Vanguardista, Audi não precisa da F1 para ratificar sua grandeza

1

Estou entre aqueles que queria ver a Audi na F1. Na época em que os reboots se tornaram frequentes no mundo do entretenimento, imagino como se daria uma renascida batalha entre Mercedes e Auto Union – como era chamada a marca de Ingolstadt nos anos 30 – na atualidade. Adicione a Ferrari à equação, mais Renault e Honda como coadjuvantes, e a trama ficaria extremamente interessante.

Passado o delírio, a Audi precisa da F1? Após a saída de Ferdinand Piech do grupo Volkswagen, especulou-se que a entrada dos alemães, numa provável aliança com a Red Bull, era certa. Mas, apesar de toda a exposição midiática fornecida pelo esporte, a melhor e mais provável resposta seria um sutil “não”.

O motivo mais evidente é o caos administrativo da categoria. Meses atrás, a ideia era atrair as montadoras pelo regulamento técnico: os carros perderam downforce e ganharam pujança mecânica, boa parte dela aplicável aos carros de produção no futuro. Os motores V6, contudo, continuam impopulares, a audiência do esporte só despenca e a proposta divulgada pelo Grupo Estratégico na última semana é, em tese, reformar a modalidade por inteiro.

Ou seja, diante desse atoleiro de problemas, qual seria a vantagem de entrar, pelo menos agora, no esporte? É como o presidente da montadora, Rupert Stadler, explicou ao jornal alemão “Handelsblatt” na última segunda-feira (18):

“Este não é um tema que nos preocupa. Para nós, a F1 tem que resolver seus problemas por conta própria. Enquanto eles não conseguirem isto, nenhuma montadora terá o interesse de ingressar na categoria.”

É fato que nem sempre a Audi se mostrou tão blasée em relação ao esporte. No fim dos anos 90, o grupo Volks comprou a divisão de engenharia da Cosworth com a clara intenção de ingressar na F1, mas o negócio não se concretizou. Em vez disso, a Ford entrou no páreo, após comprar a equipe de Jackie Stewart.

De qualquer forma, aquela época era mais convidativa. Não havia limite de testes no esporte e a Toyota, por exemplo, cumprira uma gorda agenda de ensaios antes de entrar com uma operação completa em 2002.

Bernd Rosemeyer: o grande ás da Auto Union/Audi nos anos 30 (Foto: Divulgação)
Bernd Rosemeyer: o grande ás da Auto Union/Audi nos anos 30 (Foto: Divulgação)

Hoje, qualquer planejamento assim seria impossível. Não somente pelo atual regulamento, mas também pelos planos do Grupo Estratégico para o futuro, que incluem, para se ter uma ideia, a redução de testes na pré-temporada de três para dois. Ou seja: com tantas restrições, qual desafio restaria a uma empresa vanguardista como a Audi, responsável pela popularização da tração nas 4 rodas nos anos 80, entre outras inovações, na F1?

E há o caso da Honda: com todo o glamour em torno da parceria com a McLaren, cinco GPs disputados em 2015 e desempenho ridículo em classificação e corrida. Nenhuma montadora parece estar disposta a assumir um risco tão grande assim.

Por outro lado, o Mundial de Endurance (WEC), atual casa da Audi, não apenas permite testes, como há acordos em vigor para facilitar sessões privadas e conjuntas até um limite de 40 dias por carro. É por conta disso que a Nissan ingressou na modalidade, assim como há rumores de que Ford e BMW pretendem abrir operações num futuro próximo – tanto na classe LMP1 como na GT.

A questão é que, se a F1 pretende atrair grandes fabricantes como a Audi, antes precisa rever seu atual modelo de negócios. Os fornecedores de motores não possuem influência política no regulamento técnico, e a estrutura comercial do circo ainda privilegia as equipes em detrimento das montadoras. Isso, aliado ao engessado regulamento, transforma o esporte numa ótima opção do ponto de vista do marketing, porém duvidosa do técnico.

Ou seja, não há muitos motivos para a montadora de Ingolstadt se juntar agora ao circo. A velha Auto Union continua adormecida.

 Comunicar Erro

Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Eu concordo com a coluna e tal… Mas o retorno de mídia da F1 é colossal frente as demais categorias, não tem jeito, quem quiser atrelar a sua marca ao esporte a motor, tem q fazer isso na F1; pelo menos por enquanto.