Trágico e polêmico, 1994 teve troca de meio grid da F1 durante o ano

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A temporada de 1994 da F1 será sempre lembrada pelas tragédias com Ayrton Senna e Roland Ratzenberger, as polêmicas envolvendo o regulamento e, claro, a decisão do título no acidente entre Michael Schumacher e Damon Hill.

Só que teve muito mais do que isso. A F1 viveu em 1994 um ano muito mais conturbado do que as pessoas lembram. As equipes médias e pequenas passavam por momentos de grande aperto financeiro. Depois dos acontecimentos em Ímola, houve uma cruzada por segurança dirigida mais por impulsos baseados na necessidade de se dar uma resposta rápida à opinião público do que na racionalidade do que se poderia ser feito.

Isso resultou em uma mudança considerável no regulamento da F1 ainda durante a temporada, obrigando as equipes a praticamente refazerem seus carros para se adaptar aos novos requisitos. Se dinheiro já estava escasso antes, depois das alterações muitos times ficaram de pires na mão, num cenário que sempre causa a busca por competidores pagantes e que deixa quem está no cockpit com a eterna insegurança de que um cheque mais polpudo possa surgir a qualquer momento.

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Some isso a quantidade de contusões de pilotos por acidentes, além, claro, das mortes de Senna e Ratzenberger, e a F1 viu uma mudança radical no seu grid até o final da temporada. Das 14 equipes, apenas quatro mantiveram suas duplas durante todo o ano: Tyrrell (com Ukyo Katayama e Mark Blundell), Footwork (com Christian Fittipaldi e Gianni Morbidelli), Minardi (Pierluigi Martini e Michele Alboreto) e Pacific (Paul Belmondo e Bertrand Gachot).

Apenas sete das 14 duplas se repetiram na primeira e última prova do campeonato, Interlagos e Adelaide, respectivamente. Estamos falando de metade do grid. Você consegue imaginar algo assim nos dias de hoje? Outras três equipes (McLaren, Jordan e Ferrari) foram forçadas, por conta de contusões de seus pilotos ou suspensões impostas pela FIA, a fazerem algum tipo de troca durante o ano.

A Lotus, por exemplo, utilizou, por variados motivos, sete pilotos diferentes durante a temporada. Larrousse e Simtek chegaram a seis. Do lado dos pilotos, quatro correram por duas equipes distintas no decorrer do ano e Johnny Herbert chegou a andar por três times nos GPs: Lotus, Ligier e Benetton. Um loucura de trocas difícil de se imaginar.

Vamos às histórias dos times que sofreram alterações:

Williams

Pilotos em 1994: Ayrton Senna, Damon Hill, David Coulthard e Nigel Mansell

Obviamente, a Williams teve que fazer trocas em seu carro de número “2”. Com a morte de Senna, a equipe partiu para a etapa seguinte apenas com um carro, o “0” de Damon Hill, que passaria a ser o piloto principal do time.

Depois de passar pelas mãos de Senna e Coulthard, o carro “2” da Williams terminou a temporada com Mansell, que venceu o GP da Austrália

Na Espanha, a Williams promoveria a estreia de David Coulthard na F1. O escocês tinha um bom currículo nas categorias de base e foi uma aposta. Porém, o time rapidamente chegou à conclusão que precisava de um nome de peso para ajudar Hill na briga pelo título com Schumacher, e assim, chamou de volta Nigel Mansell a partir do GP da França.

O inglês ainda corria na Indy pela Newman-Haas e por isso fez um acordo que para retornar à F1 apenas em algumas provas. Isso significou que Coulthard ainda ficaria na maioria das corridas restantes, com Mansell voltando apenas nas três etapas finais, sendo que ele levou a vitória no encerramento da temporada, em Adelaide.

Benetton

Pilotos em 1994: Michael Schumacher, JJ Lehto, Jos Verstappen e Johnny Herbert

Enquanto Michael Schumacher comandava o campeonato no “5”, o time passou por mudanças em seu carro “6” por conta de lesões e desempenho abaixo do esperado de seus pilotos.

O piloto contratado para ser titular era JJ Lehto, só que um acidente na pré-temporada o deixou fora de condição de participar das primeiras corridas por conta de uma lesão no pescoço. Assim, o piloto de testes Jos Verstappen estreou na F1 em seu lugar nos GPs do Brasil e do Pacífico, abandonando ambas as provas ao se envolver em acidentes.

Em Ímola, Lehto finalmente correu pela equipe, só que logo na largada ficou lento na saída e foi acertado pela Lotus de Pedro Lamy por trás. O finlandês ainda participaria de mais três provas, marcando um ponto no Canadá. A esta altura do campeonato, Schumacher já tinha 56, na liderança.

A Benetton sofreu durante 94 para encontrar um parceiro para Schumacher e terminou o ano com Herbert, que conquistou o contrato para 95

A Benetton voltou a substituir Lehto por Verstappen, já que a lesão do primeiro ainda o incomodava nas corridas. Ele voltou nos GPs da Itália e Portugal no lugar do suspenso de Schumacher, que tomou um gancho por não ter respeitado uma bandeira preta na etapa de Silverstone.

Schumacher voltou em Jerez e Verstappen foi mantido no carro “6”. Mas o bom desempenho de Johnny Herbert na Lotus vinha chamando a atenção da Benetton que resolveu contratá-lo para as duas provas finais diante das dúvidas da condição de Lehto e do desempenho ruim de Verstappen.

McLaren

Pilotos em 1994: Mika Hakkinen, Martin Brundle e Philippe Alliot

A McLaren teve apenas uma modificação em sua dupla durante a temporada da F1. Mika Hakkinen foi considerado culpado por um acidente na largada da prova anterior, na Alemanha, que envolveu outros seis carros e tomou uma suspensão de uma prova na Hungria.

Por isso, o time inglês utilizou Philippe Alliot, piloto do programa da Peugeot, fornecedora de motores da equipe naquela temporada da F1. O finlandês retornou na prova seguinte.

Philippe Alliot teve uma rara chance de guiar para a McLaren durante 1994

Lotus

Pilotos em 1994: Pedro Lamy, Alessandro Zanardi, Philippe Adams, Éric Bernard, Mika Salo, Johnny Herbert, Alessandro Zanardi

A Lotus foi a equipe que mais mudanças fez durante a temporada, que seria a derradeira de sua história na F1 (pelo menos do time original). Ela terminaria o ano com sete pilotos diferentes em seus carros.

A dupla titular no começo de 1994 era formada por Johnny Herbert e Pedro Lamy. O português, porém, sofreu um acidente grave já durante a temporada, em uma sessão em Silverstone, em que quebrou as duas pernas. Alessandro Zanardi foi chamado para substituí-lo a partir do GP Espanha.

A Lotus sofreu com lesões e falta de dinheiro em 1994, tendo que apelar para sete pilotos diferentes durante o ano

Com o time se arrastando por falta de dinheiro, o italiano acabou perdendo sua vaga nos GPs da Bélgica e de Portugal para Philippe Adams, que injetou algum dinheiro na equipe. Outra situação aconteceu para a etapa de Jerez, em que a Ligier comprou o contrato de Herbert e assim a Lotus trouxe para seu lugar Eric Bernard, que estava na escuderia francesa.

Nas últimas duas etapas, no Japão e Austrália, a Lotus ainda pegou outro pagante, Mika Salo, para correr ao lado de Zanardi em suas duas últimas provas na F1.

Contamos em mais detalhes dessa história em nosso especial “A Derrocada da Lotus”.

Jordan

Pilotos em 1994: Rubens Barrichello, Eddie Irvine, Aguri Suzuki e Andrea de Cesaris

Assim como na McLaren, as mudanças na Jordan só aconteceram por conta de uma suspensão. Eddie Irvine foi considerado culpado de um grave acidente na abertura da temporada da F1, em Interlagos, em que ele empurrou Verstappen para grama e os dois ainda acertaram a McLaren de Martin Brundle e a Ligier de Éric Bernard.

O norte-irlandês tomou um gancho de três corridas da FIA. Na primeira, em Aida, no Japão, a Jordan utilizou o local Aguri Suzuki. Depois, em Ímola e Mônaco, a responsabilidade de pilotar o carro “15” ficou com o experiente Andrea de Cesaris. Irvine voltou na Espanha e seguiu normalmente até o final do ano.

Larrousse

Pilotos em 1994: Olivier Beretta, Philippe Alliot, Yannick Dalmas, Hideki Noda, Érik Comas e Jean-Denis Délétraz

Seis pilotos diferentes, esse foi o saldo da Larrousse em 1994. A dupla inicial era formada por Olivier Beretta e Érik Comas. O time até que manteve os dois por boa parte da temporada, mas na segunda metade do ano, o dinheiro ficou curto e uma série de pagantes começaram a se revezar no cockpit do time.

A primeira mudança aconteceu no GP da Bélgica, 11ª etapa, quando Philippe Alliot tomou o lugar de Beretta. Nas duas etapas seguintes, em Monza e Estoril, foi a vez de Yannick Dalmas assumir o carro “19”. A partir do GP da Europa, em Jerez, a Larrousse vendeu a vaga para o japonês Hideki Noda estrear na F1 e seguir até o final da temporada.

O carro “20” quase passou a época toda nas mãos de Comas, que foi substituído apenas na etapa final, em Adelaide, pelo suíço Jean-Denis Délétraz.

Ligier

Pilotos em 1994: Éric Bernard, Johnny Herbert, Franck Lagorce e Olivier Panis

A Ligier foi outra equipe que quase manteve seus dois pilotos por toda a temporada. Éric Bernard e Olivier Panis formaram a dupla por quase todo campeonato. A primeira substituição aconteceu em jogada em que o passe de Johnny Herbert, que vinha se destacando na Lotus, foi adquirido para substituir Bernard no GP da Europa, em Jerez.

Só que o negócio duraria apenas aquela prova, com o inglês sendo repassado para a Benetton no GP seguinte, em mais uma estranha situação na conturbada F1 daquele ano. Para as duas etapas finais de 1994, o francês Franck Lagorce foi o parceiro de Panis.

Ferrari

Pilotos em 1994: Jean Alesi, Nicola Larini e Gerhard Berger

A Ferrari foi uma das equipes que precisou fazer uma substituição na temporada de 1994 por conta de um acidente, mais um de muitos que aconteceram na F1 naquele ano.

Durante um teste em Mugello após a primeira etapa, no Brasil, Jean Alesi bateu forte e lesionou as costas. A Ferrari promoveu então seu piloto de testes, Nicola Larini, para substituir o francês nos GPs do Pacífico e San Marino, onde ele chegou a subir ao pódio no segundo lugar.

Sauber

Pilotos em 1994: Karl Wendlinger, Andrea de Cesaris, Heinz-Harald Frentzen e JJ Lehto

A Sauber tinha uma boa dupla de pilotos para 1994 com Karl Wendlinger e Heinz-Harald Frentzen. O austríaco, porém, sofreu um forte acidente durante os treinos livres do GP de Mônaco, em que perdeu o controle de seu carro na saída do túnel e bateu na barreira de pneus. Apenas uma prova depois da morte de Senna e Ratzenberger, uma tragédia parecia voltar a atormentar a F1.

Grave acidente de Wendlinger no GP de Mônaco, na prova seguinte às mortes de Senna e Ratzenberger, assustou a F1

Wendlinger estava inconsciente quando a equipe médica chegou ao local e passou várias semanas em coma. Na etapa seguinte, na Espanha, a equipe participou apenas com um carro, de Frentzen. Para o restante da temporada, a Sauber contratou o experiente Andrea de Cesaris enquanto Wendlinger passou a trabalhar em sua forma física para retornar à F1 em 95.

Nas duas corridas finais, o time ainda voltou a fazer uma mudança no carro “29”, trazendo JJ Lehto, que tinha sido substituído de forma definitiva na Benetton, para andar ao lado de Frentzen.

Simtek

Pilotos em 1994: David Brabham, Roland Ratzenberger, Andrea Montermini, Jean-Marc Gounon, Domenico Schiattarella e Taki Inoue

LEIA MAIS: A obscura cronologia do F1 que Roland Ratzenberger pilotava em Ímola

A pequena Simtek sofreu tanto com a morte de seu piloto, Roland Ratzenberger, quanto com a falta de dinheiro e a necessidade de pilotos pagantes para custear a conta de estar na F1.

David Brabham foi o responsável por conduzir o carro “31” durante toda a temporada. Após a morte de Ratzenberger em Ímola, o time foi a Mônaco apenas com um de seus carros, e contratou Andrea Montermini para assumir o “32” a partir de Barcelona. Novamente, o time enfrentou problemas, já que o italiano sofreu um forte acidente nos treinos livres em que quebrou o tornozelo, em mais um momento de pesadelo para a F1 em poucas semanas.

A Simtek voltou a se apresentar apenas com Brabham no Canadá, enquanto Jean-Marc Gounon foi o responsável por guiar o segundo carro na França. A dupla seguiu por boa parte da temporada até que o time precisou nas três provas finais abrir espaço para pilotos com mais dinheiro, ambos no lugar de Gounon.

Domenico Schiattarella correu em Jerez e Adelaide, enquanto o japonês Taki Inoue comprou a vaga para seu GP local, em Suzuka.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.