Título de 90 mostrou que até ídolo como Senna pode ser perverso na F1

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Exatos 25 anos atrás, o público presente à largada do GP do Japão, em Suzuka, testemunhou um dos episódios mais controversos na história da F1.

Metros após o sinal verde, o pole position Ayrton Senna, da McLaren, largou mal e perdeu a liderança para Alain Prost, piloto da Ferrari e rival na luta pelo campeonato. Mas era o auge da antipatia mútua entre os dois e o brasileiro não parecia inclinado a aceitar um revés para o francês na corrida que, por uma combinação de resultados, poderia definir seu bicampeonato.

Senna e Prost voltam aos boxes após o famoso acidente (Divulgação)
Senna e Prost voltam aos boxes após o famoso acidente (Divulgação)

Então partiu para uma manobra tão esquisita quanto condenável: buscou um espaço utópico no lado interno da pista e posicionou-se ao lado de Prost. Ali o acidente tornou-se iminente: a lateral esquerda do McLaren MP4/5 tocou o aerofólio traseiro da Ferrari 641 e os dois se chocaram a mais de 200 km/h. Enquanto o francês saiu remoinhando e estacionou na brita, Senna bateu com violência na barreira de pneus. O título, entretanto, era dele.

A atitude de Senna ainda é amplamente debatida hoje. Em solo brasileiro, boa parte da imprensa se colocou a favor do tricampeão ou lavou as mãos. O julgamento que à época se tinha era de que a vingança fora justa em razão de um episódio semelhante – talvez com um pouco menos de cinismo – ocorrido entre os rivais no mesmo GP do Japão, um ano antes. Naquela ocasião, Senna ainda se recuperou do choque e venceu o páreo, mas foi desclassificado pela Fisa (Fédération Internationale du Sport Automobile) por cortar uma chicane para voltar à pista.

Outra alegação foi a de que o brasileiro fora injustiçado na prova de 1990. Ayrton, pole em Suzuka pelo terceiro ano consecutivo, solicitara aos fiscais da Fisa  que as posições de primeiro e segundo no grid fossem trocadas. Isso porque o vice-líder da grelha, Prost, se posicionaria no lado esquerdo do asfalto, mais próximo ao pitlane e, consequentemente, onde a pista era mais emborrachada, o que permitia maior aderência aos carros.

A Fisa negou o pedido. E Ayrton encarou aquilo como uma afronta do presidente da entidade, Jean-Marie Balestre, que era francês como Prost e, dizem, não ia lá muito com a cara do brasileiro. O vídeo abaixo demonstra o clima tenso no briefing dos pilotos pouco antes da corrida. Vejam também como Senna se irrita com o questionamento do compatriota Nelson Piquet, da Benetton, sobre possíveis colisões durante a prova – relembrando, sem dar nomes, o que acontecera entre Ayrton e o arquirrival Alain na temporada anterior.

A mídia estrangeira, em geral, é mais rígida em relação ao que aconteceu. De certa forma, uma argumentação à qual o comitê editorial do Projeto Motor, com ligeira variação, concorda. O consenso é de que Senna, talvez frustrado com um suposto favorecimento de Balestre a Prost, não estava conseguindo responder à pressão da Ferrari na luta pelo campeonato. Se antes o sul-americano podia observar de perto as “manobras” do europeu, ocupando a mesma garagem da McLaren, as coisas se tornariam mais difíceis com Prost em Maranello.

Bom desempenho de Prost nas provas anteriores a Suzuka afetaram Senna (Divulgação)
Bom desempenho de Prost nas provas anteriores a Suzuka afetaram Senna (Divulgação)

É importante também lembrar que a 641 tinha se mostrado bem mais rápida que o MP4/5 nas duas provas anteriores, em Portugal e na Espanha. No Estoril, Senna no fundo teve sorte de terminar a corrida à frente de Prost, prejudicado por um incidente com o companheiro Nigel Mansell – que venceria a corrida – logo nas primeiras voltas. Já em Jerez, uma falha no radiador do MP4/5 comprometeu o fim de semana de Ayrton e permitiu a aproximação do francês, vencedor em solo ibérico, na briga pelo campeonato.

Dois componentes, portanto, pesavam na mente do brasileiro. Se Prost vencesse as duas corridas remanescentes, seria sua segunda derrota consecutiva para o francês na briga pelo título mundial. Por outro lado, se o ferrarista abandonasse uma das duas provas, o troféu era de Ayrton. Não é difícil imaginar então por que Senna estava tão preocupado em largar à frente do rival em Suzuka.

Contudo, nada, mas nada, ao menos na opinião do autor, justifica o que aconteceu na largada do GP do Japão de 1990. Senna colocou tanto a sua vida quanto a de Prost em risco numa atitude que considero uma das mais execráveis na história da F1 – e acreditem que essa constatação é difícil, principalmente vinda de alguém que se apegou à arte de acompanhar automobilismo graças à influência de Ayrton na cultura pop brasileira dos anos 90.

Em sua tentativa de derrotar Balestre e Prost, Senna preferiu se igualar a ambos em matéria de cinismo e mesquinharia e adotar o caminho mais fácil de vencer o campeonato, que, de certa forma, ficou maculado por causa de tal atitude. Ninguém se lembra de uma “decisão do título” e sequer do campeonato, como Leonardo Felix expõe neste belo texto; a primeira memória é do acidente.

Título de Senna em 1990 foi maculado por acidente (Divulgação)
Título de Senna em 1990 foi maculado por acidente (Divulgação)

O pior no episódio de Senna é que essa tática rasa e censurável do tricampeão respingou nas temporadas seguintes da F1 – como no caso de Michael Schumacher, discípulo do brasileiro tanto em ética quanto em talento, em 1994 e 97 – e mesmo em campeonatos de base. Numa corrida da F3000 Japonesa, em 1992, Hitoshi Ogawa e Andrew Gilbert-Scott colidiram na mesma curva em alta velocidade. Só que desta vez as consequências foram graves: Ogawa foi morto e Gilbert-Scott, um câmera e dois fotógrafos ficaram feridos, o que dá a medida exata do que poderia ter acontecido se Senna e Prost estivessem num dia mais azarado.

Claro: é muito importante sempre separar artista e obra. Senna foi o piloto mais virtuoso da história da F1, dono de velocidade e talento inigualáveis. Mas há certa perversão em sua personalidade que é difícil de ignorar, infelizmente trazida à tona toda vez em que assistimos ao acidente de Suzuka. Mesmo os mitos falham, afinal.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.