Vai uma carona aí? Conheça os carros de F1 com lugar de passageiro

7

Acelerar um carro de F1 é oportunidade para poucos. Apenas alguns dos mais gabaritados pilotos do planeta conseguem chegar lá, sendo que muitos outros competidores extremamente habilidosos nunca sentiram tal prazer. Mas saiba que, se poder sentar ao volante de um bólido é chance quase impossível para nós, reles mortais, existe uma alternativa não menos emocionante de sentir a velocidade graças aos carros de F1 com espaço para passageiros.

Se trata de uma ideia quase que óbvia e aparentemente simples, que agitou a forma como equipes faziam ações promocionais nas décadas passadas e mudaram para sempre a forma com que fãs sortudos e VIPs encaravam a categoria. Por isso, vamos lembrar alguns desses carros de F1 para duas e até três pessoas. A ideia deste post foi dada pelo leitor Rodrigo Miguel, a quem agradecemos!

McLaren MP4-98T, o pioneiro

McLaren 98T

Em 1998, a McLaren lançou o primeiro carro moderno de F1 feito especialmente para levar um carona. O objetivo era criar aos seus convidados a experiência única de sentir em primeira pessoa como são as violentas reações de um carro da categoria.

O MP4-98T usou como base o MP4-11, que competiu na temporada de 96. Assim como quase todos os carros daquele ano, o modelo continha grandes proteções laterais para a cabeça, que davam a plataforma ideal para que os ajustes fossem feitos a fim de que uma outra pessoa pudesse se acomodar.

R. Pessoa deu uma volta em um F1 (Divulgação)
R. Pessoa deu uma volta em um F1 (Divulgação)

Porém, as adaptações não eram exatamente simples. Para isso, a McLaren recorreu a ninguém menos que Gordon Murray, um dos maiores projetistas da história da F1 e que, na época, trabalhava no departamento de carros de rua da equipe. A solução foi remover a entrada de ar superior e simplificar o santantônio, usando as proteções laterais já existentes como encosto para o novo passageiro, que ficaria sentado um pouco acima em relação ao piloto.

Se esteticamente havia diferenças, em termos mecânicos o carro era praticamente idêntico àquele que dominou as ações da F1 em 1998. O MP4-98T contava com o motor Mercedes FO110G, da mesma especificação das competições, além do câmbio semiautomático de seis marchas.

Isso proporcionava aos seus passageiros as reações similares às quais Mika Hakkinen e David Coulthard eram submetidos nos fins de semana de GP, mas havia um problema: o carona podia apenas sentir, e não ver o que se passava, já que o encosto da cabeça do piloto encobria a visão do passageiro.

O único MP4-98T construído foi usado à exaustão pela McLaren entre 98 e 2000, período no qual 151 convidados sentaram no banco do carona. Entre eles estão o rei de Espanha Juan Carlos, o ator Michael Douglas, a então esposa de Hakkinen, Erja, e até mesmo o cavaleiro brasileiro Rodrigo Pessoa.

Minardi F1X2, o “carro de competição”

Mansell "correu" com o F1 de dois lugares e aprontou das suas
Mansell “correu” com o F1 de dois lugares e aprontou das suas

O sucesso do MP4-98T fez com que outras equipes copiassem e até melhorassem o projeto. Uma delas, pasmem, foi a pequenina Minardi. Em 2001, o então proprietário do time, o magnata australiano Paul Stoddart, usou a ideia da McLaren como inspiração para o F1X2, mas foi além: no total, oito carros foram produzidos, o que inclusive proporcionou uma corrida bizarra.

As linhas gerais do carro se inspiravam no Tyrrell 026, que fazia parte da coleção pessoal de Stoddart. A área do cockpit era quase 40 cm maior do que o habitual para que o passageiro pudesse se sentar. O espaço para a cabeça do carona era maior em relação ao produto da McLaren, o que diminuía as limitações da visibilidade. O motor usado era o European V10, nada mais que um antigo Ford rebatizado.

Em 21 de agosto de 2001, a Minardi promoveu uma prova exclusiva para os F1X2, em Donington Park, na Inglaterra. Os passageiros, uma mescla de convidados especiais e de fãs afortunados (leia-se, com uma carteira polpuda), teriam como motoristas de luxo nomes como Fernando Alonso, Tarso Marques e Alex Yoong, pilotos oficiais do time, além da participação especial do campeão mundial de 1992, Nigel Mansell.

E é claro que Mansell aprontou das suas. Em uma disputa de posição com Alonso, o Leão ignorou o caráter “amistoso” da prova e acertou em cheio o carro do espanhol, inclusive tirando as quatro rodas do solo por alguns metros. O empresário Jonathan Frost, que desembolsou nada menos que £ 55 mil para acompanhar Mansell de perto na corrida, seguramente não se esqueceu deste dia tão cedo.

A Minardi manteve os F1X2 em plena atividade até o fim de seus dias, incluindo o período no qual competiu na Champ Car, na fase final da década passada. Hoje em dia, os modelos remanescentes foram adquiridos por organizações de GPs, como os da Austrália e de Abu Dhabi, que usam os carros para promoverem as corridas.

Dois é bom, três é melhor ainda

Arrows AX3

A Arrows também construiu seu carro de dois lugares no início dos anos 2000, mas estava incomodada com a falta de visibilidade do passageiro. Foi quando o então chefe de equipe, Tom Walkinshaw, decidiu melhorar o conceito e trazer uma pequena revolução ao projeto: por que não colocar três passageiros em vez de dois?

A ideia aprimorava os problemas dos antecessores e contava com um plus em termos de marketing. Os passageiros passariam a ficar próximos aos ombros dos pilotos e contavam com a visão quase que desobstruída. O novo modelo, batizado de AX3, era somente cerca de 40 cm mais longo que os carros de competição, o que ainda proporcionava uma agilidade satisfatória para a experiência dos convidados.

Barrichello levou sua família para andar de F1 (Divulgação)
Barrichello levou sua família para andar de F1 (Divulgação)

Mas, claro, nem tudo foram flores. A Arrows precisou adiar a estreia oficial do carro por problemas persistentes de superaquecimento do motor, já que as entradas de ar laterais para os radiadores foram praticamente eliminadas com a instalação dos novos assentos. O jeito foi incrementar o duto sobre a cabeça do piloto, permitindo que os propulsores se refrigerassem da maneira adequada.

Como na F1 “pouco se cria, tudo se copia”, a ideia da Arrows serviu de inspiração para a Ferrari, que lançou, em 2005, seu próprio carro de três lugares. O modelo usava como base o todo-poderoso F2002, equipado com o motor V10 da escuderia italiana, e ostentava 845 kg (245 kg acima do convencional).

Os “Frankensteins”

Parece um Renault, mas não é (Divulgação)
Parece um Renault, mas não é (Divulgação)

Nos últimos anos, nenhuma equipe produziu seu próprio carro de F1 de dois ou três lugares. Então, além dos Minardi F1X2 e Arrows AX3 que ainda são usados em eventos promocionais mundo afora, há outros modelos produzidos por empresas especializadas, que contam com antigos chassis de F1 com as devidas adequações.

Um carro frequentemente utilizado é o F1X3, um Jordan EJ13, da temporada de 2003, equipado com um motor Judd V10. Neste modelo, os bancos dos caronas ficam quase que totalmente na porção lateral do chassi, e não “encavalados” aos pilotos, o que dá um aspecto mais robusto ao carro. Nos Estados Unidos, você pode pagar cerca de US$ 1300 para completar duas voltinhas.

Outra solução é o LR3S, fabricado pela LRS Formula, uma sociedade entre o ex-piloto de testes da Benetton Laurent Redon e o empresário Franck Doyen. Neste caso, a mistura é ainda mais estranha, já que o chassi é inteiramente fabricado pela empresa e não se trata de adaptação de um antigo carro de competição. O motor é um antigo Peugeot V10, ou seja, também se trata de uma tecnologia defasada. No site oficial, é possível encontrar pacotes a partir de 399,00€. Para quem pode, vale guardar uma graninha…

Este slideshow necessita de JavaScript.

 Comunicar Erro

Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.