dirigir: um carro de F1, e Fórmula E, o LMP1, tem várias coisas que você precisa fazer, mexer nos ajustes do volante, fazendo tudo quando você está forçando o ritmo na pista. Isso me deu muita experiência e milhagem.”

A questão da superlicença

Agora relacionado oficialmente a uma equipe de F1, Pietro Fittipaldi colocará a Haas como sua prioridade para 2019. O piloto atuará em simulador (a Haas utiliza a estrutura da fornecedora de chassi, a Dallara, na Itália), participará de reuniões com engenheiros, comparecerá a GPs e deverá fazer mais testes em pista, especialmente aqueles que estão dentro da cota de atividades obrigatoriamente destinadas a pilotos que possuem, no máximo, duas largadas na F1.

Fittipaldi insiste que ainda busca uma categoria para competir de forma esporádica, contanto que isso não interfira em seus compromissos com a Haas. “Eu já sabia que, com o que estou fazendo com a Haas, seria difícil fazer um campeonato inteiro. Estou morando na Itália agora, então toda semana estou fazendo alguma coisa com a equipe. O trabalho já começou desde janeiro”, explica.

“Quero correr neste ano, mas a prioridade é com a Haas. Estamos finalizando um programa de corridas – ainda não finalizamos, mas estamos perto. Mas a prioridade é com a Haas, então tem de ser algo que se encaixe com o calendário deles.”

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A decisão de carreira de Fittipaldi, que prioriza um trabalho de bastidor e coloca as competições em pista em segundo plano, mais uma vez levanta questionamentos sobre suas possibilidades de chegar à F1 como titular. Neste caso, não se trata nem de avaliar se o piloto já acumulou bagagem, experiência e conquistas para dar o próximo passo, e sim uma questão burocrática: ele não possui os 40 pontos necessários para emitir a superlicença e correr na F1.

Fittipaldi somente conseguiu coletar pontos em sua passagem pela Fórmula V8 3.5, entre 2016 e 2017. Naquela época, o sistema vigente bonificava em 35 pontos o campeão e em um ponto o décimo colocado, posições em que o brasileiro terminou em suas duas campanhas. A pontuação da Fórmula V8 3.5 seria reajustada para 2018, passando a dar somente 20 pontos para o campeão, mas tal sistema sequer chegou a entrar em vigor, uma vez que a categoria fechou suas portas.

Os 36 pontos de Pietro foram oficialmente confirmados ao Projeto Motor pela FIA, que esclareceu, portanto, que o brasileiro possui condições de emitir a licença para participar de treinos livres de sexta-feira (para a qual precisa ter, no mínimo, 25 pontos), mas não a superlicença “cheia” para correr.

ARQUIVO: o sistema de pontos da superlicença de 2016/2017

É importante destacar também que os pontos para superlicença possuem apenas três anos de duração, então Pietro deverá ver seu ponto obtido em 2016 ser descartado até o fim de 2019 – caindo, então, para 35.

O Código Desportivo Internacional da FIA é claro ao estabelecer que pilotos que buscam emitir a superlicença pela primeira vez, como é o caso de Fittipaldi, têm de ter obrigatoriamente, no mínimo, os 40 pontos. Assim, de imediato, uma solução óbvia para Pietro seria competir em qualquer campeonato válido no sistema da FIA para obter os pontos restantes, e isso poderá incluir até certames que não são realizados durante todo o ano.

Isso envolve, por exemplo, o GP de Macau de F3 (que dá cinco pontos ao vencedor) ou o torneio de férias neozelandês da Toyota Racing Series (sete pontos ao campeão, cinco para o vice).

Porém, há possíveis mudanças no horizonte que podem interferir diretamente na situação de Pietro. O Projeto Motor apurou que existe a possibilidade de haver reajustes no sistema de superlicença, incluindo a introdução de novos critérios que renderiam pontos – como, por exemplo, a possibilidade de uma bonificação extra a pilotos que acumularem quilometragem significativa em atividades oficiais de F1 (em seus dois testes, Fittipaldi já acumulou quase 600 km, ou seja, o dobro dos 300 km que são costumeiramente usados como critério pela FIA, dependendo de cada caso). Com 5 pontos de bonificação, Fittipaldi já cumpriria todos os critérios para emitir o documento.

Qualquer mudança, porém, teria de passar por aprovação do Conselho Mundial da FIA, sendo que o assunto não deverá entrar na pauta das reuniões até o evento de 14 de junho, em Paris. A FIA, no entanto, não confirmou oficialmente a possibilidade de mudanças quando questionada pelo Projeto Motor, limitando-se a dizer somente que Pietro possui, por ora, 36 pontos, menos que o necessário para a superlicença.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.