Venda de Interlagos finalmente mobiliza pilotos. Que não seja tarde

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Demorou. Demorou bastante. Mas finalmente vimos nos últimos meses uma movimentação mais ativa de pilotos e da comunidade do automobilismo brasileiro sobre a questão da privatização do Autódromo de Interlagos.

Neste dia 5 de junho, enfim, uma comitiva composta por Rubens Barrichello, Luciano Burti, Felipe Giaffone , o presidente da Confederação Brasileiro de Automobilismo, Waldner Bernardo, e o membro da comissão “Interlagos Hoje, Sergio Berti, se encontrou com o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, para discutir a questão.

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Na saída da reunião, pilotos e dirigentes do automobilismo falaram com a imprensa, incluindo a reportagem do Projeto Motor. E o que deu para sentir é que ninguém sabia direito como este processo deve seguir caminhando nem onde vai parar. A verdade é que todos estão preocupados, mas ninguém sabe exatamente o que fazer.

Barrichello explicou que expôs ao mandatário da cidade tanto pontos emocionais sobre a importância do circuito paulistano quanto os técnicos, como geração de empregos, não só no período da F1, entre outros eventos em Interlagos. “O prefeito nos deu o parecer que todo mundo quer manter o autódromo. Isso é o mais importante”, disse o ex-F1.

Parte da comissão que se reuniu com o prefeito de São Paulo: Rubens Barrichello, Luciano Burti, Waldner Bernardo e Felipe Giaffone
Parte da comissão que se reuniu com o prefeito de São Paulo: Rubens Barrichello, Luciano Burti, Waldner Bernardo e Felipe Giaffone

“Não existe nada engessado, fixo ou definido. Existe um processo que se iniciou e está passível de mudanças. Trouxemos para cá toda essa visão com o principal motivo da manutenção do kartódromo e do traçado de Interlagos”, completou o presidente da CBA.

Segundo Felipe Giaffone, presidente da Associação Brasileira de Pilotos de Automobilismo, Covas teria indicado que a privatização ainda depende da regulamentação do Projeto de Intervenção Urbana Arco de Jurubatuba, que já explicamos aqui no Projeto Motor. O prefeito teria dito que, dependendo do que for liberado na área, a privatização de Interlagos pode até nem ser viável. Covas, por sua vez, saiu da reunião sem dar entrevistas.

Toda esta celeuma acontece porque o ex-prefeito João Doria, que deixou o cargo para concorrer ao governo do estado de São Paulo nas próximas eleições, proclamava aos quatro ventos que pretendia vender a área do autódromo por algo em torno de R$ 2 bilhões a 2,5 bilhões, sendo que os novos proprietários poderiam construir hotéis, prédios etc. Caso o PIU não permita esses equipamentos, tudo isso cairia por terra.

Esse tipo de projeto autoriza empreiteiras e incorporadoras a construírem prédios mais altos do que o originalmente permitido pelo Plano Diretor de certas zonas de São Paulo, desde que realizem investimentos urbanos em mobilidade e outras intervenções. Regiões como as da Avenida Luis Carlos Berrini e Faria Lima, nas zonas sul e oeste da capital paulista, respectivamente, são exemplos.

Perguntamos a Giaffone, um empresário com diversos negócios, se ele acredita que pagar um valor deste porte para manter a pista de corrida naquele terreno faria sentido. O próprio admitiu que não, mas ponderou que Doria provavelmente não tinha os números corretos em mãos quando anunciou sua proposta.

Vista aérea de Interlagos
Vista aérea de Interlagos

“O mais importante é que estamos aqui para tentar fazer algo por Interlagos. No Rio, foram aos poucos acabando com Jacarepaguá e ninguém fez nada. Quando viram, já era tarde. Não queremos que o mesmo aconteça aqui”, disse.

A conversa chegou a ser interrompida por uma assessora de imprensa da prefeitura, que veio garantir que o projeto de privatização exige que a manutenção de Interlagos. Tentamos explicar para ela que a questão não é tão clara de longo prazo, e o próprio Giaffone lembrou a questão do Rio de Janeiro e do autódromo de Brasília, que está praticamente parado.

Promessa de Campanha

Sérgio Berti, que lidera a comissão “Interlagos Hoje”, atentou que Covas teria destacado que não pretende desistir da privatização, já que ela está no coração da eleição da chapa eleita para a prefeitura em 2016.

“Foi a melhor reunião que a comissão já fez até hoje. O Bruno [Covas] nos tratou com muito respeito, entendeu nosso posicionamento, mas nós ainda estamos em um jogo político. Ele explicou que a privatização do autódromo é uma promessa de campanha dele e do Doria e que ele não poderia simplesmente quebrar essa promessa. Mas que ele está aberto a qualquer tipo de discussão”, explicou.

Evento de ciclismo em Interlagos (Foto: Divulgação/Autódromo de Interlagos)
Evento de ciclismo em Interlagos (Foto: Divulgação/Autódromo de Interlagos)

Tanto Berti quanto a CBA saíram da reunião desta terça-feira defendendo que o futuro de Interlagos deve ser uma concessão, e não a simples privatização. Para isso, no entanto, é preciso inviabilizar através do PIU de Jurubatuba que outros tipos de construção sejam permitidos na área e que o equipamento possa ser visto como um lugar de valor público para a população, sendo usado como um parque ou para abrigar outras atividades e eventos.

“Temos que fazer com que eles entendam que o autódromo não é deficitário. Isso é fácil de comprovar. E que ele não atende apenas a F1 e o Lollapalooza, que são eventos importantes para a cidade de São Paulo, mas que o automobilismo também é importante, que gera muitos empregos. Essa é a batalha que temos na Câmara dos Vereadores”, concluiu o representante da comissão.

O envolvimento da comunidade do automobilismo é importante. Entidades como a Associação de Pilotos liderada por Giaffone e um nome do calibre de Rubens Barrichello, provavelmente o mais importante em ação no Brasil hoje, são essenciais. Além, é claro, da comissão “Interlagos Hoje”, que já está envolvida com o assunto há algum tempo, porém ainda carece de um apoio maior.

Só que não adianta apenas fazer campanha no capacete e ir conversar com o prefeito. É preciso se aprofundar na questão, estudar, questionar e ir para cima. Afinal, é o destino do principal autódromo do país e, de forma mais ampla, talvez até do automobilismo brasileiro o que está em jogo.

 

F4 no Brasil, briga por Interlagos, Stock e mais | Entrevista com a CBA:

 

 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.