Um campeão anônimo no Olimpo da F1: a história de Denny Hulme

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Quando era pequeno e me deparava com a relação de campeões na F1, um nome chamava a atenção: Denny Hulme. O motivo era tão singelo quanto aleatório: o neozelandês era um campeão que não figurava nas estatísticas mais importantes da categoria e nem nas grandes epopeias narradas pela mídia automobilística. Já me dei conta uma vez que se fala mais em Gilles Villeneuve, que nunca se sagrou vencedor, do que Denny Hulme na imprensa britânica.

De qualquer forma, a fama low key de desapego à popularidade transformou Hulme, eu diria, no campeão mais anônimo da história da F1. Seu apelido, “o Urso”, era uma referência tanto à robustez física quanto à natureza arredia de sua personalidade. Durante os anos no esporte, o neozelandês, amigo pessoal de nomes como Bruce McLaren e Chris Amon, odiava entrevistas e muitas vezes se mostrava distante e irritadiço com os jornalistas. Por várias ocasiões, foi chamado como o piloto mais taciturno da categoria.

Neste sábado (18), Hulme completaria 80 anos de idade. Vinte e quatro anos atrás, no dia 4 de outubro, o Urso sofreu um ataque cardíaco enquanto disputava os 1000 km de Bathurst, sua prova favorita (veja no vídeo abaixo). Enquanto lutava pela vida, estacionou o carro no lado direito da pista para evitar um acidente. Em seguida, sem resistir às falhas no coração, faleceu abraçado com sua maior paixão, o volante de um carro, aos 56. Uma morte poética para um sujeito com personalidade dura e absorta como era Hulme.

O início da carreira

O plano de fundo na vida pessoal de Denny é curioso. Seu pai, herdeiro de plantação de tabaco, lutou pelo Império Britânico na Batalha de Creta, em 1941, e pela bravura no confronto, recebeu uma Cruz Vitória – a mais alta condecoração militar para os países da Commonwealth.

Depois da 2ª Guerra, mudou-se para Motueka, na ilha Sul da Nova Zelândia, para Te Puke, no Norte, onde estabeleceu uma concessionária de caminhões. Foi aí que Hulme deu seus primeiros passos rumo ao automobilismo, atuando como mecânico na oficina do pai e salvando dinheiro suficiente para comprar um MG TF. Em 1956, começou sua carreira profissional ao se inscrever em pequenos eventos regionais de subida de montanha.

Hulme e seu primeiro 'patrão', Jack Brabham, em 1966
Hulme e seu primeiro ‘patrão’, Jack Brabham, em 1966

Quatro anos depois, o New Zealand Driver to Europe, o mesmo projeto que levou Bruce McLaren à Europa, selecionou Hulme e um rival, George Lawton, como representantes do país em corridas de F2 e F-Junior no Velho Mundo. Os dois foram relativamente bem nas provas, mas tragicamente Lawton morreu numa corrida de F2 em Roskilde, na Dinamarca, nos braços do amigo. Chocado, Hulme retornou à Nova Zelândia no início de 1961.

De volta ao país natal, Hulme obteve o título do Gold Star Championship – um campeonato nacional de monopostos na Nova Zelândia – a bordo de um Cooper T51. O Urso também voltou a chamar a atenção dos europeus quando triunfou na classe 850cc das 24 Horas de Le Mans e obteve um segundo lugar, com um chassi independente, numa etapa da F-Junior em Messina. Isso rendeu um convite de Ken Tyrrell a disputar a temporada completa da F-Junior pela Brabham em 1962.

Em seu primeiro ano no campeonato de base, a participação de Hulme foi discreta. No seguinte, porém, o neozelandês venceu metade das 14 provas que disputou na categoria, até então sua campanha mais promissora no continente europeu. Brabham reconheceu este potencial e promoveu Denny à equipe de F2 em 1964. Neste mesmo ano, os dois terminaram o Campeonato Francês com uma dobradinha e o australiano entendeu que talvez fosse a hora de dar uma chance ao Urso na categoria-mãe, a F1.

O título de 67

Em 1965, último ano dos carros com motor 1.5 na F1, Hulme participou de seis GPs pela Brabham. O neozelandês foi quarto em Charade, em sua segunda participação na carreira, e quinto em Zandvoort, cerca de um mês depois.

Hulme com o Brabham BT20 em Mosport Park, em 1967
Hulme com o Brabham BT20 em Mosport Park, em 1967

Quando no ano seguinte Dan Gurney abandonou Milton Keynes para iniciar sua própria operação, Hulme se tornou o ás titular do time. E não decepcionou: completou o mesmo número de pódios que o vice-campeão John Surtees – quatro – e largou duas vezes na primeira fila, em Brands Hatch e Zandvoort. Terminou o certame em quarto, mas deixou boa impressão para um ano de estreia.

Em 1967, diante da fragilidade mecânica do favorito Lotus 49, a disputa pelo título ficou restrita aos pilotos da Brabham. Hulme obteve seu primeiro triunfo na F1 em Mônaco e, no restante do campeonato, só não subiu ao pódio em duas corridas (Spa-Francorchamps e Monza). Como consequência, sagrou-se campeão da classe máxima com cinco pontos de vantagem para o colega de equipe Brabham, mesmo não sendo o piloto com maior número de vitórias – Jim Clark com a Lotus marcou quatro contra dois do Urso.

Foi um prêmio à consistência de Hulme, mas também uma grande surpresa, visto que, poucos anos atrás, o neozelandês sequer era titular em sua equipe.

 O pós-título

O troféu em 1967 foi uma pá de cal na relação entre Hulme e Brabham. Segundo relatos do também neozelandês Chris Amon, ex-piloto da Ferrari e  contemporâneo a ambos, o relacionamento ruiu a ponto de os ases não trocarem palavras durante os GPs. Foi o que levou Hulme então a romper com o veterano e juntar forças com Bruce McLaren a partir do ano seguinte. Os dois, afinal, já atuavam juntos na Can-Am.

Hulme e McLaren descansando durante intervalo no GP da Holanda de 1969
Hulme e McLaren descansando durante intervalo no GP da Holanda de 1969

Mas o “Bruce and Denny Show” que dominou o campeonato de turismo na América do Norte – Hulme foi campeão em 68 e McLaren em 67 e 69 – não se repetiu na F1. Em 1968, o neozelandês disputou o título da classe máxima até a corrida final, mas o caneco terminou nas mãos de Graham Hill. Já no ano seguinte, apesar de uma vitória no Hermanos Rodríguez, Denny passou longe de ser uma oposição à Matra de Jackie Stewart.

A morte de McLaren em 1970 frustrou bastante o time. Para piorar, Hulme sofreu uma grave queimadura nas mãos durante um treino livre para as 500 Milhas de Indianápolis e não pôde participar do GP da Holanda. Ainda assim, o implacável neozelandês conseguiu terminar o campeonato em quarto lugar.

Os anos seguintes foram de altos e baixos. Se a temporada de 71 significou completo desastre, sem nenhum pódio no retrospecto, as chegadas de Peter Revson e do novo patrocinador Yardley no ano seguinte ajudaram a McLaren a recuperar a forma. Neste mesmo ano, Hulme terminou o campeonato em terceiro, com uma vitória e sete pódios – de 12 provas – na conta.

Em 73, os números foram mais modestos, mas à esta altura, o neozelandês, aos 37 anos, já pensava em aposentadoria. Um ano depois, no campeonato em que Emerson Fittipaldi deu o primeiro título à equipe do amigo Bruce na F1, Hulme se retirou do esporte.

Hulme verifica os danos em seu McLaren M23 durante o GP da Espanha de 74, seu último ano na F1
Hulme verifica os danos em seu McLaren M23 durante o GP da Espanha de 74, seu último ano na F1

A vida pós-F1

Hulme continuou a trabalhar na F1 depois que se aposentou. Ele se manteve como presidente da GPDA (Grand Prix Drivers Association) por um breve período até se irritar com o status quo que se formava com o domínio de Bernie Ecclestone. A partir de 78, então, dedicou-se a corridas regionais de caminhão e carros de turismo na Oceania.

Hulme chegou a retornar ao Velho Mundo em 1986 para disputar o Europeu de Turismo a bordo de um Rover Vitesse. Durante esta temporada, viveu um rápida renascer na carreira ao vencer o Tourist Trophy ao lado do inglês Jeff Allam. Logo, porém, já estava de volta à Nova Zelândia.

Dez anos após sua morte, em 2002, Hulme foi induzido ao Hall da Fama Internacional do Automobilismo. Até hoje, ele é o único campeão mundial da Nova Zelândia na história da F1.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Simon Head

    Belo texto – a história do Hulme aqui contada me prendeu a atenção do início ao fim.