Uma só não basta: pilotos que se dividiram entre F1 e outras categorias

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Os raros pilotos do automobilismo mundial que conseguem chegar à F1 precisam de dedicação total para apresentar seu pico de rendimento na categoria mais exigente de todas. Para poder fazer frente a competidores qualificados e experientes, não deve haver distrações: o foco máximo vai para a F1, onde a margem para vacilo é muito baixa.

Já se foi o tempo em que um piloto podia se dar ao luxo de fazer “meio expediente” na F1 e competir paralelamente em outros certames. Essa época romântica foi substituída por uma era de trajetórias mais segmentadas.

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Entretanto, hoje em dia, não são todos os pilotos que conseguem dedicar 100% de seu tempo à F1. Por motivos distintos, alguns precisam se desdobrar entre categorias diferentes, migrando de um carro para outro e precisando render forte onde quer que esteja.

Na própria temporada de 2017 a F1 viu alguns destes casos. E não estamos falando da louvável atitude de Fernando Alonso, que interrompeu parte de seu cronograma da F1 para participar de um único evento – no caso, o evento, as 500 Milhas de Indianápolis.

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Hartley viveu maratona na reta final de 2017

Isso foi visto mais claramente com Brendon Hartley. O neozelandês dividiu suas primeiras corridas pela Toro Rosso com sua participação regular no WEC pela Porsche, o que inclusive lhe renderá uma tremenda maratona. Das 6 Horas de Fuji, em outubro, até o GP de Abu Dhabi de F1, são sete eventos em sete fins de semanas seguidos. Ao menos isso trouxe recompensas: o título mundial de endurance em 2017 e uma provável vaga de titular na F1 em 2018.

Pierre Gasly tentou ir pelo mesmo caminho. Após fazer sua estreia na F1, no GP da Malásia, o francês ainda se dividiu com a Super Fórmula japonesa. Sua intenção ao perder o GP dos Estados Unidos (assim, dando espaço justamente para a estreia de Hartley) era tentar conquistar o título em terras nipônicas, mas um tufão cancelou a rodada decisiva impediu seu retorno à categoria.

Mas calma que tem mais. Nas últimas décadas, em período em que não era mais comum um piloto ser multitarefa, alguns chegaram a dividir suas agendas. Veja alguns exemplos e mencione nos comentários abaixo se esquecemos de algum.

1991 – MICHAEL SCHUMACHER

Schumacher

Schumacher estreou na F1 de uma hora para outra, quando entrou na Jordan para competir no GP da Bélgica de 1991. Pouco depois, já estava sob as asas de Flavio Briatore e da Benetton, mas ainda assim não se desvencilhou totalmente de suas outras programações.

Aquele ano vinha sendo bem atarefado para o futuro heptacampeão. Ele alternou participações no DTM, F3000 Japonesa (precursora da atual Super Fórmula), além do Mundial de Esporte Protótipos, categoria em que competia regularmente. Assim, quando debutou de supetão na F1, continuou correndo no endurance.

Entre os GPs da Itália (sua estreia na Benetton) e Portugal, Schumi deu um pulo em Magny-Cours para competir na rodada do Mundial de Esporte Protótipos; um mês mais tarde, entre o GPs da Espanha e Japão, disputou o Trofeo Hermanos Rodriguez.

Quando foi a Suzuka guiar pela F1, Schumacher estendeu sua permanência no Japão para a rodada final no endurance em Autopolis, e foi justamente ali que obteve seu melhor resultado, com a vitória ao lado de Karl Wendlinger. A partir de 92, o foco ficou 100% voltado à F1, e do resto todo mundo já sabe.

1991 – JOHNNY HERBERT

Herbert

Herbert, futuro companheiro de equipe de Schumacher na F1, também dividiu sua agenda na temporada de 1991. Ele, que havia fechado a temporada anterior pela Lotus, se comprometera à disputa da F3000 Japonesa, de modo que não conseguiu se dedicar em tempo integral à categoria máxima do automobilismo.

Herbert voltou ao cockpit da Lotus no meio da temporada de 1991, no GP do Canadá. No mesmo mês, fez uma aparição bem sucedida nas 24 Horas de Le Mans, onde venceu a bordo do lendário Mazda 787B.

Dali para frente, Herbert se dividiu entre F1 e F3000. Houve momentos em que as agendas entraram em conflito, e nas vezes em que isso aconteceu, o inglês priorizou a categoria japonesa – e, por isso, perdeu os GPs de Hungria, Itália e Espanha.

1994 – NIGEL MANSELL

Mansell

A Williams foi atrás de Mansell com um pedido de socorro após a perda traumática de Ayrton Senna durante a temporada de 1994. A questão é que o inglês competia desde o ano anterior na Indy, então precisou dar um jeito de conciliar as agendas.

O Leão acabou por alinhar justamente nas corridas em que as datas não batiam, na França, Jerez, Japão e Austrália. Ele conseguiu neste período uma vitória, mas o rendimento não foi dos mais brilhantes. Já contamos essa história com um pouco mais de detalhes.

2009 – JAIME ALGUERSUARI

Alguersuari

Mais um caso de piloto que é convocado de forma inesperada pela F1 e, assim, precisa arrumar um espaço em seu cronograma. Em 2009, a Toro Rosso demitiu Sébastien Bourdais no meio da temporada e recorreu a Jaime Alguersuari, uma jovem promessa que surgia no programa da Red Bull.

Alguersuari estava no meio da disputa da Renault World Series, onde ocupava a oitava posição no campeonato. O curioso é que, depois de ter se juntado à F1, o espanhol evoluiu: pontuou em cinco provas em três rodadas duplas, com direito à sua única vitória no ano, no Algarve (Portugal), e ganhou duas posições na tabela. Já na F1 enfrentou mais dificuldades, já que completou aquela temporada sem conseguir pontuar.

2015 – ROBERTO MERHI E ALEXANDER ROSSI

Rossi

Situações diferentes e parecidas envolveram dois dos pilotos da Manor durante a temporada de 2015. No começo do ano, o time assinou de última hora com Merhi, que havia se comprometido com a equipe Pons na Renault World Series.

Ao longo do primeiro semestre, Merhi combinou os GPs de F1 com as provas na divisão de acesso, onde apresentava desempenhos relativamente discretos – seu melhor resultado havia sido um segundo lugar durante a rodada de Hungaroring.

Mas, na fase final da temporada da F1, o espanhol acabou substituído por Rossi. O curioso é que o americano também teve de se dedicar em meio tempo, pois estava concentrado nas rodadas finais da GP2. Ele estreou na F1 em Singapura, mas teve de se ausentar dos GPs da Rússia e de Abu Dhabi para se dedicar à categoria júnior – onde acabou o ano como vice-campeão.

2015 – NICO HULKENBERG

Hulkenberg

Nosso último exemplo não se encaixa totalmente com o critério, uma vez que Hulkenberg não chegou a ser piloto fixo do WEC em momento algum. Porém, seu esforço em 2015 e envolvimento considerável com o endurance não têm como serem ignorados.

Em seus tempos de Force India, ou seja, quando não estava atrelado oficialmente a nenhuma fabricante na F1, Hulkenberg participou de um plano com a Porsche para as 24 Horas de Le Mans. Para isso, fez uma programação bastante completa, que envolveu a participação em testes privados, nas 6 Horas de Spa e na própria prova em La Sarthe.

Talvez nem o próprio Hulkenberg esperasse por um resultado tão positivo. Entre os GPs do Canadá e da Áustria, triunfou na mítica prova e consolidou a conquista mais importante de sua carreira nas pistas.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.