Quatro Rodas

Um papo com Stewart: dislexia, dificuldades e os “velhos tempos ruins” da F1

2

No dia 9 de setembro de 1973, uma das carreiras mais bem sucedidas da história da F1 alcançava seu último ato de glória. Jackie Stewart completou o GP da Itália, em Monza, na quarta posição, resultado suficiente para lhe garantir o tricampeonato mundial.

Havia sido uma temporada e tanto para Stewart e a Tyrrell. Um ano depois do primeiro triunfo de Emerson Fittipaldi, o escocês encaixou boa campanha, conquistou oito pódios, incluindo cinco vitórias, e garantiu a taça com duas provas de antecipação. Além disso, Stewart se tornou o maior vencedor da história da F1, superando exatamente o número de vitórias de seu amigo e mentor Jim Clark.

Fique ligado em nossas redes sociais: 
Twitter – @projetomotor
Facebook – Projeto Motor
YouTube – Projeto Motor
Instagram – @projetomotor

O que poucos sabiam, porém, é de que se tratava do último capítulo do livro. Em outubro daquele ano, poucos dias após a conclusão do campeonato, o escocês anunciou que se aposentaria da F1 aos 34 anos de idade.

45 anos depois da conquista derradeira, este foi o primeiro assunto do papo exclusivo de Stewart com o Projeto Motor. “Poder deixar o esporte com o título mundial foi algo muito especial para mim”, relembra.

1

“Venci o campeonato e me aposentei, sendo que eu já sabia há meses que iria me aposentar. Pararia mesmo se eu não vencesse o título. Apenas Ken Tyrrell e pessoas próximas na equipe sabiam, e mais ninguém – nem mesmo minha esposa, Helen.”

Stewart omitiu a decisão de sua parceira não foi à toa. Ele havia se tornado protagonista de uma F1 que, ao mesmo tempo que tinha seus encantos, também se mostrava igualmente cruel com seus diversos acidentes fatais. Portanto, comunicar à esposa de que a aposentadoria definitiva viria, mas que ainda demoraria alguns meses, causaria uma ansiedade que o próprio Stewart considerava ser algo nocivo.

Entretanto, o próprio acredita que lidou com a questão de forma positiva. Stewart já estava com um pé fora da F1, mas ainda assim soube se concentrar para que isso não afetasse seu trabalho. “Acho que a forma com que eu corria era absolutamente a mesma. Isso não mudou minha mentalidade, nem me deixou mais lento ou me fez temer mais pela segurança”, observa.

“Sempre tive que ter o que chamo de gerenciamento mental, e isso não mudou. A minha última vitória foi tão boa quanto as de dois, três anos antes, e melhor do que meu primeiro título mundial. Porque eu sabia mais, tinha mais experiência.”

LEIA TAMBÉM: Jim Clark: como um filho de fazendeiros se tornou um gigante na F1

Analisando em retrospecto, o veterano coloca 1973 à frente dos demais anos em que foi campeão, 1969 e 1971, como sua temporada de sucesso mais livre de contratempos.

“No começo de 71, tive mononucleose e cruzei o Atlântico 86 vezes, já que tinha funções com aparições públicas para Ford, Goodyear e Elf nos Estados Unidos, além de trabalhar como comentarista para a televisão americana. Quase me aposentei, mas ao menos aquilo me rendeu dinheiro”, conta.

2

“No ano seguinte, tive de lidar com uma úlcera, e, novamente, simplesmente segui em frente. Por sorte, não houve efeitos colaterais e isso não afetou nem um pouco a minha pilotagem. Eu adorei o meu último ano até, claro, a última corrida, quando meu companheiro de equipe, François Cévert, infelizmente foi morto. Por isso, nunca cheguei aos 100 GPs e parei no 99º. Mas a minha pilotagem permaneceu a mesma.”

O tal “gerenciamento mental” mencionado por Stewart foi algo presente em sua carreira não só para lhe ajudar na missão de ser competitivo mesmo com a aposentadoria em mente, mas também durante toda a trajetória da construção de seu sucesso.

Durante a evolução de minha carreira, sempre tive de me apoiar na mente, no aspecto psicológico do meu trabalho. Desde que eu era criança, tinha dificuldades de concentração, de aprendizado, então eu precisava sempre me esforçar mais para acompanhar os outros. E também precisei adaptar isso à realidade de piloto, desenvolvendo minha memória naquilo que eu fazia”, rememora.

“Mais tarde, muitos anos depois de eu parar de correr, meu filho Mark também apresentava dificuldades de aprendizagem. Isso foi investigado, e ele foi diagnosticado com dislexia. Por ser algo hereditário, também fui testado, e o diagnóstico: dislexia. Lutei contra ela por toda a minha carreira sem sequer saber, mas, por fazer algo que me provocava paixão, conseguia aplicar outros recursos para ter sucesso.”

F1 SOB UMA PERSEPCTIVA “MAIS ESTRESSANTE”

Stewart GP

Stewart pendurou o capacete ao fim de 1973, mas seu envolvimento com o automobilismo permaneceu em alta – tanto que voltaria a participar da F1 mais de 20 anos depois, desta vez do outro lado da mureta.

A temporada de 1997 foi a primeira da Stewart Grand Prix, uma nova escuderia que ingressava no Mundial. Com parceria técnica com a Ford e patrocínios de empresas do calibre de HSBC, Hewlett Packard e Texaco, o time debutou na categoria com Rubens Barrichello e Jan Magnussen, o que deu a Stewart uma perspectiva diferente de um ambiente que ele conhecia tão bem.

1999
A Stewart GP conseguiu fechar em 1º e 3º no GP da Europa de 1999

“Acho que foi um desafio maior, consideravelmente mais difícil para mim”, admite o tricampeão. “Eu, ao lado de meu filho Paul, começamos a equipe do zero. Nós tínhamos relacionamentos e a bagagem das categorias de base ainda com a Paul Stewart Racing. Conquistamos títulos e tivemos grandes pilotos, como Montoya, Castroneves, Coulthard, McNish, Magnussen, De Ferran… Uma grande coleção de pilotos.”

“Isso me fez ir à F1 e ali vi o quão difícil era montar uma equipe, financiá-la e ter uma estrutura vencedora. Em três anos, não perdi dinheiro em momento algum e conseguimos vencer, e logo no primeiro ano tivemos pódio e boas posições no grid; depois, tivemos pole e vitória. Foi um período bom, mas estressante. Mais estressante do que quando eu corria.”

LEIA TAMBÉM: Quando Stewart voltou ao volante de um F1 depois de se aposentar

“Arrumar o dinheiro, o desafio técnico, os patrocinadores certos… Tínhamos patrocinadores maravilhosos. Foi uma grande experiência que fico feliz de ter tido, mas é certamente muito mais estressante do que ser um piloto.”

E COMO A F1 EVOLUIU?

Stewart 2
Aos 79 anos de idade, o agora Sir Jackie Stewart continua uma figura constante no paddock da F1, já que atua como embaixador de uma das principais patrocinadoras da categoria. Assim, ele pôde seguir acompanhando de perto todas as principais evoluções do esporte – evoluções que, por muitas vezes, pode ser alvo de críticas por parte do público, que teme que a F1 perca sua essência e caia de qualidade.

Stewart perdeu o amigo Cevert em sua penúltima corrida na F1
Stewart perdeu o amigo Cevert em sua penúltima corrida na F1

E, passados todos estes anos, Stewart não tem dúvidas de que a F1 mudou. Mas mudou para melhor.

“O esporte está mais forte do que jamais esteve e está mais atrativo do que nunca. As pessoas parecem sempre valorizar os ‘bons velhos tempos’, mas acho que eram ‘velhos tempos ruins’”, analisa Stewart, que foi um dos principais defensores do aumento da segurança na F1 em seu tempo.

“Perdemos tantos amigos, tantos amigos em acidentes em uma época em que não havia segurança, não havia áreas de escape, os carros eram muito frágeis. Jimmy [Clark], Mike Spence, Jo Schlesser, François Cévert e tantos outros… Acho que o esporte está consideravelmente melhor.”

“E olhe só para os outros aspectos do paddock. Nós trocávamos de roupa na traseira de um caminhão, e agora eles possuem vestiário, sala de massagem e banheiro! Tudo isso é muito melhor. Há mais mídia e o esporte está mais poderoso. Estou muito feliz com o estado da F1 hoje em dia.”


Debate Motor #133 analisa as últimas novidades no mercado da F1:

 Comunicar Erro

Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.